Entrevistada hoje:

Rachel de Queiroz

 

 

 

 

Helena de Sousa Freitas entrevista: 

 

RACHEL DE QUEIROZ

 



Helena - Rachel de Queiroz foi a primeira mulher aceite na Academia
Brasileira de Letras. Actualmente o caminho para as escritoras brasileiras
está mais 'desbravado'? Que conquistas ainda lhes faltam?

Rachel de Queiroz –  Parece que agora  as escritoras não encontram  mais nenhum caminho vedado. O que é levado em conta  é o mérito de cada uma.

 


Helena - Hoje, após o virar do século, ainda será válido falar numa 'escrita
no feminino'? Em que aspectos é que ela se manifesta? Será ela intemporal,
como uma intuição que atravessa gerações?

Rachel de Queiroz – Sua pergunta  é difícil! O que posso  dizer, é, ao que me parece mede-se a obra pelo seu valor  e não pelo sexo do autor, ou autora.   

 

Helena - Consegue imaginar, na sociedade presente, um livro a ter o impacto
que 'O Quinze' teve na época em que foi publicado? Que género de livro
seria? Atreve-se a avançar o nome de um autor(a) para essa obra?

Rachel  de Queiroz –  Não me parece que o Quinze teve este impacto tão forte. A verdade é que sobre os meus livros, me parece, que não houve impacto especial. 

 

Helena - Muitas vezes tem lamentado a sociedade descartável em que vivemos. A literatura actual - brasileira e internacional - reflecte nos seus
conteúdos esse estado frágil?

Rachel  de Queiroz – Não me recordo de, jamais, ter chamado a sociedade de descartável. Me parece  até que este adjetivo  não é apropriado. 

Helena - Tendo sido sempre uma mulher atenta à política, que avaliação faz
do presente estado do Brasil a este nível?

Rachel  de Queiroz – Seria muito complexo  resumir  numa frase um juízo desse. Mas continuo a confiar no Brasil e seu destino.

 

 

Helena -  disse um dia que 'inserir política no contexto da literatura
é prostituição'. Mantém esta afirmação? E será possível escrever durante
toda uma vida sem 'politizar' as palavras?

Rachel de Queiroz – Não recordo desta minha afirmação mas, se a fiz,  foi uma tolice.

Helena - O seu interesse pela literatura surgiu cedo, tendo lido e traduzido
grandes obras ao longo da sua vida. É então legítimo questionar o que sente
a '-escritora' quando lê? E a '-leitora' quando escreve a sua
própria obra?

Rachel  de Queiroz -  Sou leitora como todas as outras.  Os livros que traduzo  são em geral  escolhidos pelo editor. É ele quem paga autores e tradutores.

 

Helena - Falando de interesse e entusiasmo pela leitura e tendo em conta que
trabalhou como professora, qual a sua opinião sobre o ensino da língua
portuguesa nas escolas? Será que o incentivo à escrita, à leitura e à paixão
pelo livro está a ser levado a cabo devidamente?

Rachel  de Queiroz – Na minha opinião é a difusão do ensino que incentiva a leitura e, é claro, as traduções. Os editores brasileiros tem mostrado bastante sensibilidade na escolha das obras a traduzir. os grandes livros, na sua maioria, estão vertidos em português.   

 

Helena - Iniciou-se no jornalismo profissional aos 16 anos e na literatura
aos 18. Como compara estas duas áreas de actividade: jornalismo e
literatura?

Rachel  de Queiroz - O jornalismo pode ser literário ou simplesmente informativo. A cultura é cultura. 

 
Helena - A sua escrita retratou muito do que é o Brasil em termos de terra,
de clima, de gentes e 'falas' típicas. Considera que a escrita brasileira
actual continua a ser uma representação tão viva do país, ou enveredou por
outros assuntos, mais urbanos e cosmopolitas?

Rachel de Queiroz – Agradeço o que diz a meu respeito. Acredito que a Cultura Brasileira já se nivela à Cultura Internacional.

 

Helena - Dos muitos prémios literários que ganhou, existe algum com o qual
tem uma relação especial? Ou, pelo contrário, vê os galardões como simples
sinónimo de apreciação pessoal e temporalmente limitada de uma determinada
obra?

Rachel de Queiroz – Os prêmios caem do céu, e a gente os recolhe como bençãos.

Helena - de Queiroz traduziu cerca de 40 livros. Quais são, para si,
os cinco livros (do panorama internacional) sem os quais o séc.XX não
passaria ou não seria o mesmo? Porquê?

Rachel de Queiroz – É difícil  fazer uma seleção destas traduções. Algumas  foram apenas tarefas comuns, outras de minha especial preferência. Poso citar  entre  estas as obras de Dostoievisky.  


Helena - Em 1990, numa entrevista, a defendia que 'cada pessoa deve
saber viver para o seu tempo'. A frase aplica-se também à literatura (ao
nível do conteúdo, da forma da escrita e do suporte do texto)? Qual é,
então, a sua opinião sobre os livros electrónicos?

Rachel de Queiroz – Nunca vi um livro eletrônico.

 

Helena - Acredita que as novas tecnologias podem destituir o livro do seu
papel de 'guardião do saber'? Em que medida é que tal pode verificar-se?

Rachel de Queiroz – O livro me parece eterno. A forma que se apresenta é que pode variar: Seja volume manuscrito,  impresso, em grafia eletrônica ou em quaisquer  outras formas  em que ele se apresenta, o livro nunca deixará de ser um livro.

Helena - Sendo cearense, como vê o nascimento da Academia Camocinense de Letras, uma das primeiras do Norte do estado?

Rachel de Queiroz -  Todo sodalício deste gênero deve ser recebido com aplausos como manifestação da cultura local!

 

Helena - Conhece o Literário Online? O que tem a dizer sobre este órgão de
divulgação literária? Trabalhos como este podem ser importantes para
dinamizar a cultura na Internet, a que acedem milhões de pessoas em todo o
mundo?

Rachel de Queiroz – Somente pelas palavras do Prof. Rpires. Você disse sua definição que inclui realmente os méritos  deste aspecto extremamente louvável da cultura.


Helena - Em jeito de despedida, que palavras gostava de deixar aos seus
leitores espalhados pelo Mundo?

Rachel de Queiroz – Simplesmente: Adeus

 

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