Helena
de Sousa Freitas entrevista
JOYCE CAVALCCANTE
Helena - Joyce Cavalccante é romancista, contista, cronista e
conferencista. Como consegue desdobrar-se em tantas ocupações?
Joyce Cavalccante- Não são tantas. Na realidade essas atividades são um jogo só, aquele que me define, me ocupa e me faz melhor. Encaro minha vida em si como uma narrativa a ser desenvolvida por um autor/criador. E assim me distraio das mazelas existenciais distraindo os outros também das perguntas recorrentes: de onde vim e para onde vou. Escrever romance, conto ou crônica é a mesma coisa. Tudo faz parte do ato de criar, coisa que mais me encanta nessa vida.
Helena
- Como nasceu a Joyce escritora?
Joyce Cavalccante -Acho que tudo começou quando obtive licença para apontar meus próprios lápis. As crianças de seis anos, na fase de
alfabetização, escrevem com lápis, não é? E se hoje em dia existem apontadores para tal finalidade, antigamente isso era coisa rara e a tarefa de apontar o lápis era perigosa para as crianças visto que se usava uma lâmina. Por essa razão os adultos - pais, professores, irmãos mais velhos - se encarregavam disso até que os pequenos tivessem juízo suficiente.
A primeira vez que apontei meu próprio lápis foi justamente para narrar algo, para escrever uma composição, como se dizia. Me enchi de prazer ao fazer isso e não poderei me esquecer jamais do cheiro da madeira, pau-brasil, que é exótico e adocicado, subindo pelo meu nariz com um prazer sensual. Creio que foi nesse momento que me tornei uma escritora.
Helena - Como começou com a leitura?
Joyce Cavalccante - Lá em casa lia-se muito - romances, revistas e livros infantis. Embora fosse tudo muito espontâneo, havia um ritual, uma iniciação de acordo com a idade de cada um. Primeiro éramos apresentados aos livrinhos religiosos com histórias de santos e aos catecismos. Depois liamos os maravilhosos trabalhos de Monteiro Lobato e a coleção Tesouro da Juventude. Um pouco mais adiante surgiam as revistas semanais e os jornais.
Nessa fase, automaticamente éramos admitidos à mesa dos adultos e às conversas mais consistentes como política etc. Mas mesmo assim, nós, as senhoritas, ainda não podíamos ler Eça de Queiróz, Stendhal, D.H. Lawrence. Embora léssemos. Escondido claro. Depois disso as portas estavam abertas para o imaginário. E era o salve-se quem puder naquele desfile de obras maravilhosas. Me lembro também das brigas quando aparecia um livro novo de Érico Veríssimo ou Jorge Amado. Todos queriam pegar primeiro.
Helena - Um bom escritor será sempre um bom leitor?
Joyce Cavalccante - Não tenho dúvidas quanto a isso. Já descobri que, quando estou escrevendo, meu maior prazer é ir lendo aquilo que crio como se estivesse lendo a obra de outro autor. Processa-se assim um jogo crítico e um movimento prazeiroso, uma águas emendadas. Nunca sei se gosto mais de ler ou de escrever.
Helena - Como presidente da REBRA - Rede de Escritoras Brasileiras, quais considera serem as principais dificuldades destas escritoras para se afirmarem no mercado do seu país? E internacionalmente?
Joyce Cavalccante- A falta de oportunidade para expor seus trabalhos assim como a falta de autoconfiança em seus respectivos talentos. Tudo porque o mundo, incluindo meu país, não foi feito para a porção feminina que nele habita. A Rebra foi criada justamente para ajudar a ultrapassar essas dificuldades.
Helena- A criação da REBRA contribuiu para uma maior divulgação das escritoras brasileiras? Em que medida?
Joyce Cavalccante - Espero que sim, senão estaremos nos esforçando por nada. Cada associada ganha uma página web em três idiomas: português, inglês e espanhol que é divulgada para um universo de 25.000 e-mails do mundo lítero/intelectual. Se essa página trás fantasia e talento as coisas fatalmente acontecem. Fora isso temos uma livraria e selo editorial para auxiliar nas tarefas de distribuição, vendas e publicação das obras de literatura feminina de nosso país. No futuro pretendemos oferecer mais recursos ainda. Por enquanto isso é o que podemos fazer.
