José Luis Lira apresenta:

       

LIVRO

                    Crônicas de um falso mundo

Rachel de Queiróz

 

       Em seu novo livro, Rachel de Queiroz reúne os textos escritos para a imprensa entre 1983 e 2000


     Ela é fantástica. E depois de quase dois anos sem apresentar um novo trabalho, a cronista emérita e célebre escritora Rachel de Queiroz, retorna, com “Falso mar, falso mundo” (Editora ARX, 2002), reunindo 89 crônicas por ela produzidas entre 1983 e 2000. Já estávamos com saudade de uma conversa mais demorada, pois é assim que nos sentimos ao ler algo escrito por ela, a doce anarquista que mesmo com seus 91 anos, ainda nutre a rebeldia tão demonstrada em sua biografia invejável; figura, que de tão importante, parece mitológica.

     “Falso mar, falso mundo”, traz as impressões da literata, da bisavó, da amiga e acima de tudo, da cidadã, que com a idade e vasta experiência que tem, não abandona o sertão nordestino e, especialmente, o cearense, onde está encravada a sua Fazenda Não Me Deixes, se entristecendo com o período seco e vibrando com a volta das chuvas: “Não é entusiasmo sertanejo, não é patriotismo cearense, mas o sertão está lindo, tão lindo, que poderia competir com as paisagens clássicas de além-mar” (‘‘Nós e a natureza’’).

     Aliás, algo que não sai de seu pensamento, é o sertão; estando em Berlim Ocidental, encontra “a caatinga nordestina em réplica”. Isso é o suficiente para o retorno à Pátria natal, “Me vi de repente no Ceará, tal como deve ele estar agora...” E prossegue a lúcida amiga, que lembra “Se você não é capaz de ter amigos, você é um erro da natureza...” (‘‘Ah, os amigos’’).

     Atenta observadora da realidade que a cerca, quase nada lhe passa desapercebido e desde o lançamento de “As terras ásperas” (Editora Siciliano, 1993), estávamos saudosos da crônica sincera e franca do maior escritor vivo deste país: Rachel de Queiroz; a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras e que está intimamente ligada às conquistas femininas no Brasil, mesmo não sendo ela feminista no sentido político da palavra, como ela mesma declara.

     Os sábios conselhos que recebemos semanalmente em seu artigo publicado na imprensa do País, agora chegam às nossas mãos e é bom recordar e acompanhar o cotidiano dessa cidadã que a nós, moços, nos dá um conselho: ´não fiquem velhos´ e repugna o termo ´terceira idade´ (‘‘Não aconselho a envelhecer’’).

     A arte da escrita, tão bem dominada por Rachel de Queiroz, está presente nessas crônicas reunidas, não somente nas que falam especificamente do assunto, mas em todas as outras. Ao final de cada crônica, uma lição nos é dada e enriquecidos ficamos com a leitura de quem muito sabe, muito viveu e mostra que a vida é um eterno aprendizado.

     Nas lições de seu bisneto Pedro e sua ânsia de conhecer o mundo, acompanhada da busca da liberdade, Rachel nos dá um exemplo de sua sabedoria, revestida da simplicidade comum aos gênios e sábios dessa vida, com suas paixões, seus declínios e acertos.

     A crônica ´Os Noventa´, fecha o livro com chave de ouro. Sendo que nele vemos o futebol e a ânsia que tínhamos pelo pentacampeonato que só agora conquistamos; os colegas; o sertão; o Rio de Janeiro; as Guerras; enfim, o dia-a-dia sob a ótica lúcida de quem se preocupa com o fim do mundo e vê atenta as novidades do novo milênio e lembra o ´Falso mar, falso mundo´, tendo por pano de fundo uma ´Praia Artificial´ no Japão, observando que ´Aquilo não pode deixar de ser pecado´.

     Os grandes ensinamentos que ela nos dá, convivem com a grandeza e meiguice inigualável de que é detentora; cabe a nós, leitores, aproveitarmos deles.


                                             José Luís Lira
                                         Advogado e escritor

         Membro da OAB/CE., Academia de Letras Municipais do Estado do Ceará - ALMECE, Academia Camocinense de Letras, Associação de Jornalistas e Escritores do Brasil, Sociedade Cearense de Geografia e História e Sócio Fundador da Academia Fortalezense de Letras, dentre outras.

 

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