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Blecaute
A
batida do relógio bicentenário denunciava que novo dia
despontava: zero hora! O que houve? Um silêncio horripilante se
fez....
O
som do Bar “Guaracy” parou e, junto a ele, o restante da
Cidade também. Decido acender a luz e vi que faltava energia.
Pensei:
deve chegar logo. Tirei o telefone do gancho e ele estava mudo.
Comecei a me assustar e decidi sair do quarto. Me bato na
cadeira de balanço, mas, prossigo...
Constato
que estava só dentro de casa. Não havia mais ninguém e lá
fora caía o maior temporal. Contudo, não existiam motivos para
medo. Tudo deveria ser conseqüência das fortes chuvas caídas
naquela serrania, imaginava eu...
Continuei
a andar dentro de casa e a ansiedade, aos poucos, começava a
tomar conta de mim... O que terá acontecido? Pensava
incessantemente, enquanto procurava vela e fósforo.
Já
com a vela acesa, desço a escada e vou até o porão. Com
certeza, lá estaria mais calmo e, ontem, Joanita fez faxina.
Deve está tudo limpo. Ligarei o gerador e o resto da noite será
mais tranqüilo; no entanto, a porta estava fechada e eu fiquei
desapontado.
A
angústia aumentou e decidi procurar socorro. Mais, como? Não
tem telefone, energia, nada... até água na torneira falta.
Olho
para o velho relógio de parede e mais intrigado fico. O relógio
tinha parado zero hora. E agora? O que foi? Algo muito sério
deve ter acontecido e a chuva não parava!
Ainda
assim, me visto e saio rumo à garagem e, ao tentar ligar o
carro, sem saber o que faltava acontecer, este não funcionou.
Vi o celular, que ali estava, e quem sabe pelo menos ele
funcionasse? Fechando o cerco, leio no visor a mensagem: “sem
serviço”.
Ao
som dos trovões e relâmpagos, lembrei do Pastor que gritava na
praça: “O juízo final está próximo! Se preparem...” e
eu, qual aqueles que zombavam de Noé, enquanto este construía
a Arca, fiz ouvido de mercador.
Outra
opção surgia: será que foi um blecaute? A redenção, o fim
dos tempos? Será que as águas da montanha irão invadir as
cidades? A destruição anunciada deve ter chegado e sem
conseguir pensar em mais nada, acordei achando que acabava de
ter o maior pesadelo de minha vida...
Confuso,
vi que tudo estava claro e as flores do jardim perfumavam o
amanhecer daquele 1o de abril.
José Luís Araújo Lira
16/10/01. |