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- RBSOTERO -
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VAMPE Vai para uma década, mais ou menos, que apareceu por aqui, atraído pela exuberante beleza de uma jovem destas paragens, segundo ele próprio me contou depois (daqui a pouco digo o nome do casal, se o leitor, no desenrolar da crônica, não o descobrir antes), um parente distante (tenho suspeita) do Conde Drácula da Transilvânia, de que nos fala a Literatura e nos assombra as fitas de terror. Aquele sujeito estranho o quanto podia ser (metido a bonitão), não deu, entretanto, a viagem perdida, pois ela, ao que parece, já o esperava ansiosa, se é que não fora enfeitiçada pelo "olhar 43" dele, como acontece nos filmes do gênero na televisão. O certo é que se ajeitaram, lá à maneira deles, de sorte que hoje um parece ter sido feito para o outro (coisas do coração, de que não entendo bem). Ele falava pouco e era esquivo. Passou uns dois anos arredio, sem travar amizade com ninguém, fugindo de qualquer pretensa amizade, como o diabo foge da cruz. Parecia até que nós, pobres mortais, lhe causávamos náuseas. Por isso, ou talvez para fugir à luz do sol (que os vampiros detestam claridade), só saía à noite, depois que o sol há muito se tinha posto. Como a vida noturna da nossa cidade era pouco movimentada naquela época (e hoje em dia ainda é mais), ele se aproveitava do pouco movimento das horas mortas para as fugas do castelo que mandara construir à margem esquerda da rodagem que nos leva à Fortaleza e outras bandas, distante sete quilômetros de qualquer vivente (não disse que o sujeito era estranho!). Aparecia, vez por outra, nuns carrões importados, que o bicho, além de nobre, era rico como o cão (hoje é ainda muito mais!). Pois bem, como eu dizia, se porventura encontrasse nessas fugas algum notívago, tratava de passar ao largo para evitar qualquer contato; se tal encontro fosse inevitável, como esses que se dão no interior de um recinto qualquer, por exemplo, ele ia postar-se nos cantos mais isolados do local, onde a luz ia bater com dificuldade e, ali, ficava calado, talvez a remoer a nobreza da sua linhagem, os seus ascendentes. O tempo, entretanto, escorria entre os dedos, como cai a areia da ampulheta, e como o tempo se encarrega de tudo, foi tratando de nivelar, na medida do possível, as diferenças de hábitos, que não eram poucas, entre o suposto descendente do Conde e nós outros. Ele foi dando de ficar menos furtivo, e nós, menos perplexos. Já não resvalava pelas sombras da noite e agora arriscava um olá e um adeus, depois um sorriso sem jeito e, por fim, um aperto de mão etc. Assim se passaram dez anos, como diz a canção, e, depois de olhares dissimulados, suspeitas infundadas, encontros e desencontros, risos metálicos, enfim, a nossa amizade! Apesar de ter sido um parto difícil, ela cresce como o vigor de um menino sadio. É certo que ainda temos a barreira dos hábitos a nos separar, pois, geralmente, quando acordo, ele está se deitando. Quando janto, ele almoça e enquanto sonho, ela janta; isto sem falar naquela suspeita de ele ser vampiro, que até hoje não deixei de mão. Desde que o conheci, não saio sem uma cabeça de alho e um galho de arruda por precaução e qualquer dia, de chofre, boto-lhe um espelho pela cara, só para confirmar o que penso. O que falo, falo de brincadeira: ele só é vampiro nos hábitos noturnos; no mais, é um sujeito normal, e quem vai à casa dele (um castelo, e isto é de verdade) encontra logo na entrada uma Virgem que ele mandou vir de Fátima, em Portugal. Das duas uma: ou ele é muito devoto da Santa, ou, se assim não for, tem muito bom gosto o danado! Para quem ainda não descobriu de quem se trata estou falando do meu grande amigo Augusto e de sua bela mulher, a amiga Auxiliadora. Obs. Não disse senhora Auxiliadora, porque, segundo o Dezô e o Raimundo Vidal, machões sindicalizados, aspirantes ao Clube dos Cafajestes, só se diz "senhora" quando o marido é daquele tipo que apanha da mulher. Não parece ser o caso do amigo em questão, suponho. Nestes últimos anos, tenho procurado; mas não vi, lá pelo corpo dele, hematomas ou escoriações que denunciassem tal fato. Só se ela descobriu aquela técnica dos torturadores, que não deixa marca. R.B.Sotero
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