A prosa de Eliane Malpighi

das invisibilidades ©

que sempre começam com a voz rouca das sílabas lanhando sem unhas o papel excitado porque pressente o prazer do exato momento da plenitude em que perderá a virgindade e então poderá irá ser leviano profano anjo vestido de
letras soprando frases de desejo pra ponta daqueles dedos que não cansam de aprender a bordar costurar cerzir sentimentos macerados como deve e precisa ser um bom perfume cuja excelência do extrato é feita de vertigens verticais justa e exatamente para na horizontal deixar cair leve o par de pernas abrigo da mais rara negra flor enquanto por debaixo da blusa arrepiada balança redondo par de montanhas soltas conversando alvoroçadas entre si sobre cada segredo que a boca quase líquida vai deixar grudada em contínuo crescimento mudo mesmo depois de romper-se o nó e tornarem-se inconsistentes os versos razão do corpo permanecer desquadrado no silêncio branco do sangue que ferve da cabeça à sola dos pés onde não tanto mais acima pulsa o nascer de todas as cores que nem sonhava existir tivesse ela ficado presa nas não respostas da adolescência onde descobriu que nem apenas de interrogações se faz o barulho dos pensamentos que só podem ser umedecidos quando mais que dizer permite-se sentir que se pode ser dia em plena noite ou mel na madrugada que escorre entre os vãos da desembocadura que é onde todos os receios se perdem num gemido de exclamação funda que molha as flores que se tornam chuva sobre o corpo que não vacila nas ondulações da respiração. ©

Carta Aberta ao Homem Que Me Fez Feliz (ou História Sobre o Homem Que Me Faz Sorrir)

É assim deitada sobre as costas desta saudade que desliza mansa e sem qualquer resignação que eu confesso que nada está definitivamente tranqüilo neste coração que ainda bate cadenciado no amor que te pertence. E se ouso revelar este segredo quase ingênuo não posso - e deveria?! - mais ignorar este desencontrado e contraditório amor que me despertou do enganoso esquecimento de ser feliz, desde que, ainda menina, te amei pela primeira vez e descobri que não haveria, em qualquer outra, amor senão aquele que desde sempre viveu encasulado entre desacertos e naufrágios. Os mesmos que tantas vezes me desinventaram e foram a escola onde aprendi a ser atriz pra fingir que um sorriso era, mesmo pálido e desdentado, sinônimo de saber parecer feliz, ainda que em todo tempo a morte continuasse viva e, me pendurando na parede que revela o que não podemos ser, decorasse minha cara com bocas e olhos desorganizados.

Mas neste agora - que não aconteceu por escolha e muito menos por mero acaso - vivo dias onde não havendo espaço pra mentiras e nem encantação, floreço brisa e exatidão que me libertam da escuridade dos sentimentos que disfarçavam meus conflitos, entrego-me ao mistério das palavras e anulando todo silêncio obscuro me transformo em letra e sangue. E se é verdade que tudo isso me desobriga a permanecer calada é meu dever e compromisso falar.

Ou cantar, mesmo neste resto de voz, um beijo (re)partido que alegre e refaça o homem amado.

Há tanto tempo és a medida inteira e desmedida do que é amar - e falo de um tempo que não se mede em dias e meses ou anos porque só fica registrado no âmago da alma que pra viver te respira dia e noite - que se me perguntassem, é certo que não saberia responder desde quando te elegi meu homem e aprendiz de mim. Única - e qualquer outra seria desnecessária e mentirosa - razão porque me fiz lua e flor, rainha e menina de duas cores.

Assim como também fui sol e água porque era urgente te fazer feliz.

Somente hoje percebo que tudo isso independia do meu querer, já que todo adiamento acabaria, mais dia menos noite ou vice-versa, me conduzindo a este homem que ao nascer me estremeceu e assumiu o meu destino.

O que ainda me escapa, neste tempo de madura adolescência é o entendimento da simplicidade desta nossa história sem passado, tecida neste circunstancial comprometimento de trocas tantas e tamanhas, que compartilhadas entre amanheceres continuam nos deslocando pro futuro do presente. E tanto mais me desnudo diante da memória incontestável deste intraduzível encontro, mais largas e profundas se tornam as paralelas paradoxais de vida e saudade que vorazmente alegres ainda pulsam intensamente, porque continuamos de mãos dadas, nestes dias e horas que se recontam neste amor continuamente gritado no longe perto.

De repente, penso que talvez esta seja a mesma e perigosa lucidez que Clarice - a Lispector - ao descobrir, definiu como sendo o perfeito cálculo matemático porém desnecessário.

Então, também por isso, é necessário que eu revele este instante, comprometida que pra sempre estarei em não permitir que façam infeliz ou desamado este homem que jorra em minhas veias e me isentou do medo de sentir-me venturosa. Tanto e mais e depois que me povoou com fogo e voz, passos e mãos, sorrisos e carícias, bocas, línguas e suores frios sobre a cama que foi um mundo inteiro e só de nós dois, corpos esbraseados e úmidos, quase apaziguados nas margens da insatisfeita esperança, que permanece exposta entre nossas pernas que ainda tremem, enquanto lanho nas paredes do meu peito maneiras novas e delicadas que sustentem o homem que amo na explícita e inenarrável redescoberta de ser feliz, pra eu não desaprender a sorrir. ©