Entrevistado hoje:

Rozélia Scheifler Rasia

 

 

Helena de Sousa Freitas entrevista Rozélia Scheifler Rasia

 

 

 

Helena - O relacionamento entre o homem e a tecnologia é um dos seus pontos de interesse (ver http://www.literario.com.br/rozelia3.htm e  http://www.literario.com.br/rozelia5.htm). Como analisa o papel destes novos recursos quando colocados ao serviço da escrita?

 

Rozélia Scheifler Rasia - Atualmente o conceito e o papel da literatura estão sendo redimensionados pelas novas alternativas de ler e de escrever disponibilizadas pela tecnologia.

Neste novo contexto de ilimitadas possibilidades de divulgação, aumenta a responsabilidade em evitar o crescimento e os efeitos danosos da subliteratura.

Os escritores éticos, os criteriosos, os leitores e, principalmente, os editores exigentes e os produtores de sites com espaços voltados à divulgação literária devem estar mais atentos.

O diferencial entre o sucesso e o fracasso da literatura virtual depende da criteriosa escolha dos emitentes e dos destinatários dos textos lançados no mercado "online".

 

 

Helena - Muitos autores consideram o ecrã de computador muito frio para a escrita, continuando a preferir a máquina de escrever ou a caneta, ou seja, o contacto directo com a folha de papel. Qual a sua opinião?

 

Rozélia Scheifler Rasia - O autor não pode ser tolhido no exercício de escrever: deve usar a forma com a qual mais se identificar para imprimir sua mensagem aos leitores.

A folha de papel e a caneta sempre serão bons aliados, pois quando surge uma inspiradora idéia ou uma intenção, nem sempre o computador está próximo.

A máquina de escrever, entretanto, está desaparecendo, devido as suas limitações, que não respondem mais à qualidade, à comodidade e à rapidez que o mercado editorial exige.

 

Helena - Como professora, sente que os jovens mudaram os seus hábitos de leitura e escrita devido aos novos suportes multimédia, como o CD-ROM e a Internet?

 

Rozélia Scheifler Rasia - No Brasil, os sucessivos planos econômicos agravam o empobrecimento e causam a marginalização. Isso faz com que os jovens, precocemente, abandonem a Escola e ocupem-se exclusivamente com a sobrevivência.

Sabemos que poucos jovens têm acesso à Internet. Além disso, a cultura brasileira está alicerçada no hábito de assistir TV. A opção pela leitura "on line" está em último lugar na preferência dos jovens.

Para alterar esse índice seria preciso um projeto de formação de leitores como uma atividade conjunta entre a escola e a família, mas antes precisaríamos de uma política que priorizasse uma economia a pleno emprego e um planejamento para a qualidade de vida do cidadão.

A literatura, os costumes e as preferências da população são direcionadas pelas escolhas políticas de uma classe dominante que exercita o poder de excluir autores e leitores de seu maior prazer: realizar a utopia de transformar o real e o ficcional em felicidade.

 

 

Helena - Acredita que a Internet e os livros electrónicos podem fazer esquecer os livros tradicionais, de papel?

 

Rozélia Scheifler Rasia - Os autores e as editoras descobriram um novo veículo, mais ágil e mais acessível para divulgar sua produção literária: o universo virtual. Este, porém, não vai tirar espaço do livro impresso. As duas formas de comunicação entre escritores e leitores conviverão pacificamente como alternativas de informação e de lazer.

 

Helena - Sabemos que é organizadora e editora de colectâneas literárias na Associação ALPAS XXI. O que a motiva para essa tarefa?

 

Rozélia Scheifler Rasia - A principal motivação é a busca de espaços para a divulgação de textos literários e científicos de escritores, que como eu, estão fora do mercado editorial elitizado.

Outro motivo é meu senso de coletividade, pois acredito que na sociedade pós-moderna não há espaço para egocentrismo mas sim para o pluralismo de objetivos e de idéias, mesmo que divergentes.

 

 

Helena- As colectâneas da ALPAS XXI são financiadas pelos autores em regime de cooperativa. Porém, este modelo tem gerado controvérsia: muitos escritores, leitores e críticos literários consideram que o facto dos autores estarem a pagar para serem publicados leva a que seja editados muitos trabalhos sem qualidade literária. O que responde aos que defensores desta posição?

 

Rozélia Scheifler Rasia - Até os Best-Sellers se confrontam com os prós e os contras. Só quem alcança relativo sucesso consegue a proeza de dividir opiniões. Se a ALPAS XXI conseguir, então esta é uma ótima resposta ao nosso trabalho em prol de um projeto coletivo e não elitista que nesses quase quatro anos de existência conquistou autores de diversos países.

