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O Velhinho e a Nota

 

 

     Já era noitinha e parei o carro no já extinto Roncy da Barão de Studart, hoje ocupado por outro gigantesco Hiper Mercado que agora não lembro o nome, dizem que fechou por briga de família... (Será?)  Lá vem o tal da digressão outra vez... Bem, já ia saindo do carro e pretendia comprar algo para o jantar. Estava liso como um “muçum ensaboado” e tinha na mente a nota de dez, remanescente do dinheiro recebido do árduo mês de trabalho. De repente, fui abordado por um velhinho, logo na entrada. Parecia-me bastante depauperado e implorou-me por uma esmola. Disse, quase gemendo, que precisava se alimentar... Isto cortou-me o coração! Se tem uma coisa que me comove até as lágrimas, é um velhinho ou uma velhinha sofrida. Por isso, meti a mão, prontamente, no bolso á procura de uma moeda perdida. Algo parecido com dez centavos veio-me a mão para alegrar. Quando ia lavar minha consciência com aquela ninharia, aconteceu o inusitado: explodiu dentro da minha mente uma voz imperativa dizendo:

     - A NOTA!

     Fiz-me de besta e retruquei com minha consciência: 

    - Que nota?

    -A DE DEZ

    - Ficou doido? Respondi, pra mim mesmo naquele monólogo absurdo!. Esta é a única nota que tenho para levar algo para completar a janta; mais a consciência foi implacável: 

    -VOCÊ ESTÁ GORDO COMO UM PORCO! ESTE VELHINHO ESTÁ FAMINTO! NÃO DISCUTA MAIS: A NOTA... JÁ! 

    Meti novamente a mão no bolso e meio a contragosto e entreguei ao velhinho o dinheiro, como desaforo, a moeda também. O pobre do velhinho sem se aperceber do drama do qual era protagonista, ao ver a nota de dez, caiu de joelhos, quase me beijando os pés abençoando-me até a última geração. Puxei-o para cima e disse-lhe: 

     -Sou um crápula. Ele não entendeu nada.

     Sai dali, quase correndo, com a cara vermelha de constrangimento: eu mesmo, sem entender o corrido. Diria até, com cara de tacho! 

     Preocupado ao chegar em casa pensando como poderia explicar o fato, uma vez questionado pela encomenda que deveria trazer para o jantar, encontrei estacionado, bem em frente a minha garagem, um belo carrão que eu já conhecia: Era o Pedô e a Irene, casal de amigos mais ou menos abastados.(pelo menos comparando comigo). Desci do carro, apressadamente, e fui abraçar o jovem casal.

     Ao abraçar-me, disse Pedô: 

    -Roberto, só você pode me salvar, estou indo para o sítio e o pequeno rádio-transmissor do meu carro enguiçou. Você sabe, no sítio não tem telefone e minha única comunicação é este radinho.

     Pedô, assim como eu e vários colegas cearenses, como Edson Ventura, Daniel de Queiroz,  Roberto Machado, José Guimarães, Herbert Aragão e até Soares Feitosa, hoje um dos maiores poetas da atualidade, éramos (éramos, uma ova, ainda somos), radioamadores e adoramos os radinhos para bater papo fiado. Mas este é outro assunto, mas para frente em outra reportagem.

     A diferença é que eu era o cara que consertava os equipamentos! Além de amigo, eu era o servidor do grupo com uma pequena empresa chamada “QTH do radioamador”, logo ali perto, na Silvia Paulet.

    Ao tomar conhecimento do problema  olhei para o casal e disse: Isto é canja! Já já seu radinho estará funcionando. Em seguida eu estava na oficina com o radinho na bancada, com as “vísceras para fora”, todo aberto. Descobri que o pequeno fusível interno estava queimado. Um pequeno ferro de soldar, e zás! Resolvido o problema que tanto perturbava o amigo. Disse-lhe que era só aquela bobagem do fusível e notei o ar de admiração do meu cliente que logo perguntou quanto custava. 

     -Mas Pedô, que pagar coisa nenhuma! Nunca cobrei uma besteira de troca de fusível aos meus clientes. Siga sua viagem e vá com cuidado, pois o trânsito está de lascar.

      Pedô deu-me um abraço e senti quando a mão dele se introduziu no bolso da minha camisa e colocou lá algo que imaginei uma possível forma de agrado. Não me fiz de rogado, afinal nem podia. Calei-me, e fiquei balançando com a mão em forma de Tchau! enquanto o casal seguia viagem.

       Meti a mão na camisa assim que me senti a sós e quase caí sentado: Era uma gorda nota de cinqüenta, novinha em folha, até estalava ao toque da minha agradecida mão. Olhei para cima (ou para dentro?) e vi (será?) uma fisionomia divina com um sorriso meio maroto que logo se dissolveu...

       Passei,  de  volta  para  casa,  no antigo  Roncy  e  vi  uma  cena  que  foi mais  gratificante  do  que  a  nota  de  50:  o  velhinho  estava  sentado  na calçada  do  mercantil,  com  uma  Coca  Família,  um papel pardo  forrando  o chão, em forma de mesa e alguns  pães  com  mortadela  os  quais  o  “antigo velhinho  faminto”  comia, sem notar  nada  em  sua  volta. Olhei para o céu com olhar de cumplicidade e sorri satisfeito .                                                                                                                 Rpires                                                                                                                     

( In "Crônicas  de Uma Vida" - Pag. 48)  

 

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