Helena
de Sousa Freitas entrevista
Ana Pires
Helena
-
De que forma vir do interior estudar
para Camocim mudou a sua vida? Como era Ana Pires antes deste passo?
Ana Pires - Posso dizer que esta decisão mudou muito minha vida.
Algo que
persegui a vida toda, como ainda hoje persigo, é o estudo. Aos sete anos
de
idade tive que deixar meus pais para ir em busca deste objetivo - hoje
praticamente alcançado - pois no lugar onde nasci eu não tinha como
estudar.
Ana Pires não existia, existia então Ana Margarida Felisberto. Ana Pires
só
passou a existir quando casei com Profº. Roberto Pires. Entretanto, hoje
não
foi só meu nome que mudou. Sinto que o modo de pensar, agir, minha
maneira
de ver o mundo não é mais a mesma de há sete anos. Acho que devo isso a
novos conhecimentos adquiridos e experiências vividas. Ser casada com
alguém
mais experiente é muito bom, pois grande parte do que não sabia, aprendi
com
Roberto.
Helena - Ser sempre tão aplicada na escola, enquanto aluna, moldou
o seu
interesse pelo ensino? Ou ser Professora é um sonho que vem da infância?
Ana Pires -
Acredito
que não (se sim, acho que me pegaste pelo
inconsciente). Quando tinha sete anos dizia sempre que quando
"crescesse"
iria ser professora, mas quando estava próximo de concluir o Ensino
Fundamental II (8ª série) este pensamento havia mudado: não queria mais
seguir a carreira. Acho que as cartas estavam marcadas, pois a falta de
opção por outros cursos era flagrante em nossa cidade. Então só tinha
duas
opções: o Curso Científico ou o Curso Pedagógico, preferi optar pelo
segundo
e não me arrependi. A partir daí, abriram- se os caminhos. Assim que
terminei o Magistério, houve um concurso público para professores da
Rede
Municipal mas não quis participar pois ainda não estava muito certa do
que
desejava. Entretanto, fui convidada pela Secretária de Educação neste
mesmo
ano para lecionar numa escola, no 1º ano do Ensino Fundamental II (5ª série). De início, fiquei apreensiva por ser minha primeira experiência
em
sala de aula, mas aceitei o desafio. Enfrentei-o e gostei da experiência.
Então, no segundo concurso para professores que houve no município,
resolvi
arriscar, pois já estava lecionando como contratada. Fiz o concurso e
passei, entrando definitivamente para o quadro dos professores concursados.
Helena - Confessa, no texto 'Momentos de Angústia'
(www.mcanet.com.br/rpires/literario/momentos.htm)
que teme falhar na
redacção do vestibular. No entanto, escreve sem problemas, com
facilidade e
clareza. Nunca sentiu que podia ser um pouco autocrítica demais?
Ana Pires - Pode ser que esteja sendo crítica demais comigo, mas
era assim
que me via, com muitas dificuldades em coordenar o pensamento para a forma
escrita. Era algo que me apavorava. Hoje, graças ao estímulo daquela
redação
bem sucedida na Faculdade - onde fui, modéstia à parte, a única que
fechou
os 1000 pontos na redação do vestibular - e ao convívio, durante quase
três
anos, com poetas e escritores, sem contar com a influência do RPires,
sinto-me bem mais desenvolvida na arte de grafar.
Helena- Como se classifica enquanto docente? É exigente mas
compreensiva? Sente que ainda tem muito a aprender? Cativa com facilidade
os
seus alunos?
Ana Pires
- Sou muito exigente comigo
enquanto profissional e tenho bastante
preocupação em relação ao desempenho dos discentes, mas me acho compreensiva
na medida do possível e gosto muito de justiça. Sempre acho que quanto
mais
se aprende mais se tem a aprender. O aprender deve ser uma constância em
nossas vidas. De resto, sou mais extremada: quando achamos que sabemos
tudo, odemos nos preparar para a morte. Sobre cativar meus alunos, eles
demonstram que sim. São muito carinhosos comigo, dedicam-me muita atenção,
mandam cartas de agradecimentos e elogios. Tenho guardado como lembrança
umas duzentas ou mais cartinhas de alunos de turmas passadas.
Helena
-
Ser uma Professora tão jovem nunca lhe colocou problemas
com os
seus alunos? Pergunto isto porque se assiste cada vez mais, um pouco por
todo o Mundo, a uma perda de impacto, respeito e 'poder' do cargo de Professor face aos estudantes...
