No fim da matéria,  um presente virtual  para você que ama Camocim!

  TEJE SOLTO!

 

      Notícia ruim é coisa pra correr ligeiro, pois logo Deolinda ficou sabendo da prisão do companheiro e da sova que o cabo havia dado nele.

     - Aquele nego véi quais se lasca de apanhar, lembrou um menino que descia aos búzios ao companheiro.

     - Que nego véi é êche, hem, macho? indagava o outro, sem se lembrar do ocorrido.

    - Aquele ladrão de porco lá dos Coqueiros!

    - Sim! agora me alembrei! Era pau nos lombos, pau na cabeça! Também quem foi que mandou ele ir robar os barrão dos outro.

   - Entõm-se! Cuma era o nome dele?

   - Era... era... era num sei o quê!

   - Era Mané Pedo, Abel!

   - Era mermo; mais Abel é a veinha, asseverou o outro.

   A estas palavras, Deolinda, que já andava fraca pelo passadio, quase tem um passamento. Empalideceu e ficou fria. As mãos umedeceram de repente! Passou uma nuvem negra pela vista. Quis gritar por socorro; mas amordaçou o grito na garganta. Quem estaria disposto a ajudá-la? Ninguém, por certo! Então ela arrancou forças de onde já não tinha, suspirou fundo, ajeitou os trapos, escanchou o menino às ancas, botou os cacarecos na cabeça e, mais que depressa, saiu à procura do seu homem, perguntando a um e a outro onde ficava a Delegacia.

    - É ali, dona, apontava um senhor de idade avançada para uma construção irregular, com uma fachada grosseira e de janelas agressivas, onde havia uma sentinela a montar guarda na entrada e um urubu pousado pela na cumeeira. Uma coisa assustadora!

    - Ô de casa! saudou ao guarda.

    - Que gaiatagem é esta? Quer ser presa? Não tá vendo que isto não é casa! Ainda mais essa! Passa! Passa!  Vai! se não te boto em cana, sua merda!

    - Mas seu menino, eu só queria por os zói em Mané Pedo, meu marido. Me dicheram que ele tá aí.

    - Sei lá quem diabo é Mané Pedo! Raspa daqui! que já estou perdendo a paciência, seu caralho de asa!

    A mulher não arredava pé, malgrado as ameaças da sentinela que já gritava empurrando-a para fora, causando tal burburinho que foi bater na sala do delegado. "Anselmo, ô Anselmo, vai ver que diabo se passa lá fora!" gritou o delegado por trás de um rolo de fumo ao comandado. Este fez a diligência com a velocidade de um raio.

    - É uma catraia que diz ser a mulher do ladrão de porco.

    - Trás ela aqui, depressa!

    - É pra já, chefe, disse o puxa-saco batendo continência e dando meia-volta.

     Que diabo de barulho é este, mulher? Tava desacatando a autoridade, tava? Só não te prendo agora mesmo por causa deste macaco que tu carrega na cacunda, disse apontando com o cigarro pé duro e malcheiroso para Manuelzinho, que andava espantado de fome e nem desconfiava daquela novela.. Nisto o cabo já estava abrindo as algemas.

     - Precisa não, Anselmo, quem diabo vai ficar com o macaco?

     - Se o chefe quiser, a gente dá um jeito.

     - Deixa pra lá, desta vez ela escapou. Tem o dia da caça.

     - Seu Zé, eu só queria o meu marido, o Mané Pedo!

     - Então você é cúmplice, não é? Vou é lhe dar uma sova, sua vagabunda!

     - Num sei o que é isso, não, seu Zé.

     - Pára de me chamar de Zé. Zé é o caralho, entendeu?

     - Sim, sim, seu... seu... seu menino! Nós vem do mato, do pé-da-serra.        Cheguemos onte ou foi ontonte, já nem alembro. Só sei que meu marido nunca pegou no alheio. Não sei que conversa é uma de porco, não! Meu marido é um home trabaiador. A gente tinha as coisa. Tinha bicho grande e criação. Tinha roça de medida; mas vêi a seca e levou tudo. Meu marido é sero, seu menino, juro por tudo que é mais sagrado, dizia Deolinda aos prantos, beijando um crucifixo.

     O delegado parece que serenou. Coçou a cabeça, tirou uma baforada do cigarro, pigarreou e disse: "Como se tira uma estória desta a limpo, hem, Anselmo?

     - É mentira desta cotrovia, chefe, atalhou o cabo já pegando do cassetete.

     - Se o chefe quiser, eu arranco a verdade de dentro desta puta!

     - Sei não, Anselmo. Deixa ver... Quem pode confirmar esta ladainha, mulher? inquiriu suspeitoso o delegado.

      Deolinda pensou, pensou; mas as idéias não ajudavam. Estava tudo muito confuso. Não havia uma resposta. A sua mente estava toldada como as lagoas nas primeiras chuvas do ano. Era uma confusão só no seu juízo!

     - Vamos! ou me arranja uma resposta convincente, ou te meto já nas grades. Não me importa mais o macaco.

    - Sim! Eu sei, eu sei, eu sei, seu menino, gritava Deolinda depois de uma perturbadora pausa para assentar as idéias. Gritava como uma menina que tivesse achado uma boneca que julgava perdida para sempre.

     - Então desembucha. Não tenho tempo a perder!

     - O home do carro! O home do carro!

     - Que homem é este, mulher?

     - O que troxe a gente lá da muié, daonde dei um passamento.

     - Danou-se! Eu lá sei de carro, de homem, de mulher, de passamento! Fala direito, que já estou me aporrinhando com isso.

     O carcereiro ouvira a história e aproximou-se do escritório da fera:

     - Licença, doutor! Por aqui só tem o carro do Raimundo Serrote e do Pedro Rufino. Este foi pra Fortaleza na semana passada. Logicamente só pode ser o do Raimundo.

     - Vai lá no Raimundo, Anselmo, saber direitinho desta história. Vai; mas me volta logo, pois se isto for mentira o cacete vai comer nos lombos desta égua. Não quero nem saber o que vai ser do macaco!

     O cabo foi num pé e voltou noutro. A história era verdade, pra felicidade de Deolinda e Manuel Pedro. Quem não gostou nada disto foi o cabo, pois desde que o dia amanhecera, ele contava as horas para levar o preso às Barreiras. Era um tal de consultar o relógio, aviar os instrumentos de tortura, cuidar de cada detalhe para o sucesso da operação. Cansou de assobiar aquela musiquinha, prelúdio da tortura anunciada... Foi tudo por água a baixo, tudo em vão!

     Deolinda saiu daquele antro úmido e malcheiroso arrastando o menino, o seu homem e a si própria, sabe Deus para onde, à procura de improvável recurso, e o cabo ficou com uma decepção deste tamanho, olhando o chefe que se escondia atrás de uma nuvem de fumaça.

     - Tem nada não, cabo, quando aquele cabra da Marela sair do hospital, a gente vai quebrar ele todinho de pau, que é pra ele deixar de arruaças. Nós só adiamos o nosso piquenique. 

 R.B.Sotero

 Foto de Moacir - Edição Gráfica de RPires

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