José Luis Lira apresenta:

 


O Jubileu de Prata de Imortalidade da escritora cearense Rachel de Queiroz




        Quarenta e sete anos antes daquele 5 de novembro de 1977, ainda quase menina-moça, ela firmara o romance regional na Literatura, com "O Quinze". E as palavras iniciais da consagrada e laureada escritora, não se fizeram distantes da "menina do sertão", no memorável discurso feito naquela Tribuna que era ocupada pela primeira vez por uma mulher, na condição de integrante da mais alta Corte Literária Pátria – a Academia Brasileira de Letras, quatro anos antes da Academia Francesa de Letras, que serviu de modelo às demais mundo afora, empossar Marguerite Yourcenar, em 23 de janeiro de 1981.
        Num dos momentos marcantes da História Literária do Brasil, Rachel de Queiroz, lembrava-se da menina que do peitoril da Casa Grande da Fazenda Junco, no Sertão Central Cearense, Quixadá, sua segunda terra natal, observava o luar, "luar do sertão", em noite que parecia dia, para mostrar o elo que o destino tratou de fixar entre ela e o patrono daquela cadeira de no. 5, que ficaria marcada de forma indelével: a primeira cadeira a ser ocupada por um escritor do sexo feminino na Academia Brasileira de Letras.
        Segundo seu Discurso de Posse, ela muito cedo fora apaixonada pela poesia de Raimundo Correia, seu patrono, lida em livros guardados por outras gerações de moças e afirmava que não dava para amar dois poetas ao mesmo tempo. Poeta era um só e por muito tempo Raimundo Correia ficara sendo seu poeta, até que apareceu Manuel Bandeira. E sem disfarçar sua sinceridade, lembrou da fraqueza do fundador de sua cadeira, Bernardo Guimarães, que segundo ela, ele demonstrou os sinais de preconceito da época por ele vivida para com a escravidão, ao colocar na condição de personagem principal de seu romance "A Escrava Isaura", uma "branca, pelo menos na aparência", com sua "pinta de sangue negro completamente disfarçada em sinais de beleza."
        Sua fala constitui-se num verdadeiro ensinamento de quem no alvorecer dos dias da juventude, inquieta e apaixonada, almejando a mudança da realidade que a cercava, o que nós outros ainda hoje sonhamos, se enfileirou nas lides políticas, o que resultou em sucessivas prisões e em sua candidatura a Deputada Estadual Constituinte, lançada que foi no longínquo 19 de dezembro de 1934, assinalando a presença feminina na política cearense, pois era ela a primeira a almejar tal cargo. Na época, Rachel de Queiroz, já era reconhecidamente escritora, já tendo inclusive, conquistado o Prêmio Graça Aranha, pelo "O Quinze", comentado e elogiado pelos maiores críticos do Brasil.
        Uma brincadeira a lançou no jornalismo, por meio de uma ironia feita por ela à escolha da "Rainha dos Estudantes", o que lhe seria devolvido pela mesma ironia, desta vez feita pelo destino: Rachel também seria uma das "Rainhas do Estudantes". Por outro lado, uma história de amor foi usada por pano de fundo para que a atenta observadora da realidade de então retratasse, no marco sólido do romance regional – "O Quinze" –, a famigerada seca de 1915.
Recordo-me de uma indagação a ela feita quanto ao seu ingresso na Academia Brasileira de Letras e sua resposta foi: "não fui culpada" e certamente foi aquela uma das poucas eleições em que a candidata pouco empenho teve; aliás, ela mesma disse que, "fugiu" para o Sertão, de onde um dia saiu para se aventurar com o mundo das grandes cidades. Dali, surgiu a primeira Imortal na Literatura Brasileira.
           Ao tecer elogio a seu antecessor, Cândido Mota Filho, e ao destacar-lhe as qualidades não esqueceu de uma em especial, a de ser avô e era de netos, conforme ela assegura ao encerrar o Discurso de Posse, e não era de literatura, que os dois preferiam conversar quando se encontravam.
Para recebê-la, Adonias Filho, destacou a obra que celebrizou a autora que primeiramente, entre suas colegas escritoras, transpôs os umbrais da Casa do Bruxo do Cosme Velho – Machado de Assis.
        O pioneirismo de sua quinta avó, D. Bárbara de Alencar, primeira presa política do Brasil, se firmou naquele cinco de novembro, no momento célebre em que Rachel de Queiroz precursorizava a presença feminina naquele reduto até então somente ocupado por literatos do sexo masculino.
A mim que tenho o privilégio de contar com sua preciosa amizade, resta rememorar esses seus feitos e pedir ao único realmente IMORTAL, nosso Deus, que continue a abençoá-la e conceder-lhe mais ainda inspiração, mantendo sua constante lucidez, na juventude de seus 92 anos que, com a vênia do Onipotente Criador, no próximo dia 17 celebraremos.
        Os parabéns que damos, neste cinco de novembro, e especialmente à Terra que primeiro quebrou os grilhões da escravidão, o Ceará, que guardou os passos iniciais, as primeiras emoções da mais lida e premiada escritora deste Solo Pátrio, Rachel de Queiroz, essência do sertão que ela tanto ama, a quem nos unimos para comemorar seu Jubileu de Prata de Imortalidade Literária na Academia Brasileira de Letras.

         José Luís Lira
       

PRESENÇA FEMININA NA ABL:
1 – Rachel de Queiroz;
2 – Dinah Silveira de Queiroz;
3 – Lygia Fagundes Teles;
4 – Nélida Piñon;
5 – Zélia Gattai.


                                             José Luís Lira
                                         Advogado e escritor

         Membro da OAB/CE., Academia de Letras Municipais do Estado do Ceará - ALMECE, Academia Camocinense de Letras, Associação de Jornalistas e Escritores do Brasil, Sociedade Cearense de Geografia e História e Sócio Fundador da Academia Fortalezense de Letras.

 

E-mail: j.llira@bol.com.br