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O SONHO
O sonho, este mistério que convivemos no dia a dia, digo noite a
noite, às vezes, nos faz surpresas especiais. O que lhes vou
contar é meio apocalíptico, porém sem as figuras complexas do
livro bíblico. Aliás, até hoje, ainda sinto os efeitos deste
sonho que, apesar dos adjetivos que usei acima, não chegou a ser
um pesadelo.
Foi lá pela década de 70, quando eu estava envolvido na direção
de uma empresa de nossa propriedade, na área de engenharia elétrica.
Na época, eu era um jovem e dinâmico empresário, tinha fama de
sempre
conquistar o que desejava. Um dos nossos funcionários dizia:
”Se o Dr. Roberto mandou fazer é melhor fazer, senão ele vem e
faz só para te humilhar... ” Ë claro que, na época, eu não
compreendia que este tipo de ato é altamente constrangedor e
humilhante. Chega, porém, de digressão e voltamos ao sonho que,
com certeza, mudou o destino daquele jovem inexperiente; mais bem
sucedido profissional da eletricidade.
Naquela época, dinheiro, para mim, não era problema, mas sim, solução.
Sonhei
que estava carregando água para o alto de um morro com dois
baldes: um em cada mão. O forte da coisa é que se tratava de uma
ordem divina! O próprio Deus havia “Decretado” para mim está
tarefa! E eu estava muito revoltado com o trabalho, pois, na minha
idéia, aquilo era uma tremenda “traquinagem divina”. Para que
Deus, O Todo Poderoso, estava submetendo uma frágil criatura como
eu a fazer um serviço “brabo” como aquele que me cansava
tanto? Isto sem contar a tremenda preguiça que tomava conta do
meu ser, só de pensar naquela tarefa! Ao chegar ao cume da
montanha, com os baldes, eu deveria colocar a água trazida num barril, daqueles
de 200 litros, onde estava escrito a tinta branca, sem muito
capricho: Roberto Pires. E claro que na minha má vontade eu balançava
os baldes para entornar a
máximo de líquido, pois, não só aliviava o peso da carga, como
também a
minha ira secreta contra
a injustiça a que estava sendo submetido. Era comum naquelas
viagens eu chegar ao cimo do morro com dois dedos d’água no
fundo de cada balde. E o barril!? A
última vez que o vi tinha
mais ou menos a irrisória
quantia de um palmo d’água
no fundo, se muito!
Durante uma daquelas subidas, as trombetas, finalmente, soaram!
Era
o fim do mundo e da tarefa humilhante e suada, graças a Deus!
Em
meio a uma correria dos diabos, dirigi-me ao centro da cidade à
procura de uma das Lojas Americanas, pois precisava preparar-me
para uma entrevista divina. A loja
estava quase vazia! Uma vez lá dentro, e só, facilmente achei o
que procurava: um recipiente de tinta
cor de ouro em Spray. Sim! cor de ouro, pois precisava ir ter com
o Senhor e me sentia feio, nu como estava, em pêlo! O assobiar
do Spray era o único ruído naquele abandonado recinto e, aos
poucos, fui ficando bonito como uma estátua grega! Olhei no
espelho e gostei... Já
estava na fila, o menino dourado, e não demorou para que um dos
assessores da porta do céu me falasse indagando: “O que? Falar com o
Senhor com esta decoração espalhafatosa? Nem pensar. Aqui só
tem lugar para os puros! Entrei em pânico! Preparar-me com o
que tinha de melhor para aquele momento e... não poder entrar!
-Claro! Deste jeito, não! Disse o centurião mal encarado!
Mas tem uma chance, completou: ali ao lado tem um reservado, vá
lavar-se, e purificar-se, e volte, que será recebido! Virou-se
para o lado e disse: o próximo!
Entrei
decepcionado no recinto indicado e dirigi-me para um box
reservado, separado por uma pequena cortina, talvez de plástico.
No centro do local, reconheci o barril com o meu nome mal escrito com
tinta branca. Senti muita aflição, debruçado sobre ele, vendo o
pequeno volume d’água no fundo, em confronto com a quantidade
de tinta dourada que impregnava meu corpo e que tinha de ser
lavada. Foi uma frenética esfregação com a pouca água e uma
escova de madeira ovalada com grossos fios amarelos... De repente,
acordei-me sentando na cama de um só pulo. Era por volta das cinco
da manhã o que vi no mostrador fosforescente tirante a verde na
mesinha de cabeceira do quarto. Pensativo, ruminando o sonho, não
mais conciliei o sono.
Tive que rever minha relação com o dinheiro, (ouro), e com o
poder. Achei que o referido sonho foi, para minha alma mística,
um alarme: Precisava carregar mais e mais”água”. Percebi que
estava neste mundo não com o objetivo de acumular bens terrenos,
que as traças, a ferrugem ou os amigos do alheio podem me tirar;
Mas, sim, de aprender o verbo amar na sua plenitude. Caro leitor, esta foi minha grande descoberta, catalisada pelo sonho: a verdadeira razão da existência, representada pela água e pelo amor! Amor a cada ser vivo, seja humano ou não, pois todos somos colegas de curso nesta grande faculdade de relações que é a vida! ( In "Crônicas de Uma Vida"- Pag. 34) |
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