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MORANDO NUM PROVEDOR
A
idéia começou quando em uma de nossas viagens de negócios à capital,
resolvi ir ao belo apartamento, na Beira-Mar, onde mora o amigo e grande
poeta Soares Feitosa. Soares, depois de um quase festivo recebimento,
levou-me à sua biblioteca e sala de trabalho, onde estava instalado o seu
computador. Ligou-o e me apresentou o Jornal da Poesia! Fiquei encantado com
a beleza do "Site" que viria a reunir mais de mil poetas da
língua portuguesa.
Contou-me
Soares Feitosa que, em uma de suas primeiras conexões à Internet, foi aos
procuradores internacionais e pediu uma pesquisa de Castro Alves: "Not
Found!", foi a resposta! Procurei em todos os programas por outros
grandes nomes da poesia de nossa língua e a resposta foi a mesma: Não
encontrado! Daí, veio a idéia de criar o Jornal da Poesia e reunir
milhares de poetas da língua portuguesa para que nunca mais recebesse
respostas como "não encontrado!", continuou o poeta. Assim,
Soares Feitosa criou o Jornal da Poesia,que foi hospedado em um provedor
baiano, na época, chamado Seges, se não me engano! Hoje, está na
Secrelnet.
Foi
neste clima de entusiasmo para com a Internet e a poesia que viajei de volta
para Camocim com a idéia de, um dia, levar "O Literário" para
ela. Mas barreiras intransponíveis estavam em nossos caminhos: Camocim
estava afastado de um bom ponto de acesso à Internet por volta de 370 km.
Isto significava gasto de muito dinheiro com ligações interurbanas. Na
época, eu já fazia tímidas incursões à rede internacional de
computadores, que eram limitadas pelos protestos da Aninha quando a conta
telefônica chegava! Uma delas gerou a astronômica quantia de R$400,00 -
quase apanho! A idéia de colocar "O Literário" na Internet não
passava de um simples sonho distante.
Começamos
a trabalhar na idéia de trazer a Internet para Camocim, já que a cidade
não podia ir até ela! Após dois longos anos de lutas e parcerias,
começamos a ver uma luz no final do túnel. Foi quando juntamos a
Mca-Informática, Ampertronic e Prefeitura Municipal que,
finalmente, em dezembro de 1999, inauguramos a Camocimnet. Dias depois, a
primeira edição de "O Literário on Line" seria publicada nela.
Para
que a coisa pudesse dar os frutos desejados, visto que outro dos nossos
sonhos, ainda em curso, é a Internet na Educação, puxei o provedor para
dentro de nossa residência, que era na época, o local indicado para que as
coisas dessem certo.
Para
que este provedor ficasse dentro de nossa casa, tínhamos alguns preços a
serem pagos! Um deles, talvez o pior, era a quebra de privacidade. Tomei o
cuidado de não alertar a Aninha sobre este problema, pois se ela
percebesse, adeus aos planos! Logo no primeiro mês, a coisa começou a
ficar preta: Certa noite, eu havia acabado de deitar-me (duas e meia da
manhã), quando o telefone tocou! Era um de nossos queridos usuários que
foi dizendo:
-
Professor, esqueci minha senha! Como posso navegar sem ela?
-
Não pode, respondi. Entretanto, penalizado, completei: entre com o login
rpires, cuja senha é a palavra ka e boa sorte! Amanhã reimplanto outra
senha para você. Despedi-me e fui dormir, enquanto o colega surfava pela
Net. Eu pensava: "Navegar é preciso! Viver não é preciso!" -
Malditos Reis de Espanha e Portugal!
De
outra feita, navegávamos, eu e Aninha, até tarde,porém numa breve e
tímida passada por uns sites eróticos, que acabaram mexendo com a nossa
libido e fomos já praticamente em núpcias, para a alcova. No melhor da
festa (a coisa estava esquentando!) o maldito telefone tocou e na esperança
de salvar o bom clima recém-chegado, resolvemos ignorar os rings
inconvenientes daquele intruso. Continuamos o momento de amor, mas ele era
implacável: tocava, tocava e tocava. Por fim, parecia que estava ali, na
cabeceira da cama! Levantei-me "portugal da vida" e ouvi a queixa
do internauta:
-
Professor, não consigo conectar... respondi mal-humorado:
-
Nem eu!
-Professor,
eu quero navegar!
-Eu
também, meu prezado!
-Mas
está duro! Não consigo conectar de jeito nenhum.
-
Para mim não está mais... por fim, percebi que aquela conversa era inútil
e, se eu não resolvesse o problema dele, ninguém navegaria em parte alguma
naquela noite.
Fui
até a sala dos equipamentos e percebi que a NIU (Network Interface Unit)
estava num processo de "acquire". Isto significa, em linguagem
comum, o seguinte: O rádio digital do satélite que nos leva até
Guaratiba, no Rio de Janeiro, estava tão sequioso pela conexão com o
satélite, quanto eu pela Aninha. O link desabara. Por algum defeito, o
satélite estava inoperante. Telefonei logo para a Embratel, que me informou
haver uma pane lá em Guaratiba, no Rio de Janeiro e que a previsão para
reparos era de uma ou duas horas. Pensei cá com meus botões: Os efeitos
desta globalização já se fazem sentir até aqui no canto de minha cama!
Uma estação receptora de satélites pára lá no Rio de Janeiro e eu me
lasco aqui nos confins do Ceará! É Ruim, hein!!!
Desiludi
o jovem internauta, desliguei o telefone (tirei mesmo da tomada!), tranquei
a porta do quarto, dei um cheiro no cangote da Aninha e, decepcionado,
percebi que ela dormia a sono solto!
É
claro que morar em um provedor de Internet também tem seus encantos: Sua
conta de energia elétrica de R$50,00 por mês sobe para R$90,00! Afinal,
além de seu computador estar "full time" conectado a Internet,
temos antena parabólica, rádio transmissor, (aqui neste final de linha só
funciona assim, não tem backbone da Embratel, não!) seguidos de
"modens", "hub" e roteador que, juntos, puxam seu
consumo de energia elétrica para cima!
Certos
amigos, alguns apelidados carinhosamente por nós de
"esparadrapos" pela colada que dão na gente, sabendo que temos em
casa computadores conectados o tempo todo na Internet, passam o dia no nosso
encalço a fim de navegar gratuitamente um pouco! Um deles mais assíduo,
que ficava durante vários dias de nove da noite até as quatro da manhã
aqui em casa, navegando, foi promovido de "Esparadrapo" para
"Dor de Dente".
Pois
é, meus amigos, mas, felizmente, a coisa se acomodou! Estabelecemos uma
rotina de trabalho e adaptações à nova situação. Chegamos em casa,
geralmente vindos da escola por volta das cinco e quinze da tarde. Entramos,
colocamos o carro na garagem, desligamos o telefone e nos deitamos até às
vinte e duas horas (no dia anterior, navegamos, certamente, até as três da
madrugada!), depois acordamos, religamos o telefone, preparamos o material
para o trabalho do dia seguinte, respondemos os E-Mails, que não são
poucos, ("O Literário" na Net). Colocamos no ar alguma matéria
nova: (FTP noturno), jantamos, navegamos um pouco, re-desligamos o telefone
e voltamos para a caminha com o justo direito de amar e depois dormir um
merecido sono! Felizmente, nossa capacidade de adaptação contornou o
problema e tudo deu certo!
RPires
(
In "Crônicas de Uma Vida"- Pag. 63)
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