José Luis Lira

 

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Blecaute

 

A batida do relógio bicentenário denunciava que novo dia despontava: zero hora! O que houve? Um silêncio horripilante se fez....

O som do Bar “Guaracy” parou e, junto a ele, o restante da Cidade também. Decido acender a luz e vi que faltava energia.

Pensei: deve chegar logo. Tirei o telefone do gancho e ele estava mudo. Comecei a me assustar e decidi sair do quarto. Me bato na cadeira de balanço, mas, prossigo...

Constato que estava só dentro de casa. Não havia mais ninguém e lá fora caía o maior temporal. Contudo, não existiam motivos para medo. Tudo deveria ser conseqüência das fortes chuvas caídas naquela serrania, imaginava eu...

Continuei a andar dentro de casa e a ansiedade, aos poucos, começava a tomar conta de mim... O que terá acontecido? Pensava incessantemente, enquanto procurava vela e fósforo.

Já com a vela acesa, desço a escada e vou até o porão. Com certeza, lá estaria mais calmo e, ontem, Joanita fez faxina. Deve está tudo limpo. Ligarei o gerador e o resto da noite será mais tranqüilo; no entanto, a porta estava fechada e eu fiquei desapontado.

A angústia aumentou e decidi procurar socorro. Mais, como? Não tem telefone, energia, nada... até água na torneira falta.

Olho para o velho relógio de parede e mais intrigado fico. O relógio tinha parado zero hora. E agora? O que foi? Algo muito sério deve ter acontecido e a chuva não parava!

Ainda assim, me visto e saio rumo à garagem e, ao tentar ligar o carro, sem saber o que faltava acontecer, este não funcionou. Vi o celular, que ali estava, e quem sabe pelo menos ele funcionasse? Fechando o cerco, leio no visor a mensagem: “sem serviço”.

Ao som dos trovões e relâmpagos, lembrei do Pastor que gritava na praça: “O juízo final está próximo! Se preparem...” e eu, qual aqueles que zombavam de Noé, enquanto este construía a Arca, fiz ouvido de mercador.

Outra opção surgia: será que foi um blecaute? A redenção, o fim dos tempos? Será que as águas da montanha irão invadir as cidades? A destruição anunciada deve ter chegado e sem conseguir pensar em mais nada, acordei achando que acabava de ter o maior pesadelo de minha vida...

Confuso, vi que tudo estava claro e as flores do jardim perfumavam o amanhecer daquele 1o de abril.

 

                                                                 José Luís Araújo Lira

                                                          16/10/01.