No fim da matéria,  um presente virtual  para você que ama Camocim!

 

 

TEJE PRESO!

 

 

Pela madrugada, Manoel Pedro foi despertado por guinchos, estrondos, rangidos, silvos e matracas. Era a velha locomotiva que se arrastava para Fortaleza, puxando seus velhos e encardidos vagões. A desbotada composição, que lembrava uma jibóia a deslizar nos pântanos, passou tão perto do infeliz que um pouco mais o esmagava nos carris. Assustado, ele quis levantar-se; mas, ainda tonto pelo álcool e pelo escasso passadio dos últimos dias, sentiu a rotação do mundo e o desembesto da terra a fugir-lhe dos pés. Com muito esforço, ainda deu uns dois ou três passos vacilantes, mas arriou-se num local onde dormiam uns porcos, caindo por cima duns bacurotes que fizeram tal alarido de modo que o dono dos mesmos foi despertado e os acudiu armado de um collins deste tamanho! e gritando "Pega o ladrão!’’ Ao apelo do homem, acudiram outros pequenos criadores de suínos, armados de jucás, foices, machados, arpões etc e encantoaram o suposto ladrão. Um deles foi chamar um polícia que montava guarda ali por perto, o qual logo chegou gritando com muita autoridade:

- Teje preso, cabra!

- Cuma dixe!?

- Preso!

- Num matei, num robei!

- Quer bancar o espertinho pra cima de mim?

- Já dixe, num matei, num robei!

- Não roubou porque foi pego na boca da botija; mas o que me diz do sumiço dos outros porcos, hein?

- Sei de porco, não, seu guarda! respondeu Manuel Pedro atarantado.

- Então é assim, não é? gritou o guarda já alterado e desferindo um chute de bota nos testículos do infeliz e brandindo um cacete de jucá pelo alto da cabeça. Na mesma hora o sangue desceu em bica, e Manuel Pedro rodopiou para cair, mas o policia o pegou pelo braço e o arrastou rua afora, seguindo no rumo da delegacia. "Vamos explicar isto direitinho ao delegado, cabra safado!" dizia a autoridade entre uma cacetada e outra. Só se ouvia era o tinido do cacete no quengo e nos lombos de Manuel Pedro, que caxingava e tinha a cara lavada de sangue. A sorte é que o prédio onde funcionava a delegacia não era longe (para desgosto do policial), senão o pobre diabo não chegava lá com vida.

- Doutor, este é o desgraçado que tava roubando os porcos há mais de mês lá nos Coqueiros, disse o polícia, dando a última bordoada em Manuel Pedro, que se encolheu todo soltando um ai lancinante e desmaiando em seguida.

-Então nem se pode mais dormir em paz, não é? Joga um balde d’água no cabra pra ele tornar, ordenou o delegado, já abrindo um pacote do fumo Maratá e pegando o papel para um cigarro pé duro, coisa muito do seu agrado!

Com o jato d’água, Manuel Pedro recuperou os sentidos e foi jogado na mesa do interrogatório com um safanão, frente a frente com o delegado, sujeito encorpado, sempre suando por todos os poros (mesmo na cruviana da madrugada), avermelhado, as mãos deste tamanho e os braços desta grossura. Pela boca faltava um incisivo, mas um bigode assustador encobria a falta do dente. Só quando ele sorria, coisa rara naquele homem, dava-se pelo vazio entre os caninos da fera.

-Nome? Inquiriu ameaçadoramente o delegado soltando uma baforada de fumo.

-Mané Pedro da Silva; mas vosmicê pode me chamar só de Mané Pedro.

-Onde mora?

-Sabe, seu Dotô, num tenho ainda morada certa, não.

-Então é um desocupado, rua acima, rua abaixo, hein?

-Dotô, cê sabe que eu...

Manuel Pedro não teve tempo de concluir a sua resposta, pois o delegado, num acesso de cólera, julgando-o da malandragem, desceu-lhe o braço no tronco da orelha, derrubando-o da cadeira. "Levem-no ao xilindró, que vou lavrar o flagrante. O cabra está encalacrado, pois acaba de confessar tudo". Disse isto desferindo mais um golpe: um violento chute pela boca do preso. Dois dentes voaram, e Manuel Pedro se urinou todo. "Cabra mais frouxo, e eu nem usei ainda o alicate e o fio elétrico", rugiu o inquiridor enxugando o suor da testa empapada com as costas da mão; desapontado com o fato de o preso abrir dos peitos assim tão depressa.

- Porra! Mal começou a brincadeira e este puto se borra todo.

-O Doutor não vai levar ele, pela boca da noite, pra dar um "chá" lá nas barreiras, não? Perguntava insistentemente o guarda.

