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LIVRO
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Crônicas de um falso mundo
Rachel
de Queiróz
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Em seu novo livro, Rachel de
Queiroz reúne os textos escritos para a imprensa entre 1983 e
2000
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Ela é fantástica. E depois de quase dois anos sem
apresentar um novo trabalho, a cronista emérita e célebre
escritora Rachel de Queiroz, retorna, com “Falso mar,
falso mundo” (Editora ARX, 2002), reunindo 89 crônicas
por ela produzidas entre 1983 e 2000. Já estávamos com
saudade de uma conversa mais demorada, pois é assim que
nos sentimos ao ler algo escrito por ela, a doce
anarquista que mesmo com seus 91 anos, ainda nutre a
rebeldia tão demonstrada em sua biografia invejável;
figura, que de tão importante, parece mitológica.
“Falso mar, falso mundo”, traz as impressões da
literata, da bisavó, da amiga e acima de tudo, da cidadã,
que com a idade e vasta experiência que tem, não
abandona o sertão nordestino e, especialmente, o
cearense, onde está encravada a sua Fazenda Não Me
Deixes, se entristecendo com o período seco e vibrando
com a volta das chuvas: “Não é entusiasmo sertanejo, não
é patriotismo cearense, mas o sertão está lindo, tão
lindo, que poderia competir com as paisagens clássicas de
além-mar” (‘‘Nós e a natureza’’).
Aliás, algo que não sai de seu pensamento, é o sertão;
estando em Berlim Ocidental, encontra “a caatinga
nordestina em réplica”. Isso é o suficiente para o
retorno à Pátria natal, “Me vi de repente no Ceará,
tal como deve ele estar agora...” E prossegue a lúcida
amiga, que lembra “Se você não é capaz de ter amigos,
você é um erro da natureza...” (‘‘Ah, os
amigos’’).
Atenta observadora da realidade que a cerca, quase nada
lhe passa desapercebido e desde o lançamento de “As
terras ásperas” (Editora Siciliano, 1993), estávamos
saudosos da crônica sincera e franca do maior escritor
vivo deste país: Rachel de Queiroz; a primeira mulher a
integrar a Academia Brasileira de Letras e que está
intimamente ligada às conquistas femininas no Brasil,
mesmo não sendo ela feminista no sentido político da
palavra, como ela mesma declara.
Os sábios conselhos que recebemos semanalmente em seu
artigo publicado na imprensa do País, agora chegam às
nossas mãos e é bom recordar e acompanhar o cotidiano
dessa cidadã que a nós, moços, nos dá um conselho: ´não
fiquem velhos´ e repugna o termo ´terceira idade´
(‘‘Não aconselho a envelhecer’’).
A arte da escrita, tão bem dominada por Rachel de
Queiroz, está presente nessas crônicas reunidas, não
somente nas que falam especificamente do assunto, mas em
todas as outras. Ao final de cada crônica, uma lição
nos é dada e enriquecidos ficamos com a leitura de quem
muito sabe, muito viveu e mostra que a vida é um eterno
aprendizado.
Nas lições de seu bisneto Pedro e sua ânsia de conhecer
o mundo, acompanhada da busca da liberdade, Rachel nos dá
um exemplo de sua sabedoria, revestida da simplicidade
comum aos gênios e sábios dessa vida, com suas paixões,
seus declínios e acertos.
A crônica ´Os Noventa´, fecha o livro com chave de
ouro. Sendo que nele vemos o futebol e a ânsia que tínhamos
pelo pentacampeonato que só agora conquistamos; os
colegas; o sertão; o Rio de Janeiro; as Guerras; enfim, o
dia-a-dia sob a ótica lúcida de quem se preocupa com o
fim do mundo e vê atenta as novidades do novo milênio e
lembra o ´Falso mar, falso mundo´, tendo por pano de
fundo uma ´Praia Artificial´ no Japão, observando que
´Aquilo não pode deixar de ser pecado´.
Os grandes ensinamentos que ela nos dá, convivem com a
grandeza e meiguice inigualável de que é detentora; cabe
a nós, leitores, aproveitarmos deles.
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José Luís Lira
Advogado e escritor
Membro da
OAB/CE., Academia de Letras Municipais do Estado do
Ceará - ALMECE, Academia Camocinense de Letras, Associação de
Jornalistas e
Escritores do Brasil, Sociedade Cearense de Geografia e História
e Sócio
Fundador da Academia Fortalezense de Letras, dentre outras.
E-mail: j.llira@bol.com.br
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