JUIZ POR UM DIA
Geralmente corre um frio pela espinha quando se pensa
em julgamentos, justiça, delegacia, advogados, promotores e
juízes. Isto cheira a grandes encrencas como: audiências,
indenizações ou até cadeia... Para um cidadão comum que adora
viver tranqüilo com meninos esposa e trabalho o envolvimento com a
justiça geralmente assusta muito. Mas como será o dia a dia
daqueles que militam nesta área? Como vivem aqueles que tem em
suas mãos a responsabilidade de decidir as grandes contendas da
sociedade?
Foi neste clima de questionamentos que recebi em tom preocupação o
convite, quase intimação de participar do Tribunal do Júri da
Comarca de Camocim.
Para iniciar, a visita do oficial de justiça em sua porta,
geralmente, nos trás a sensação de algo parecido com mau agouro ou
pelo menos de preocupação, pois estes, geralmente, não nos trazem
boa noticias...
-Pô, será que alguém resolveu me processar por causa de alguns de
meus escritos?
Mas naquele dia tive a sorte de receber a visita do grande amigo
Silvio que foi logo dizendo com calma!
- Ola, RPires, Tranqüilize-se a noticia que trago, certamente será
do teu agrado!
Disse isto com um sorriso meio amarelo nos lábios...
- Você está sendo convocado para prestar serviços à sociedade:
Trata-se do Tribunal do Juri.
Assinei o documento meio cabreiro sem entender se era bom ou não.
Minha mulher reagiu logo!
- É Fria! - Disse Aninha - Vai se acabar seu sossego! Passar o
dia inteiro dentro de um sala para decidir a sorte de criminosos
que vão acabar querendo cortar o teu pescoço!
- Não me deixei intimidar... Pensei de como seria o aspecto de
conhecer outros tipo de pessoas e estórias de vidas diversas.
Conheci em minha vida grandes nomes com Rachel de Queirós - que
Deus a tenha Acolá escrevendo sob os sons das arpas sagradas e um
coral de anjos cantando baixinho - Lembrei-me do Didú – Carlos
Eduardo de Sousa Campos e sua mulher na época: a Tereza de Sousa
Campos hoje casada com o um dos príncipes de Petrópolis.
Lembrei-me do grande Chico Anísio, isto sem falar de Dr. Roberto
Queirós e outros nomes de pessoas ilustres que tive a honra de
fazer amizades...
A idéia de conhecer mais intimamente os dramas da sociedade em que
vivo me seduzia...
Aninha continuava implacável:
- Atestado médico! É a solução! Você está meio hipertenso e não
pode passar emoção muito forte. Vou já ligar para o teu amigo
Paulo e pedir o atestado.
- Calma, meu amor, ninguém vai querer cortar o meu pobre e único
pescocinho,disse isto abraçando-a carinhosamente notando que já
fazia uma carinha de choro de preocupação: Afinal, homem “tá” meio
racionado em Camocim, a homossexualidade está em plena moda!! Tem
viado que dá por aí, afirmou ela com preocupação...
Foi neste clima de preocupação e de parceria social
que assumi o cargo de jurado desta respeitada Comarca. Afinal de
contas, conheço os juizes, promotores e advogados desta cidade e
tenho por eles grande admiração. Quanto aos réus, está será uma
oportunidade de ouro de entender as causa dos desrespeitos
sociais, com seus crimes e transgressões e, de alguma forma,
ajudar a se fazer justiça, coisa que sempre reclamamos mas como
uma espécie de avestruz com a cabeça enterrada na areia se
recusando a tomar conhecimento desta triste face de nossa
sociedade. Isto sem contar o vasto material que colherei para meus
contos e crônicas.
Logo na semana seguinte aconteceria a primeira seção do Tribunal e
fui bem à vontade. Deixei meu paletó e gravata de lado e logo
descobriria a bobeada que fiz... Calma! Não falo do traje em si.
Todos os jurados se trajavam normalmente, mas o ar condicionado do
local era dos bons e senti-me como no ônibus da Ipu numa viagem
Camocim Fortaleza: Quase morri de frio! O respeitado magistrado
muito atencioso, percebendo o constrangimento, abordou-me sobre o
frio que eu estava sentia e logo um dos auxiliares do fórum me
trazia um dos meus paletós trazidos até a porta por um de meus
familiares.
Quando se vai para um júri à primeira vez leva-se na mente a
corte americana do norte vista em filmes e logo se percebe que no
Brasil as regras são diversas.
Os jurados não se comunicam entre si e o conselho de sentença se
manifesta respondendo perguntas para recolher sem riscos de mal
entendidos a opinião de cada jurado de forma inequívoca. Percebi
que é difícil não se fazer justiça! Sete cabeças pensantes,
pessoas sérias da sociedade acompanhadas de perto por
profissionais da área mostram todas as facetas do evento em curso
que culmina com o lançamento dos criminosos no rol dos culpados e
da absolvição de inocentes eventualmente apanhado nas ciladas da
vida.
Uma coisa que mexeu muito comigo é a luta de profissionais da
defesa para salvar o pêlo de seus clientes, algumas vezes,
visivelmente culpado. Ainda não me acostumei ver homens
conceituados, respeitados, defender teses absolutamente perdidas
com argumentos frágeis, às vezes, verdadeiros insultos à
inteligência dos que escutam. Mas precisamos aprender a se
relacionar com os contraditórios e isto, já aos quase 60 anos de
vida ainda reluto em adquirir este conhecimento que tudo indica
ficará para outra ocasião.
RPires