A
Molecagem
Estava passando umas merecidas férias em Petrópolis, no Estado
do Rio de Janeiro ( Minha cidade natal!) e, já meio enjoado de curtir o clima
serrano, resolvi ir à cidade do Rio de Janeiro, que dista mais ou
menos 120 km de Petrópolis. Como a região é servida por uma
excelente linha de ônibus do tipo chamado "frescão",
decidir ir num deles, pois, além do bom condicionador de ar,
possui poltronas muito confortáveis. Duas são as empresas locais
que exploram os serviços: a Única e a Fácil. Gosto mais da última
e foi assim que me senti contente
descendo a bela serras de Petrópolis rumo ao Rio de Janeiro.
Estava sentado numas das poltronas do corredor e já ia
reclinando-a para
tirar um cochilo quando o pequeno celular vibrou no meu bolso. Era
Aninha, lembrando-me de uns objetos que queria que eu trouxesse da
famigerada Rua da Alfândega. Tranqüilizei-a dizendo que não
esqueceria nada do encomendado, quando fui interpelado pela Sra.
da poltrona da frente.
- O Sr. Sabia que não é permitido usar aparelhos sonoros neste veículo?
Respondi que sim, entretanto o que eu estava usando era um
telefone celular e não um radiozinho daqueles de pilha... a
mulher não se deu por satisfeita e começou a xingar-me com um
repertório de fazer inveja a qualquer moleque da Praça Quinze,
dali de onde saem as barcas para Niterói.
Já havia desligado o celular há uns 10 minutos, e a mal-educada
continuava a me xingar. Na verdade até de trombadinha me chamou!
Disse algo assim como: “Não sei como é que deixam estes
trombadinhas entrarem no ônibus com celular roubado!!!” Fiquei
muito P. da vida mas me contive e fiquei calado. Meia hora depois,
a recalcitrante impiedosa, cansada de xingar, dormia e roncava
como uma leitôa, recostada na poltrona da frente. Nas viradas das
curvas, onde o ônibus se jogava da direita para a esquerda e
vice-versa, percebi que um sapato feminino estava escorregando
para trás, abaixo de meus pés. Levantei-me, um pouco, como quem não quer
nada e vi que a “condenada” havia tirado o sapato para dormir
melhor e que este estava bem
debaixo das minha poltrona. Aí passou pela minha cabeça uma idéia
daquelas que chamamos de “idéia de jerico” : apanhei o
sapato, que na verdade era uma sandália de cor esverdeada, e, sob
os olhos arregalados de meu colega de poltrona, atirei-o pela
janela. O homem, que assistira todo o acontecido, não se agüentou
e abriu uma risada rasgada, percebendo a minha desforra em curso,
acenando com o polegar levantando com ares de cumplicidade.
O resto da viagem transcorreu sem maiores complicações e quando
a condução entrou na rodoviária “Novo Rio”, tratei de me
escafeder antes que a fera desse pela falta do sapato. Enquanto
saia, notei que ela procurava desesperadamente por ele no
soalho do carro, inclinada por baixo da poltrona.
Tomei um táxi para o centro da cidade, sorrindo satisfeito com a
molecagem que fizera à guisa de desforra. Comprei as coisas pedidas por
Aninha na movimentadíssima Rua da Alfândega e resolvi ir ver um
amigo em Copacabana. Aguardei em um ponto de ônibus e logo o 127
- Rodoviária a Copacabana parava. Entrei no veículo e ao ficar de pé para
pagar a passagem na roleta,vi que a “trocadora”estava
discutindo com uma passageira. Conheci logo a bruxa que capengava
com um único sapato num pé. Ela, logo reconheceu ao me ver, e
abriu a boca dizendo: “Você não é o trombadinha do celular,
que roubou também meu sapato?”. Olhei para ela e
retruquei: Eeeeuuu!?” - Ä "Cinderela inconformada”,
outra
vez companheira de viagem, comprou uma nova briga comigo e passou a
xingar-me, sem poupar também a trocadora a quem acusava de roubar
alguns centavos do troco. A trocadora veio em meu socorro dizendo
que este "inocente senhor” acabara de entrar no carro e não
admitiria que ela maltratasse um passageiro. A coisa se complicou e
a “trocadora”, que era uma mulata grandona com uma flanela
ensebada amarrada no pescoço, perdeu as estribeiras e gritou, já
fora de seu assento na roleta, para o motorista:
-Pára esta merda ai, "motora" que eu vou dar uma porrada numa
cachorra sem vergonha e botar pra fora!
Bem, ela foi dizendo e foi fazendo. A "bolacha" de mão aberta
bateu na cara da mulher com gosto de gás! Logo em seguida a
encrenqueira recebeu um "pescoção" que saiu de
cata-cavaco, impulsionava também pela parada brusca do veículo.
Acabou
se levantando às
pressas, e saindo pela porta dianteira, já aberta, deixando o veículo
em pleno Aterro do Flamengo.
O
motorista arrancou rapidamente o carro, deixando a
pobre coitada à pé na beira da pista, balançando os punhos
em riste, certamente amaldiçoando-me até a terceira geração.
Ufa!
Pensei, ainda com o coração batendo forte, com o fluxo de
adrenalina ainda me sufocando a voz: No Ceará não tem disso não!
( In "Crônicas de Uma Vida - Pag.
55) |