Eliane Malpighi e a Poesia

Veja o que Eliane Malpighi fala de seu estilo e de seu processo de criação:

"gosto de escrever sem pontuação, a coisa que saia na fluência quase exata do que vai gritando o sentimento para a ponta dos meus dedos. alguns já chamaram de prosa poética. eu, sinceramente, continuo achando uma catarse poética. mas já me arrisquei em contos e até cheguei a ganhar um 2o lugar nacional há alguns anos atrás. mas deixar escorrer de mim um poema que em poucas linhas defina o que estou sendo naquela já é algo que e arrebata também, tanto mais quando durante a gestação acontece algum jogo de palavras que se casam pra brincar com a duplicidade dos sentires. e por isso fazer uma afirmativa sobre qual o tipo de escrita com a qual me identifico seria uma agressão a mim mesma sabe, porque escrever, pra mim, é necessidade. e se é necessidade ela tem e precisa e deve e é atendida de acordo com a exigência do momento que está sendo vivido. e ele pode ser iniciado até por uma única palavra que saltou de um outdoor pra dentro dos meus sentimentos!"

Poemas de Eliane Malpighi

in si nu (e) ação

acima da pele
os poros
abertos
pra te receber
em suados sons. ©


o pouso do silêncio

era no limiar
do maior de todos os meus sonhos
que te guardava
como o mais lindo dos segredos
e esperava
porque era preciso acreditar
que um dia me desvendarias
muito além do corpo
até fazer-me tessitura viva
impressa na palma da tua mão
aflita
olhando em mim
o que ninguém jamais veria
mas nesse tempo eu era
apenas
uma menina
que ainda não se vestia de sombras. ©

 

 

poema incendiado

úmidos os lábios
entreabertos
esperam
teu corpo em sede
movimentos
tua boca em fogo
liberta
pra beber o meu prazer
aguando teus desejos
asas de cera
derretemos. ©

 

Contracanto
livres
e taquicárdicos
batem
os dedos do coração
carregado
da certeza de te amar
escorre um suspiro
da minha alma
desavisada
piso no sonho
e viro realidade
transitória
num amor que não pode
nem quer morrer comigo
coração
respirando tua ausência
muda
me descubro aflita
cantava
porque eras a música
hoje presa
na ponta
do medo desta saudade. ©

 

Já Tinha Eu a Aurora

já tinha eu a aurora
passeando em meu olhar
fingindo a calma
que o amor não tem
quando entrou manso
mas definitivo
com cheiro pele suor e prazer
aquele de quem bem quis eu
ser a bem querida amada amante
inteiramente indivisível
como é esse coração que bate
descompassado
no céu daquela boca
cujo beijo me fez estrela arrepiada. ©

necessária vigília


quero
que o teu cheiro
adormecido
sobre mim
continue
sentindo o gosto
da noite
de aconteceres tantos
e não desperte
senão pro amanhecer
de outros tantos sentires
que nem a curva das palavras
pode descrever. ©

Bodas de ausência

do alto da insanidade que não tenho
permito
que todos os meus mais excêntricos desejos
gritando
através de vozes que desconheço
se tornem públicos
e assim livres
dancem
absolutamente alucinados
ao som dos acordes únicos
que procedem da garganta da vida
onde habita toda espécie de delírio
enquanto eu
sob o vento raso
do piscar dos teus olhos
que me absorvem através da fotografia ainda não revelada
estendo as asas
da minha frágil lucidez
e me despeço
saudade absoluta
engessando todos os meus sonhos
sobre quem não me pertenceu
senão no tênue fio do sempre efêmero devaneio
onde insistente
teimei pendurar minha ilusão
fecho os olhos
te contemplo distante
que é o lugar de onde nunca saíste
e sinto um peso em minhas mãos
meu coração
desmaiado
sobre a fria escápula quase invisível da realidade
onde
num irrestrito cansaço
leio em letras de sal das lágrimas já secas
a verdade que adverte:
melhor permanecer parado. ©