A FELICIDADE É UMA QUESTÃO DE PONTO DE VISTA.

 

 

Há muitos anos, quando eu ainda tinha uma montoeira de botes a vela (mais de uma dezena deles!), vivia sempre numa azáfama danada, aviando o abastecimento dos mesmos para nova viagem em alto-mar. Era rancho, lampião, poita, fateixa, âncora, austarga, enxárcia, bujarrona, bússola (naquele tempo não havia o GPS), calafate, catraia, moitão, agulha de palombar, lona fluminense... enfim todas as coisas do velame, massame e poleame das embarcações, de que nos dá conta a Marinharia. Isto sem falar no despacho regulamentar do rol de tripulação e equipagem e nas vistorias em Seco e Flutuando - coisas de Marinha que me davam um aborrecimento deste tamanho -!

Como podem ver pelo relato, a minha vida era uma barafunda naquele tempo. Era um tal de andar pelos distritos policiais a procura de pescadores, possivelmente presos, que não apareciam para a saída. Muitas vezes não estavam onde eu os procurava: ia encontrá-los, muitos deles, nos hospitais, com as caras quebradas, pequenas facadas, olhos arroxeados, braços desarticulados, lábios fendidos... tudo por obra e graça das farras que faziam com o dinheiro que era adiantado para aquisição do aviamento de pesca, conhecido no jargão da praia como "vale de saída", ou então por causa de um desastre amoroso, coisa tão comum na classe. Isso sempre dava origem a uma sessão de pancadaria, onde, geralmente, o amante levava a melhor, que corno é bicho pra não ter sorte e o desafeto é sempre muito mais forte, razão da escolha da mulher! (Certa vez, um deles, o marido, chegou do mar alta madrugada, doido para tomar um banho e descansar, fatigado que vinha de uma viagem de mais de vinte dias. Chamava pela mulher, que não respondia. Era só aquele silêncio constrangedor envolvendo a casa. Começou chamando baixinho, quase num sussurro, mas foi elevando a voz e já bradava, de sorte que acordou a rua toda. Um vizinho aporrinhou-se com o alarido e disse: "Deixa de grito, seu corno, senão vai acabar acordando fulano de tal que está dormindo com a tua mulher!" Nisto ele, desesperado, meteu o chute na porta para arrebentar com tudo; ao que o amante gritou lá de dentro: "Pode parar, seu corno! Se entrar, vai comer é faca, que a mulher agora é minha e em mulher minha ninguém toca. Fica calmo que é melhor! Vou mandar ela jogar teus panos de bunda no meio da rua." Nisto a descarada, mais que depressa, arrumou tudo numa trouxa e a jogou pela janela. O pobre coitado, corno que dava pena, sentou-se no fio de pedra, choramingando como um cão que tem sarnas, feridas e sinais. Chorou, chorou, chorou e depois tomou o rumo da venta. Até hoje não se sabe do seu paradeiro. A mulher!? esta faz vida nos cabarés da estrada do Lago). Outros não estavam num lugar nem noutro, pois se metiam na carraspana e enfiavam-se nas alcovas dos prostíbulos e só apareciam dois ou três dias depois, quando o barco já estava arriando o ferro no Seco de Santana, em frente dos Lençóis Maranhenses, a barlavento do Farol do Mandacaru. Alguns ficavam ainda escondidos nas esquinas do Terra-e-Mar , só esperando o bote levantar a verga para, em seguida, aparecerem cheios de direito e coisa e tal!

As histórias de cada um eram diferentes, mas os desfechos eram iguais: todos precisavam de outro vale, pois o adiantamento fora comprometido com uma despesa inesperada. Os casos eram os mais absurdos possíveis: era a mulher que fora embora levando tudo, era uma dentadura partida, a mãe hospitalizada, um filho que morrera etc. Certa vez chegou um, chorando, dizendo que o irmão morrera na madrugada e convidando toda a tripulação para o enterro que seria pela tarde. O barco, por isso, não saiu pro mar e, na hora marcada, todos foram ao funeral, mas, quando se aproximaram da residência do dito cujo, em vez de choro ouviram foi o troar da radiola tocando a toda altura o baita sucesso "Eu não sou cachorro não" de Waldick Soriano. Apressaram o passo para ver o que havia, e lá estava o sujeito entornando toda a safra de aguardente da Ibiapaba daquele ano. Nem irmão o diabo tinha! Havia um que todo mês morria-lhe um menino. Acabou atrapalhando-se com os nomes, que eram muitos os columins, e enterrando o mesmo filho duas ou três vezes! Entretanto, poucos admitiam ter perdido o dinheiro, embora, bêbados como andavam, muitas vezes, o perdessem de verdade, isto por que na Praia há um ditado que diz: "Não tenho fé no homem que perde dinheiro nem na mulher que acha."

Pois bem, no meio desse torvelinho todo que era minha vida, certo dia, numa correria medonha para aprestamento dos botes, quando passo pelo comércio do Pretinho do Zé Albino, para aquisição de aviamentos de pesca, já quase pela ave-maria e sem ainda ter tido tempo para o almoço, vejo um cidadão embriagado, caído sob o peso da aguardente, dormindo placidamente pelo chão úmido de cuspe e aí pensei com meus botões: este homem encontrou a sua felicidade, e eu, desesperadamente, a procurar a minha, que é tão fugidia!

Daquele dia em diante tratei de procurar uma felicidade menos arisca e, assim, fui desfazendo-me dos botes, um a um, até o último! Aprendi a lição com aquele ébrio que dormia candidamente pelo chão imundo. A felicidade dele estava no beber até cair. Nós outros é que procuramos uma felicidade remota e por isso inatingível, como nos versos de Vicente de Carvalho (Poemas e Canções): "Existe [a felicidade], sim; mas nós não a alcançamos/ Porque está sempre apenas onde a pomos/ E nunca a pomos onde nós estamos."

 

 

R. B. Sotero.

                                                                         

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