Entrevista concedida à revista Brazil

Uma Doce Anarquista

Aqui, mostramos uma entrevista de Rachel de Queiroz, publicada na Revista Brazzil, sob o interessante título de "Uma Doce Anarquista". (Traduzida do inglês por Maria Esther Torinho)

 

Como Rachel começou a escrever, narrado por ela mesma nessa entrevista:

 

"Comecei a escrever muito cedo...Eu achava que iriam zombar de mim. Eu tecia histórias em que havia dragões e não sei mais o quê. Eu as escrevia e rasgava."

Mario Gonçalves (Eckable Press)

O fato de haver recebido o prêmio Moinho Santista na categoria romance, um prêmio que muitos consideram o mais importante do país, serviu apenas como desculpa para um bate-papo com a escritora Rachel de Queiroz. Após 60 anos de carreira, ela já conquistou tantos prêmios que um a mais não faz muita diferença. Seu talento é reconhecido por todos, como bem o comprova a fachada do edifício onde ela mora. A entrada do edifício exibe a placa: Edifício Raquel de Queiroz. Em homenagem à sua mais ilustre moradora.



Mas, apesar do sucesso, ela se diz feliz e excitada com o prêmio que acaba de receber e com o reconhecimento de seu trabalho. Entre xícaras de café em seu apartamento do Baixo Leblon, um dos mais agitados locais das vizinhanças do Rio, que contrasta drasticamente com a serenidade da autora, ela falou sobre o início de sua carreira, sua militância no PCB (Partido Comunista Brasileiro), seu trabalho literário e sua esperança no futuro do Brasil, tanto do ponto de vista político como da Literatura.

Durante a entrevista o café é trazido. Rachel de Queiroz então revela um talentos que nada têm a ver com a Literatura. Ela apanha um pedaço de papel, dobra-o algumas vezes e o transforma em uma pequena xícara, na qual serve o café e o toma. "Esta é a forma como tomávamos café nos velhos cômodos das redações de jornais? Eu não tomava café nessas xícaras imundas. Deste jeito, é muito mais saudável" - ela diz.



Como passou a se interessar por Literatura?

Eu nasci em uma família de intelectuais do Ceará. Todos liam e escreviam um bocado. Meu pai preferia Eça de Queiroz e autores franceses, enquanto minha mãe gostava dos russos, especialmente Gorky e Dostoievski. Ao falecer, além de uma paixão pelos autores russos, ela nos deixou uma biblioteca com 5000 livros. Então neste ambiente, seria estranho se eu não seguisse a tradição. Eu teria diferido do restante da família

 

"This was how we drank coffee in the old editorial rooms of newspapers. I didn't drink coffee in those filthy cups. This is much more sanitary", she says.


E sobre o começo de sua carreira? Como foi?

Quando me casei, tinha 22 anos, tinha saído do Ceará e já estava trabalhando no jonal havia quatro anos. Mas eu comecei a escrever muito cedo.Eu escrevia em segredo....Eu achava que iriam zombar de mim. Eu tecia histórias em que havia dragões e não sei mais o quê. Eu as escrevia e rasgava." Até que, quando estava com 16 anos, decidi escrever, às escondidas, uma carta ao editor do Jornal O Ceará. O jornal havia publicado uma história com o título "A Rainha dos Estudantes". Na carta eu fiz algumas piadas, fazendo troça do "Rainha dos Estudantes" e assinei como Rita de Queluz. O editor adorou a carta e tentou me encontrar. O problema era que ninguém sabia quem era essa Rita de Queluz. Então eles viram o carimbo de Quixadá, onde tínhamos uma fazenda. O círculo se fechou quando Jader de Carvalho, que trabalhava para o jornal e me conhecia, revelou a história. Então, o editor do jornal pediu permissão à minha família para que eu trabalhasse para o jornal O Ceará. Acho que se eles não tivessem permitido, eu teria me suicidado.



E em que ano isso aconteceu?

Em 1927. Logo depois, em 1930, quando eu tinha 19 anos, escrevi O Quinze, que foi meu primeiro romance



 

Existe alguma relação entre O Quinze e sua saída da militância no PCB? O Partido quis controlar seu trabalho como escritora?

