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Rachel de Queiroz
Noventa
Anos da Escritora Rachel de Queiroz
A vida é feita de momentos, sejam eles de maior ou menor
intensidade. Sei que muitos deles ainda me estão reservados,
mas, com tanta emoção e revestido com aquela magia que
Bandeira descreveu, numa verdadeira Pasárgada, acho que nenhum
será igual ao de participar das comemorações dos 90 anos de
meu maior mito, Rachel de Queiroz, na mais colenda e majestosa
Academia Literária deste País – a Academia Brasileira de
Letras, no dia 16 p.p.
O jornalista Círio Frota Maia, concluiu artigo publicado no
Diário do Nordeste de 29 de novembro p.p., dizendo: “Todo adolescente tem suas divindades terrenas”, gostaria de
fazer minhas tais palavras em relação ao mais célebre
escritor e literato deste País, Rachel de Queiroz, que sendo
detentora das mais ambicionadas honrarias e homenagens
concedidas a um escritor, não perdeu suas raízes cearenses e
sua confessa simplicidade.
A
homenagem prestada à insigne escritora, no Salão Nobre da
Academia Brasileira de Letras, logo de início, despertava a emoção
de todos os presentes. O Presidente da Academia, Tarcísio
Padilha, em tom sereno, deu início à Sessão lembrando a
biografia de Rachel e sua ligação às conquistas da mulher
brasileira, não deixando de falar na menina que firmou o
romance regional no Brasil, tornando-se uma referência
internacional, tanto intelectual quanto eticamente,
denominando-a de “Grande
Dama da Literatura Brasileira”. Quase todos os imortais
presentes, falaram da importância de Rachel de Queiroz enquanto
pessoa, amiga e escritora.
Seguindo as palavras do Presidente, o Ex-Presidente da ABL,
Josué Montello, único dos presentes que votou em Rachel de
Queiroz na sua eleição para aquela Academia, homenageou a
escritora.
Após, falou Carlos Nejar, Secretário Geral da ABL, lembrando
que Rachel estava “cada
vez mais jovem, porque Rachel é sem idade, mantendo intacta a
menina que aos 20 anos lançou seu primeiro romance”; Ivo
Pitanguy foi o próximo a se pronunciar, seguido de Arnaldo
Niskier que expressou o seu desejo em fazer o discurso de 100
anos para Rachel e ao reportar-se à Fazenda Não Me Deixes, no
Ceará, afirmou “sonhamos
que você jamais nos deixe”. Prosseguindo, Niskier,
revelou: “outro dia
perguntei porque vive se queixando de doença se ela está
sempre tão bem. Respondeu que é para se livrar dos chatos.
Achei genial”.
Eduardo
Portela, prestou “Tributo
a uma moça, à menina cearense que um dia inventou o romance de
30... viver com o Brasil, é recorrer constantemente a Rachel”.
Celso Furtado, disse ter “vivido
no mundo de Rachel, o Sertão” e era ela “como
uma intérprete do sertanejo”.
Marcos Madeira, por carta, afirmou que “Rachel parece que conversa com leitor... demarca fronteira entre
romance e crônica...” deitada em sua rede no apartamento
do Leblon com “aquele
jeito de quem está a descansar da própria glória...”
Marcos Vilaça lembrou que Rachel “ensinou a todos, que ninguém pode na vida podar os sonhos porque
eles são os olhos do futuro”.
Lêdo
Ivo, segurando a mão da escritora, enfatizou “aos
22 anos Rachel já era uma figura emblemática, discutida e em
sua visita a Maceió, empolgara um menino a ler ‘O Quinze’,
em voz alta para todos na sala de sua casa...” Aquele
menino estava, naquele momento, sentando ao lado de Rachel.
Alberto
Venâncio Filho, lembrou o discurso de posse de Rachel e sua
importância para a Literatura Brasileira.
Afonso Arinos de Mello Franco, falou da contribuição de
Rachel ao Brasil e lembrou que foi ela seu “cabo
eleitoral para Deputado Constituinte”.
