UM HERÓI DO COTIDIANO

 

A falta de chuva já faz parte do cotidiano de todo cearense! E como já estou há muitos anos por estas bandas, já me adaptei a falta deste fenômeno natural tão importante para vida. Passam-se meses e meses sem se ver a beleza das águas que caem tão fartamente no Sul do Brasil, que, quando acontece de chover aqui, somos pegos de surpresa!

Aqui em casa, quando a chuva começou, e as goteiras apareceram (poim! poim!), foi um verdadeiro escândalo! Lá vem água do teto... A primeira grande goteira foi descoberta em cima do nosso computador e, se não sou tão rápido com o plástico, para cobrir, vocês não estariam lendo esta modesta coluna. Pingava na cozinha, na sala e no quarto! Em cima da nossa cama, pasmem! Então, lembrei-me de um amigo que conta que foi surpreendido pelas goteiras em plena lua de mel, na cama do casal! Disse-me Ary que, para livrar-se do incômodo, conseguiu um copo grande e o amarrou com um cordão abaixo do telhado e, entre um momento de amor e outro, corria para esvaziar um  copo cheio.

Foi neste clima de Deus nos acuda que resolvi subir no teto da casa e consertar o telhado, desentupindo inclusive as calhas, pois a água já descia pelas paredes! Uma vez lá em cima, gastei seguramente uma hora de trabalho, retirando de lá cacos de telhas e lixo. No meio deste trabalho, Aninha, minha mulher, gritou lá de baixo: 

-O que há ai em cima, Roberto?  Tá tudo bem? 

Ao que fiz uma reflexão sobre a idade,  o risco do trabalho em curso e respondi que sim, que estava tudo bem e que já ia descer. Não sem antes sorrir comigo mesmo um riso maroto, por um pensamento que me ocorrera e que lhes contarei em seguida.

Terminado o serviço, já morto de cansado, quase tendo uma síncope, desci titubeante e, ajudado pela mulher preocupada, com um olhar de repreensão na face, fui direto para o banheiro tomar um  jato de água quente e retirar a friagem. Afinal de contas, eu estava todo molhado... Mesmo antes de terminar o banho, Aninha já estava postada à porta, no meu calcanhar, com um olhar interrogativo. Disse-lhe: - está bem, querida, vou lhe contar o que me fez sorrir lá em cima da casa, debaixo daquele temporal todo. Quando estava quase terminando o serviço de retirada das goteiras, pensei que ao descer seria recebido por você com um beijo gostoso e ouviria – Meu Herói!!! Porém senti que não seria assim. Com certeza, você, ao me ver todo molhado e cansado, me olharia e diria: Seu cabra irresponsável! Como é que nesta idade você se mete a subir na casa num temporal destes, com risco de cair lá de cima e criar um problema danado!? Juízo homem!

Foi neste clima que desci e, apesar dela não ter dito estas palavras, pude ler na sua fisionomia de mulher preocupada e repreensiva que as queria dizer! Acho que não tenho jeito mesmo, sou um romântico incurável...                                     Rpires.        

( In "Crônicas de Uma Vida" - Pag. 97)         

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