Helena - Enquanto cearense, como vê o nascimento da Academia Camocinense de Letras?
Joyce Cavalccante - Só posso me sentir feliz e parabenizar seus idealizadores. Não conheço ainda Camocim, mas dizem que é linda. Um dia irei lá e visitarei os colegas acadêmicos.
Helena- Que imagem tem das organizações de escritoras noutros países de expressão portuguesa? E nos outros países da América Latina?
Joyce Cavalccante- Quanto mais falarmos em literatura, dinamizarmos esse mercado, multiplicarmos os encontros e as oportunidades, mais a literatura crescerá. As associações, além de protegerem interesses específicos, desempenham esse papel. Aqui no Brasil temos, além da REBRA-Rede de Escritoras Brasileiras, o Sindicato dos Escritores e uma outra associação, a União Brasileira de Escritores. Em Portugal conheço a Associação Portuguesa de Escritores. Todas elas se propõem a unir pessoas que se dedicam ao mesmo ofício. Umas conseguem, outras confundem.
Na América latina conheço muitas e troco informações com a maioria, principalmente com as que têm por objectivo facilitar a comunicação entre as mulheres.
A RELAT-Red de Escritoras Latinoamericanas, da qual sou membro do conselho diretor, pode ser citada como uma excelente iniciativa nesse sentido. Sua presidente, a escritora peruana Mariela Sala, é um dinâmo. Fora desses âmbitos temos a WWORLD- Women World for Literature, com sede nos Estados Unidos e de alcance mundial quando visa proteger os direitos da escritoras. Nós mulheres precisávamos disso.
Helena - Seria bem-vinda uma Rede de Escritoras da Lusofonia, que difundisse a produção literária das mulheres dos oito países lusofalantes (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Brasil e Portugal)?
Joyce Cavalccante- Que belissima idéia! Vamos pensar nisso? Desde já ponho a experiência da REBRA à disposição do projeto. Assim, além de facilitarmos a comunicação e divulgarmos nossa literatura, defederíamos nossa língua, que é um luxo de tão linda.
Helena - O seu mais recente trabalho "O Cão Chupando Manga" foi divulgado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Como está a ser a reacção do público e da crítica a esta nova obra?
Joyce Cavalccante - Está muito bem e eu me sinto gratificada. Já dá para ter uma idéia da repercussão da minha prosa no coração dos leitores. Coloquei propositalmente o endereço de minha "web page" na orelha do livro, facilitando assim o acesso dos leitores a mim. Tem sido impressionante a forma como estão me devolvendo as questões propostas, as opiniões.
Fizemos o pré-lançamento na X Bienal do Rio, em Maio e a série de lançamentos começou por Fortaleza, minha linda cidade natal. Foi uma festa belíssima, cheia de amigos e parentes, além de leitores e intelectuais. Agora sigo para São Paulo, capital e interior, e Rio. Depois sossego.
Helena - "O Cão Chupando Manga" é o mais recente volume de uma tetralogia sobre a saga do povo brasileiro de origem nordestina desde 1954. Pode 'levantar um pouco o véu' sobre o próximo livro?
Joyce Cavalccante- Sossego, como acabei de dizer e mãos à massa para escrever o próximo volume: "Os Brazucas" já concebido, precisando apenas ser desenvolvido. Aliás, "Os Brazucas" terá como cenário, além das cidades de New York e Torino; Lisboa, sua maravilhosa capital com seus becos e travessas.
Brazucas é uma gíria, uma expressão usada pelos brasileiros que moram fora do país para se autodenominarem. Como o livro se passará inteiramente no exterior tomou esse título. Mas terá também um subtítulo hilariante. Contarei quando chegar a época certa. Prometo que fará rir assim como "O Cão Chupando Manga".
Helena- Com uma obra já tão vasta, ainda sente que alguns autores influenciam a sua escrita? Quais e a que níveis?