Cândido Mendes de Almeida se referiu a Rachel como uma das “mulheres
canônicas do Brasil, recordou Alceu Amoroso Lima (In memoriam),
que naquele momento, deveria estar ali... Senhorinha de todas as
graças ou a passionária de todas as causas.”
Carlos
Heitor Cony, lembrou que Rachel de Queiroz é a “única
escritora brasileira que tem um bosque no Estado de Israel com
seu nome”. Ressaltou ainda a trindade do romance
brasileiro: José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos e Rachel de
Queiroz.
Evandro Lins e Silva, disse que é Rachel “uma figura emblemática do Brasil e afirmou ter sido um dos primeiros
leitores do seu livro ‘O Quinze’ – em tudo o que fez
Rachel é admirável e gostaria de ler Maria Moura, em nova versão
nos cem anos de Rachel”.
Ivan Junqueira iniciou sua fala dizendo que Rachel de Queiroz
é um “ícone da
Literatura brasileira... o poeta nunca será o analista concreto
para falar de uma romancista... Foi ela a responsável pela
fundação do romance nordestino nos seus primórdios.. pediu
que ela não nos abandone e torcer pela idade centenária de
Rachel é mais que uma obrigação para com aquela que será
sempre lembrada”.
Antonio Olinto, afirmou ter sido um dos “peregrinos da Ilha do Governador, onde Rachel morava, numa verdadeira
casa de cultura brasileira, com a própria literatura sentada e
conversando com jovens escritores...”
A propósito de carta recebida pela Academia Brasileira de
Letras da Academia Sueca, pedindo a sugestão de um escritor
brasileiro para concorrer ao Prêmio Nobel de Literatura de
2001, Olinto sugeriu ao Presidente, indicasse o nome de Rachel
de Queiroz, ao que foi muito aplaudido pelos presentes.
Murilo Melo Filho, disse que Rachel é uma “intelectual
sincera com sensibilidade nordestina à flor da pele, preocupada
com a temática social”.
Indiscutivelmente,
o momento mais forte foi quando Rachel de Queiroz usou da
palavra. Com a voz embargada pela emoção, quase chorando,
afirmou que gostaria de ser o que disseram a seu respeito, mas,
se chegasse ao menos a 5% de tudo o que haviam falado, seria a
mulher mais feliz que poderia existir.
A partir daí a emoção tomou de conta de todos os que ali
estavam... A sessão foi encerrada, com trecho de Maria Moura: “o
verbo certo é viver... renunciou a uma vida alienada por uma
grande causa.”
Além da
família e dos amigos da escritora, estiveram presentes vários
cearenses, dentre eles autoridades como o Secretário de Cultura
do Estado, Nílton Almeida, o Reitor da Universidade Estadual do
Ceará, Manassés Claudino Fonteles, o bibliógrafo José Bonifácio
Câmara, dentre outros...
Vimos os
grandes mestres da nossa literatura render graças à Rachel de
Queiroz, a maior deles. É, deveras, indescritível falar sobre
aquele momento e, ressalto mais uma vez, foi o maior da vida
literária do menino de Guaraciaba do Norte, que, teve e tem, a
exemplo de vários outros escritores, em Rachel de Queiroz, seu
modelo, seu melhor espelho. E quão bom foi perceber que Rachel,
serve de modelo e de referência, não somente a iniciantes como
a si, mas a escritores celebrizados e consagrados.
Na tarde
seguinte, tive o privilégio de ficar até a noite em conversar
com Rachel que, em profunda lucidez, falou abertamente sobre os
mais variados assuntos: políticos, literários e de sua grande
paixão: o Ceará, tema que hoje, domingo, antes do retorno
continuamos a abordar.
Resta
agradecer o honroso convite para ali estar com ela e dividir
tamanha alegria, parabenizando-a mais uma vez!
Leblon, Rio de Janeiro, 18/11/2000.
______________
(*) Advogado, Escritor e Pesquisador,
membro da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB/CE., Academia
Camocinense de Letras – ACL, Academia Municipalista de Letras
do Estado do Ceará – ALMECE, Associação de Jornalistas e
Escritores do Brasil – AJEB, Sociedade Cearense de Geografia e
História – SCGJ.
E-mail: j.llira@bol.com.br
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