-Ora se vou! E então pra que é que sou delegado desta merda? Quando escurecer, a gente vai dar um banho nele. Aí é que vamos ver se o cabra agüenta jucá. Não esquece de levar o relho cru e o cipó de tamarina! É uma chibatada e um mergulho; uma chibatada e um mergulho, entendeu? se ele não resistir, a gente mete-lhe uma fateixa pelo pescoço e depois diz que fugiu da cadeia. Tu parece não conhecer o sistema, Anselmo. Prende-se o cabra, desce-lhe o jucá; arranja-se-lhe uma hérnia, quebra-se-lhe uns dois ou três dentes da frente (lembre-se que tem que ser os da frente para desmoralizar o sujeito), depois a gente diz que o preso desacatou a autoridade e resistiu à prisão. Se por acaso o bicho vier a morrer pelos maus tratos, a gente diz que ele fugiu. É assim que funciona o sistema, não se esqueça!

-Correto, doutor delegado! confirmou o cabo empertigando-se todo e batendo continência.

-Cabra bom! Grunhiu o delegado muna nuvem de fumaça.

Enquanto esperavam pelas trevas da noite, jogaram o pobre diabo numa cela imunda, onde estavam presos alguns vadios e ladrões de galinha, e ele por lá ficou a gemer e a conferir o estrago que lhe fizeram pelo corpo todo. Daí a pouco bateu a febre e Manuel Pedro tinha convulsões e vômitos. "Este não agüenta outra sova. Se forem ter com ele nas Barreiras, de lá só volta pra cidade dos pés juntos, ou vira isca pra tubarão", dizia um. "Vai dar o couro às varas", atalhava outro. "Quem mandou se meter com porcaria", galhofava um terceiro. Uma poça de sangue se formou onde o pobre diabo estava estirado, e uma nuvem de varejeiras num zumbido ensurdecedor compareceu para refestelar-se nas feridas abertas pelo cacete do cabo.

O carcereiro, homem bom e temente a Deus, vendo o estado do detento, tratou de arranjar um mercúrio numa botica qualquer; mas não conseguindo o procurado, pegou de um pacote de sal e espalhou-o todo pelo corpo de Manuel Pedro. Tantas eram as feridas e escoriações que o sal, se houvesse uma só mais, não daria. Isto sem falar na suspeita de fratura de algumas costelas e nuns galos deste tamanho pela cabeça! Toda a operação do bom homem foi feita às escondidas do cabo, pois se este soubesse de tal coisa, o carcereiro estava perdido. O sujeito era dedo-duro e puxa-saco e tudo ia contar ao delegado, com acréscimos inexplicáveis. Um outro carcereiro já havia pegado dez dias de suspensão e uma transferência para a caixa-pregos.

A tarde caía e Manuel Pedro não dava sinal de melhora. Se fosse bater nas Barreiras no estado em que se encontrava, estava condenado, era morte na certa. Isto apertava o coração do carcereiro e ele não sabia o que fazer a não ser rezar algumas rezas costumeiras e pegar-se com o santo de sua devoção. Na hora do almoço, em sua casa, acendera uma vela para Nossa Senhora e rezara umas ave-marias, pedindo sua interseção pelo preso. Agora nada mais podia ser feito. Era esperar a proteção dos céus contra a impiedade da terra, e o cabo já aviava os instrumentos de tortura para a sessão das sete nas Barreiras, assobiando uma modinha antiga e costumeira em tais casos. Anoitecia! Nossa Senhora ficara insensível ao sofrimento do detento que se esvaia em sangue, apesar da salga! Mas o pior aconteceria ainda, sem protesto e sem alarde, no silêncio da noite e conivência das trevas. Que o torturado berrasse o quanto seus pulmões agüentassem! De que serviria seu grito? Seria abafado pelo esturro do mar e o uivo do vento! Mesmo que assim não fosse, quem o poderia socorrer neste mundo? Anoiteceu!

-Cabo!

-Cá estou, doutor delegado, respondeu o cabo com ansiedade.

-Tá tudo pronto?

-E então? Que acha o doutor?

Quando iam buscar o podre diabo, o telefone tocou na permanência. Era o prefeito que chamava o delegado para uma diligência urgente em Amarelas: um sujeito descera um terçado num desafeto quase decepando-lhe o braço. O cabra estava amarrado no tronco de um fícus-benjamim do lugar. Era só ir buscar o infeliz.

-Diabo! Gritou o delegado dando murros na mesa e se encaminhando para um velho jeep, seguido de perto pelo cabo. "Tem nada não; amanhã a gente termina o serviço", disse ao polícia.

Assim Manuel Pedro, temporariamente, fora salvo da barbárie dos dois, e o carcereiro exultava de felicidade...     ( Veja! Teje Solto!! ).

 R.B.Sotero

 Foto de Moacir - Edição Gráfica de RPires

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