O PARTO

 

     O ambiente não era adequado para os acontecimentos que se avizinhavam, mas algo de  especial estava no ar. Ela aguardava, já sentindo dores, pelo seu marido que saíra em busca de socorro. Era primípara e estava meio assustada com a possibilidade de ser mãe. O interessante era que estava aparentemente só, fisicamente falando, mas sentia-se plena!

Uma forte contração espremeu-lhe o ventre, indicando que a hora estava chagando. Tomara que o Zé volte logo! Pensou.

     Dezembro ia alto e tudo indicava que seu filho nasceria pelo “Natal” . Sentia contrações dolorosas intermitentes que amiudavam à medida que a hora do parto chegava. Teve a sensação estranha de uma certa dormência na região pélvica que aos poucos dilatava, preparando o caminho de saída para uma criança muito especial. Não haveria tricotomia, água morna, álcool ou qualquer processo de higiene preventiva, pois o momento, local e situação não permitiam. O abrigo era mal cheiroso a excremento de animais; mas ela, estranhamente, não se importava com aquilo. Estava muito cansada da viagem e aquela caverna parecia-lhe um hotel “três estrelas” e seu filho, a coisa mais importante do mundo. Lá fora, a noite era clara e alguns discretos feixes de luzes incidiam sobre Maria, deitada no feixe de capim, estranhamente confortável. Sentiu novamente um aumento da dor e um liquido quente escorreu-lhe por entre as pernas molhando as humildes vestes, na parte de trás. A bolsa do liquido amniótico já deveria ter se rompido há algum tempo e ela já havia ouvido falar deste fenômeno! Os minutos se passavam e seu pânico aumentava, pois seu marido não voltava. Pressentiu que pariria sem ninguém por perto. Elevou seu pensamento a Deus, resignada, e disse em voz baixa: “Seja feita a tua vontade, meu Pai”! O local, repentinamente, foi preenchido por uma luz suave e ela não se assustou! Sentiu que, com aquela luz, o local deixou de ser solitário e estava preenchido com Algo que por falta de nome melhor chamaremos de “Espírito Santo”. Era um milagre. Deus veio em seu socorro e com um dos seus, já conhecido, anjos. A Entidade Angelical se aproximou dela e, delicadamente, colocando-a na posição adequada para o parto, iminente! Agora o trabalho é braçal, pensou o Anjo enquanto fazia pressão sobre o ventre dilatado da parturiente. A carne obedeceu e a vagina, dilatada, já exibia a parte superior do couro cabeludo do neném que já estava coroando.

    Maria, incentivada por um olhar delicado e comunicativo de seu ajudante, percebeu que precisava auxiliar. Era uma hora crítica e o Anjo conseguiu lhe repassar essa idéia. Ela espremeu-se com toda força que possuía e, repentinamente, a cabecinha do bebê estava de fora! O Anjo parteiro pegou delicada e emocionadamente na cabeça do nascituro e puxou levemente para fora. O ombro da criança logo apareceu e, como se estivesse super lubrificado, escorregou para as mãos trêmula do parteiro. Era o bebê de Maria que entrava pela porta do mundo. O parteiro acariciou o corpo do nenê com amor e ambos começaram a chorar, enquanto no ar, agora, sentia-se um agradável perfume de flores. Na verdade, choravam os três personagens. Não, os três, não! Os quatros! Pois até eu, modesto escriba, não consegui impedir as lágrimas de descerem incontrolavelmente de meus olhos.

    A criança era sadia, mas sentia frio. O Anjo rasgou um generoso pedaço de tecido das vestes de Maria, envolvendo o bebê e colocando-o no peito intumescido da mãe, pensando Deus proverá!

    Não foi difícil para ele recolher a placenta – eliminada em seguida e cortar o cordão umbilical, “curando” o umbigo a seguir. Afinal, fora preparado para assistir Maria e dar as boas vindas "Àquele" que, vencendo todas as barreiras vibratórias, chegava ao mundo, naquele momento, para uma nobre e sacrificada missão que não duraria mais que 3 décadas, porém seria eterna!

    Lentamente, Maria tocou seu filho! Chorou e sorriu de alegria ao senti-lo encostado em sua pele de mulher. Aos poucos, o cansaço lhe abateu e, finalmente, repousou tranqüila, pois em seus braços estava o filho de Deus que, por amor a nós, transformou-se em homem.

                                                                                                                       Rpires 

 

Nota do autor:

    A narrativa acima é uma visão muito pessoal do parto de Maria e, respeitosamente, o autor afirma que  tem por Maria, Mãe de Jesus, um profundo amor e respeito. Por momento algum visou, no conto, desrespeitar a Santidade daquela que foi escolhida para trazer ao mundo o Deus que se fez homem e portanto na sua opinião, escolheu a única porta de entrada válida para acessar esta esfera! Portanto que ninguém se sinta ferido ou ultrajado com a fantasia do autor. Trata-se de um trabalho literário como qualquer outro. Simplesmente mais um conto.

 

( In "Crônicas de Uma Vida"- Pag.94)