Ana Pires
- Por incrível que pareça, tive
receio de início que pudesse ter
problemas com alunos de determinadas turmas, mas consegui me sair bem até
agora. Tenho uma relação de respeito muito boa com meus alunos e sou
correspondida com o mesmo respeito que transmito. Confesso que nos dias
atuais está cada vez mais difícil lidar com o ser humano e quando se
trata
de uma diversidade de personalidades, aí tem que ter muito jogo de cintura,
que é o que está me salvando até o momento. Temos que estar sempre
atualizando nossas táticas pedagógicas, caso contrário cederemos a vaga
a
outro que tenha mais domínio da situação.
Helena - O seu interesse por continuar a estudar e a aprender
parece uma
constante no seu trajecto até ao momento. Em que medida esta contínua
reciclagem de conhecimento é útil para quem ensina? Ou será mesmo
imprescindível?
Ana Pires
- Estou sempre em busca do
conhecimento como alguém que busca a
água para matar a sede. Na educação, cada vez mais o sistema exige que
seus
educadores estejam bem preparados e bastante atualizados. A cada dia que
passa se reformulam velhos paradigmas e se criam outros na educação. Por
isso, é preciso estar em constante busca de conhecimento para assim fazer
a
subida de degraus, pois cada vez mais se exige do educador.
Helena - Que obras e que autores têm marcado o seu trajecto
enquanto
aluna/Professora? De que modo?
Ana Pires
- "Escola e Democracia" -
Dermeval Saviani; "Pontos e
Contrapontos" - Jussara Hoffmann; "Educação e Sociologia"
- Émile Durkheim;
"Vygostsky - Uma Perspectiva Histórico-Cultural da Educação"
- Teresa
Cristina Rego. Quanto à forma, fiquei profundamente marcada pelas teses
educacionais dos autores citados que ajudaram a construir a Professora Ana
Margarida Pires.
Helena - Ana Pires insiste em que não tem ambições de fama, de
ser uma
grande escritora. Porém, a resenha que fez ao texto 'Escola e
Democracia',
de Dermeval Saviani ,
obteve
inúmeros aplausos. A escrita de ensaios não a atrai em termos de futuro?
(www.mcanet.com.br/rpires/literario/saviani.htm)
Ana Pires
- Fico contente em ajudar de alguma
forma alguns colegas que
beneficiaram com a resenha de Dermeval Saviani, mas em momento algum
pensei
em me destacar como escritora e não esperava que a resenha publicada
fizesse
tanto sucesso. Na verdade, o sucesso é do Dermeval Saviani.
A fama não mexe comigo, e fico muito encabulada quando me cobrem de
elogios.
Fujo de eventos onde sinto que posso a vir ser o centro das atenções. Não
tenho pretensões de me destacar como escritora: sou educadora.
Helena - Que outros géneros literários se vê a praticar, ainda
que não
para já?
Ana Pires
- Pretendo antes de tudo conhecer a
coleção de clássicos da
Literatura em Língua Portuguesa composta por: Memórias Póstumas de Brás
Cubas, Triste Fim de Policarpo Quaresma, A Escrava Isaura, A Moreninha e
Memórias de um Sargento de Milícias. Procurarei conhecer outras
bibliografias referente a área de Psicopedagogia na qual estou fazendo
Pós-graduação.
Helena - Enquanto leitora, quais os géneros literários que
prefere ao
nível profissional e de lazer?
Ana Pires - Enquanto profissional as bibliografias mais usadas no
ramo da
educação e pedagogia tipo: Vygotsky, Piaget, Paulo Freire, Dermeval
Saviani,
Jussara Hoffmann, Emília Ferrero, Tereza Cristina Rego e outros grandes
teóricos da educação que precisamos estar sempre conhecendo. Entretanto
ainda assino Nova Escola - a Revista do Professor que leio, não só como
profissional, mas também como lazer. Além dessa, tenho assinatura de
Seleções do Reader´s Digest e estou lendo, agora, a coleção dos
maiores
clássicos da Literatura da Língua Portuguesa como: Dom Casmurro (Machado
de
Assis), Senhora (José de Alencar), O Cortiço (Aluisio de Azevedo), A
Ilustre
Casa de Ramires (Eça de Queirós) e O Guarani (José de Alencar).
Helena - Enquanto Professora, como sente a generalização da
Informática
nas escolas? Podia ser maior e melhor? Que alunos ainda se debatem com a
carência dos novos meios tecnológicos?
Ana Pires - Apesar do existente em termos de Informática na educação
brasileira ser um avanço, ainda é pouco diante da carência em nosso
gigantesco território. O acesso ao computador, principalmente como meio e
comunicação, ainda deixa muito a desejar. Os alunos do interior dos
estados
são os mais carentes e os menos beneficiados.
Helena - O que mudaria ao sistema de ensino no Brasil?