Joyce Cavalccante- Não considero minha obra tão vasta. Sete livros é muito pouco para minha pretensão. Mas eu tenho uma lista de responsáveis por toda essa história: Ernest Hemingway, S. Fitzgerald, Ezra Pound, Borges, Poe, Guy de Maupassant, Tchecov, Tostoi, Eça de Queiróz, Clarice Lispector, Moreira Campos, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, William Faukner, James Joyce, Virgínia Wolf, Machado de Assis. Chega? São prosadores em sua substância, mas antes de mais nada transpiram inquietude, transpiram o dom.
Helena - E, independentemente de uma eventual influência, quais os autores ou títulos que marcaram a sua experiência enquanto leitora?
Joyce Cavalccante - Sou uma leitora contumaz e você sabe, não há nada no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos, como consta que Aristóteles, o filósofo grego, disse. Portanto, tudo marca nosso
coraçãozinho poroso: "O Nome da Rosa" de Humberto Eco é um grande livro e um grande título. "Perto do Coração Selvagem", de Clarice Lispector é uma sinfonia; "Ninguém Escreve ao Coronel" de García Márquez e muitos outros. Fora isso há tanta coisa linda nas prateleiras. Quem me dera conservar todos os meus sentidos por bastante tempo para ler tudo isso.
Helena - De entre os prémios literários que já obteve, qual lhe diz mais e porquê?
Joyce Cavalccante- Sem querer me desafazer dos demais, pois prêmio sempre incentiva, me fascina a seriedade do prêmio APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte, que tive a honra de ganhar em 1993 por "Inimigas Íntimas".
Helena - Tendo em conta que publica desde 1978, alteraria algo ao seu trabalho do passado? O quê e em que obra?
Joyce Cavalccante- É difícil reler o que já se escreveu sem querer alterar. Sempre se quer dar uma melhorada. Precisa-se de muita maturidade para se voltar ao contexto em que aquela obra foi escrita e alterá-la apenas nos mínimos recônditos senão vira outra obra. Agora estou em uma nova editora e vamos reeditar toda minha obra. Já estou começando a rever os textos, mas se pudesse, em vez de reeditar faria facsímile das primeiras edições e pronto. Seria menos doloroso.
Helena - A vida de um escritor passa por muito mais do que escrever. O que faz para se descontrair, para se afastar do absorvente trabalho da escrita?
Joyce Cavalccante - Escrever para mim é viver com todas as suas exigências e vissicitudes. Com os devidos prazeres também. Portanto, é fácil ocupar o tempo da literatura com outros afazeres quando se tem a certeza interior que qualquer coisa poderá desembocar na escrita.
Digo sempre aos meus amigos: cuidado senão você vira personagem. Muitas vezes misturo vida real e ficção, principalmente quando a vida está muito chata. É assim que me distraio.
Helena- Igualmente absorvente é a profissão de jornalista, para muitos um parente próximo da escrita de ficção. Que semelhanças e diferenças encontra entre o jornalismo e a literatura?
Joyce Cavalccante - Existe uma grande diferença, uma diferença conceitual, embora ambas as atividades usem a palavra escrita e o talento como método. O jornalismo é pragmático, é útil. A literatura tem como única finalidade encantar e acrescer a alma.
Helena - Que opinião tem sobre o Literário Online? Acredita no seu papel pedagógico e de divulgação cultural? O que pensa da internacionalização deste órgão?
Joyce Cavalccante- Tudo tem que se expandir. O próprio universo está em constante expansão. E porque não o nosso Literário Online? Sim, ele deve conquistar seu âmbito internacional e para aumentar o alcance de sua contribuição pedagógica e difusora.
Aproveitando a oportunidade, parabenizo seus criadores. Parabenizo e agradeço.
Helena- Que mensagem deixa àqueles que admiram o seu trabalho nas diversas áreas da literatura?
Joyce Cavalccante - Não só eu mas todos os escritores escrevem para encantar. Todos somos herdeiros e seguidores de Sherazade: aquela que passa suas noites encantando, distraindo, excitando. Portanto, se consegui encantá-los com minha prosa, se consegui fazê-los associar-se ao meu intento, estou paga, muito bem paga e feliz porque fechei um círculo - objeto perfeito - e me liberei para outros vôos, que significam outros livros. Não tenho leitores, tenho co-autores de meus livros.
Agradeço aqui a oportunidade de expressar meu pensamento e deixo um abraço caloroso para quem chegar.
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