A Capa do Zorro

 

 

 Andava pela beira-mar em minha caminhada costumeira quando encontrei um amigo, que após as saudações saiu com uma pergunta meio marota:

- Afinal, RPires  você é ou não é um garanhão?

Fiquei meio incomodado com a pergunta mas como casei-me por sete vezes resolvi responder ao amigo.

- Garanhão? Nem pensar! Quando muito um cavalo velho, cansado talvez um ex-macho dominante já vencido, superado pelo passar do tempo. A idade amansa qualquer cabra danado!  Entretanto, gosto do belo sexo! A mulher é a obra mais bela que o criador colocou sobre terra!  Mas houve um caso meio esquisito comigo há uns dois meses  atrás... Já passava da meia noite e, se vocês vissem, a coisa se complicaria! Eu estava agarrado com um macho! Calma! Não é nada do que parece! Era uma briga mesmo! Vou contar do princípio!

Naquela noite nosso bebê estava febril e tinha muita dificuldade de conciliar o sono. Aninha estava muito cansada e cochilava pelos cantos. Peguei o Pablito e deitei-me na rede  com ele com a cabecinha meio elevada e após 20 minutos de balanço e cantos de ninar ele deixou-se vencer pelo sono. Já passava da meia noite e levantei-me para um banho refrescante e logo após o merecido sono. Foi quando fui surpreendido por  uma buzina forte que explodiu em meus ouvidos.

-Puxa vida! Meia noite! e um cabra buzinando!

Peguei meu roupão vermelho e corri para o portão. Moro na Rua Santos Dumont 1112. Em frente mora a Vilma da Farmácia, à direita o Benone, mestre do violão! E à esquerda, ao lado da casa da Vilma estava o recalcitrante pendurado na buzina para acordar a mulher, respeitada Senhora da família Taim, para abrir a porta!

-Com mil leões! Este cara  vai acordar todo o quarteirão e de quebra o Pablito que vai dar um grande trabalho danado para dormir de novo!

Não havia tempo para vestir-me.A buzina soava com raiva! POM POM! POOOOMM POM POM!! Abri o portão e mesmo de roupão ( já quase Capa do Zorro) fui apelar para o vizinho parar com a barulheira!

O vidro do carro estava aberto e lá dentro um homem com forte cheiro de álcool! Abordei-o com prudência...

- Amigo, por favor! Sua buzina vai acordar meu filho que está doentinho...

- Seu filho da .....! Eu buzino quanto quiser! Estou em frente minha casa e a rua é pública! Retrucou enfurecido o interpelado.

Apelei, novamente, iniciando nova argumentação quando o homem muito irritado começou a procurar um objeto freneticamente dentro do carro!

- Epa! Parece que a coisa vai complicar o homem além de me xingar pegou um objeto cortante dentro do carro e tentava  abrir a porta  para sair e me cortar!

Segurei com força a sua porta tentando evitar a saída do homem enfurecido!Entretanto estava ficando difícil e tive que soltar. Ao ver que o homem estava saindo e armado tratei de me livrar do roupão que mas parecia agora a capa do Zorro e que me atrapalhava na auto defesa.

Ele estava possesso! Avançava sobre mim e cortava na horizontal da direita para esquerda e vice-versa! Eu pulava como um cabrito doido e num desses pulos consegui retirar a faca num golpe de sorte. (acho que foi com o pé...) Foi quando o vi tateando no chão  à cata da ferramenta agressora. Agarrei-me com ele e rolamos pelo chão. Precisava segurá-lo antes que achasse a arma. Foi quando a família dele, filhos e mulher, desapartaram  as dupla engalfinhada.

Liberto da briga, foi quando notei que estava nu... Procurei pelo roupão vermelho no chão e peguei, recolocando-o ás pressas... É claro que eu estava morto de vergonha... Mas felizmente vivo e com quatro cortes na barriga que sangrava pouco. Fui à delegacia e fiz uma queixa crime contra o agressor  e depois ao hospital onde pedi ao médico  um exame de corpo de delito.

O medico declarou que os ferimentos eram compatíveis com instrumento cortante  e apresentei o laudo à delegacia.

No dia seguinte encontrei com um amigo que trabalha no Boa Vista Resort e que me abordou dizendo. Roberto, um cara que trabalha conosco lá no Hotel, disse que havia quebrado tua cara mas vejo que sua face está intacta... Mostrei os ferimentos a ele e disse: Quebrar minha cara não, mas foi bem pior:  tentou matar-me com uma faca! O amigo ficou chocado e consolei-o dizendo: Calma a coisa vai ficar preta para ele na justiça. Tentativa de homicídio é coisa grave!

Bem, uns vinte dias depois estávamos,  os dois, em frente ao representante da lei numa audiência que foi chamada de conciliatória. É claro que eu não queria acordo com aquele sujeito,  até que ele começou a mentir declarando que eu  havia xingado ele e que o atacara nu. Zanguei-me e pedi a palavra.

Excia, vou provar agora que este homem além de  criminoso é mentiroso. Vossa Excia está propondo acordo conciliatório. Não quero nenhuma indenização deste homem. Quero é que ele se digne a contar toda a verdade sobre o fato acontecido naquela noite fatídica, assim, então, faço acordo: retiro a queixa!

Foi quando percebi que ele estava amedrontado e em cheque-mate. Falou meio constrangido mas contou toda a verdade que refletia o que conto acima. Assinei a retirada da queixa esperando que aquela audiência servisse de lição para que o homem não agredisse mais ninguém.

Encerrado o assunto, dias passados  foi quando ontem a noite, estávamos deitado eu Aninha e o pequeno Pablito quando uma buzina soou novamente! Já era por volta da meia noite. Vesti-me às pressas e corri para o portão para ver quem se atrevia. Mas,felizmente, não era o tal homem. Agora era a vizinha da frente, conhecida e respeitada dona de uma farmácia local que certamente esquecera sua chave e tentava  acordar a empregada e todo o resto do quarteirão com a buzina de seu carro branco.

- Querida, vai acordar todo o quarteirão e meu bebê também, gritei do portão! Foi quando ela de pé, ao portão tocando a campainha,  pediu ao motorista do carro quem na conheci á distancia, que parasse de buzinar! Sorte a minha ser uma respeitada senhora pois facadas não agüento mais... E dizem por aí: No Ceará não tem disso não...  

                                                    

                                                                                                                  RPires