- A verdade é que eu comecei a militância política como jornalista. Eu tinha dois amigos, um médico e o outro jornalista, que me introduziram aos escritos sobre o Comunismo. Eu me filiei ao partido no mesmo ano em que escrevi O Quinze. Tive alguns problemas porque não havia mostrado o livro aos membros do partido. Mas o maior problema foi quando escrevi João Miguel, meu segundo romance. Foi quando os membros do partido, sabendo que eu ia publicar o livro, me chamaram para uma reunião. Isso foi em 1932, quando eu já me encontrava no Rio. Quando cheguei, havia três camaradas lá. Eu fiquei com medo. Eles criticaram o livro e disseram que eu não poderia publicá-lo. Mesmo amedrontada, eu estava furiosa, e além disso, aquela era a única cópia do livro. Eu levantei e disse: "Companheiros, eu só tenho este original e farei as correções que desejam que eu faça." Peguei o original de um deles, fui para a porta e disse que eu não os reconhecia como autoridade literária para criticar o livro. Eu empurrei a cadeira onde estava sentada com o pé e corri.



 

Com base em sua experiência, você acredita que a política e a Literatura são compatíveis?

- Sim e não. Se o escritor vê a política do ângulo do homem comum, é possível. Ele tem suas ideologias, mas o aspecto literário de seu trabalho tem mais força. Agora, não acredito na Literatura engajada. Literatura engajada é um sermão, não é Literatura. Mas, é possível fazer um esforço e expressar seus sentimentos políticos, apenas com talento, sem pregar nada.



 

Existe alguém no Brasil que faça este tipo de Literatura e cujo trabalho você considere bom?

Graciliano Ramos era comunista e nunca deixou que isso se refletisse em seu trabalho; contudo, de nossos contemporâneos, ele foi o melhor de todos. Mesmo em Memórias do Cárcere. O livro é um testemunho pessoal de uma pessoa presa por ser comunista, não um trabalho de propaganda do Comunismo. Dias Gomes e João Ubaldo Ribeiro também têm trabalhos esquerdistas, mas eles respeitam, em seus escritos, a liberdade de pensamento e de expressão.



 

Você mencionou autores reconhecidos. Existe alguma renovação na Literatura Brasileira? Você vê novos escritores que possam continuar a tradição da boa Literatura Brasileira?

- Existem muitos bons autores que ainda não tiveram tempo de conquistar um grande público. Estou me referindo a Ana Miranda, Maria Alice Barroso e Lígia Fagundes Teles, dentre as escritoras. Entre os escritores, João Ubaldo Riberio. Os mais jovens estão mostrando seus trabalhos, e de vez em quando, temos uma surpresa agradável. A Literatura Brasileira encontra-se no caminho certo.



 

Voltando à política. Durante os últimos 60 anos, quase o mesmo tempo que sua carreira literária, o Brasil teve dois regimes ditatoriais: "Vargas, durante o Estado Novo, e o regime militar, em 1964. Como você atravessou esses períodos difíceis na História do Brasil?

Antes que Vargas decretasse o Estado Novo, em 1937, ele tinha um tipo de expurgo entre os intelectuais brasileiros. A ordem era prender todos os intelectuais de esquerda. Isso foi em Outubro, o decreto foi em Novembro. Àquela época, eu era Gerente de uma casa de exportação em Fortaleza, já que o jornal não estava me pagando o suficiente. Eu estava trabalhando quando a polícia chegou e me levou para o quartel do Corpo de Bombeiros. Fiquei lá sob ordem de prisão durante três meses e somente me deixaram ir embora em Janeiro de 1938 quando o decreto estava consolidado. Na prisão, minha janela dava para um pátio onde os bombeiros faziam exercícios, então se estabeleceu uma grande amizade entre eu e os bombeiros. Eles estavam no fim dos testes anuais e me enviavam papel para que eu fizesse manjedouras de papel para eles; eles faziam serenatas e coisas do tipo. Mesmo hoje, quando os velhos bombeiros me vêem na rua, eles dizem "olá".



E o Brasil de hoje? Você tem esperança de que o país se torne melhor?

Quando envelhecemos, nos tornamos mais pacientes, e engraçado, com mais esperança. Se eu fosse jovem, eu me sentiria desesperançosa sobre o país, hoje não.



Notas:

a Revista Brazzil, cuja existência remonta a 1989, é um respeitado elo de ligação entre todos aqueles que amam o Brasil e sua cultura, sejam falantes ou não da Língua Portuguesa.Além de relatar os fatos, a revista trata também de suas causas e conseqüências.

A revista Brazzil é escrita 90% em inglês, mas nem por isso seu público se limita a falantes da Língua Portuguesa, sendo que 70% de seus leitores não falam Português;ela pode ser encontrada em todas as bibiliotecas e é distribuída gratuitamente em clubes de jazz, lojas de gravadoras e livrarias, também novos stands pela Texas' Fine Print, faz-se presente ainda na Embaixada Brasileira em Washington e em todos os Consulados Brasileiros nos Estados Unidos.

A entrevista foi traduzida para o inglês por Barbara Maglio, 70674.2143@compuserve.com

Fonte: Site da Revista Brazzil http://www.brazzil.com/p25dec96.htm