Ana Pires
- Acho que a mudança já está acontecendo. O estudo das tendências
pedagógicas culminadas com a "Crítico Social do Todo" está
trazendo bons
ares para a Educação. Esta situação de críticas e avaliações nos
trouxe
reflexões e benefícios. Por exemplo: a criação do FUNDEF (Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do
Magistério) que foi uma grande conquista brasileira, pois trouxe verbas
para
a Educação Fundamental. Só falta agora o nosso governo investir um
pouco
mais no Ensino Médio. Sobre estas mudanças, sugiro a leitura de
"Educação
Uma Nova Era" do Prof. Rpires, disponível no site do Literário com
o
endereço direto: http://ww.literario.com.br/nera1.htm.
Helena - A leitura e a escrita estão em mudança acelerada com a
chegada
da Internet e dos diálogos em chat, que reforçam uma escrita mais fonética,
imediata, ainda que com notório desrespeito às regras da língua. Como
comenta estas mudanças?
Ana Pires - Acho uma forma econômica de comunicar, mas me recuso a
participar dela. De início, estranhava e até mesmo não entendia algumas
abreviaturas feitas de forma completamente fora das regras gramaticais.
Vejo
esta nova forma de comunicar, usando o mínimo de letras possível, como
uma
maneira prática de economizar tempo e dinheiro, quando se trata de
navegar.
Porém, não consigo seguir este ritmo: ou escrevo as palavras com todas
as
letras existentes, ou faço abreviaturas como se deve, preferindo, em caso
contrário, não escrever. Devo estar sendo extrema ou até muito
exigente, mas
sou assim... embora respeite quem aja de outra forma.
Helena
- Por ser esposa do também Professor
Roberto Pires, assistiu de
perto à criação de 'O Literário' e ao seu crescimento. Pode contar um
pouco
do que foi esta experiência?
Ana Pires - A criação dos Informativos,
primeiro papel e depois na Net foram
feitos aqui em casa. Bem me recordo quando o Professor RPires criou o
projeto gráfico do Jornal papel e imprimiu o primeiro número. (Muita
tristeza me dá ver que continuam usando o mesmo projeto gráfico e que
retiraram no último número, saído em abril, a citação de que o mesmo
é de
autoria do professor RPires (Olha o (des)respeito à propriedade
intelectual!).
Mas falemos de coisas boas: Literário On-line, criado também por meu
marido
em janeiro de 2000, tem uma bandeira forte que é abrir espaço cultural
para
aqueles que não o conseguem na mídia tradicional. Para tal, conta com o
apoio de grandes escritores já famosos como: Helena de Sousa Freitas*,
Fernando Tanajura, Franco de Lagos, Raimundo Silva Cavalcante, Arimatéia
Filho, entre outros, que puxam com força, para cima, o escritor novato.
Isso
funciona, pois, os novatos de hoje, são os construtores da arte literária
de
amanhã.
Helena - Actualmente, qual a sua opinião sobre 'O Literário' -
meio de
divulgação cultural? Entende o Literário (Online e em papel) como um
meio
também pedagógico? Em que sentido?
Ana Pires
- O Site Literário On-line superou
suas próprias expectativas.
Cada mês, um novo escritor de língua lusófona vem nos agraciar com sua
presença. Isto é trabalho de todos nós que o construímos. Acho que
esta
equipe que hoje trabalha, sob a direção do RPires, aumentará e
progredirá,
levando junto com outros, a literatura da língua mais linda do mundo aos
seus destinos gloriosos.
A Cultura e a Educação são um triste caso de separação de irmãs gêmeas
no
Brasil. Uma precisa da outra e, graças a Deus, Literário On-line percebe
isto e já tem seu espaço pedagógico definido com sua página Educação,
que
tem sido muito visitada. A cultura divorciada da Educação fica aleijada.
Pelo contrário, quando associada a Educação, ambas crescem num "feed-back"
pleno.
Helena - Pode revelar um pouco sobre os projectos que os
Professores Ana
e Roberto Pires têm para o futuro de 'O Literário'?
Ana Pires
- O projeto que temos é, a nível
local a fundação da Academia
Camocinense de Letras, e a nível mundial a produção de Literário
On-Line
pelo menos em três outros idiomas.
Helena - Para finalizar, que palavras deixa aos seus leitores,
tantos
deles estudantes?
Ana Pires
- De início minhas palavras são
de agradecimento pelo fato de
poder doar-me a tantos estudantes - futuros professores -, colaborando na
construção de seus conhecimentos. Por fim, quero demonstrar minha
alegria
por cada e-mail que chega com agradecimentos e com uma proposta de
construção de amizades.
Nota de Helena de Sousa Freitas:
* Esta referência
directa à entrevistadora foi aqui mantida apenas por se
dever fidelidade jornalística às respostas de Ana Pires.