A ALPAS XXI, através de uma comissão julgadora, realiza uma prévia e criteriosa seleção dos textos a serem editados. Os autores são comunicados sobre os resultados e sobre as normas da publicação. Sabe-se que, no Brasil, grandes nomes da literatura começaram a publicar seus trabalhos em coletâneas, já que as editoras não apostam em nomes desconhecidos.

 

 

Helena - Será que esta forma de publicar não leva as editoras a demitirem-se da sua função de lançar novos autores no mercado, pagando os devidos direitos de autor?

 

Rozélia Scheifler Rasia - O Direito Autoral é um de nossos suportes para a proteção da qualidade editorial. Os autores na forma cooperativada, dividem os custos de edição e recebem o número de livros equivalente a sua quota-parte. Então, o autor pode vender sua parte e receber os direitos, ou pode fazer dos livros a vitrine para divulgação de sua obra. A ALPAS XXI se preocupa mais com a divulgação do que com a comercialização. Os autores que fazem parte do nosso projeto crescem conosco e cada um torna-se um amigo, um partilhador de nosso idealismo.

 

 

Helena - Sendo professora, editora e autora, nunca sentiu estas ocupações atropelarem-se no seu quotidiano?

Rozélia Scheifler Rasia - Sim, meu cotidiano é repleto de atividades, mas sei dividir meu tempo. A família vem em primeiro lugar, depois vem a atividade de aprender e ensinar. Minha atividade editorial é compartilhada com uma equipe competente na qual delego decisões e responsabilidades.

Como autora, no momento estou produzindo artigos científicos - baseados em pesquisa bibliográfica e de campo - para jornais de universidades e revistas especializadas. Gosto de exercer essa multiplicidade de atribuições com as quais me identifico. Só faço o que me proporcione alegria e satisfação pessoal.

 

Helena - Ainda se recorda do seu primeiro trabalho literário? Qual o género do mesmo? Hoje voltaria a escrevê-lo? O que tem mudado na sua escrita ao longo dos anos?

 

Rozélia Scheifler Rasia - Comecei a escrever muito cedo, quando a introspecção era uma de minhas características mais marcantes.

Meu processo produtivo pode dividir-se em fases, na adolescência me dediquei a escrever romances, que ainda continuam inéditos, pois não refletem mais o meu modo de encarar o amor e a vida.

Após o término da Faculdade de Letras e de Economia, escrevi coleções de livros para a pré-escola com historinhas e exercícios de psicomitricidade.

Depois de terminar o Curso de Pós-Graduação em Fundamentos Teórico-Metodológicos de Ensino passei a escrever artigos científicos e didáticos.

Só escrevo poesias quando a felicidade se ausenta da minha vida.

O que mudou na minha escrita? O processo de amadurecimento e a cientificidade que desenvolvi através do processo de pesquisa e que tornou-me crítica, aguçou minha sensibilidade e criatividade.

Poderia voltar a escrever da forma descompromissada, idealista e intimista de meus tempos de estudante, mas prefiro deter-me na temática social, na globalização e no inter-relacionamento entre as pessoas e a tecnologia da comunicação.

 

Helena- Actualmente, escreve em locais específicos ou em qualquer lugar, ao sabor da inspiração? E o que a inspira agora para escrever?

Rozélia Scheifler Rasia - Já escrevi ao sabor da inspiração, nos tempos de descompromissada paixão pelo exercício de escrever. Atualmente, devido às muitas atividades escrevo profissionalmente, isto é, textos didáticos ou científicos. Raramente escrevo por prazer, mas sonho com o dia em que poderei voltar a escrever livremente, sobre o tema mais antigo e, ainda, contemporâneo: o amor.

 

Helena - A sua escrita tem sido marcada por alguns autores? Quais e a que nível a influência destes se faz sentir nos seus textos?

 

Rozélia Scheifler Rasia - Muitos autores marcaram minha trajetória de produção de textos; na adolescência, Gibran, Saint-Exupery, Erico Verissimo; mais tarde Platão, Sócrates, Sartre, Hegel, Agnes Heller e  Marx. Creio que hoje estes dois últimos autores estão presentes em meus textos, pois o cotidiano é uma fonte inesgotável de inspiração.

A atual fragmentação social e as desigualdades impostas pelo neoliberalismo não nos permitem ficarmos isentos no ato de idealizar um mundo melhor, mesmo que seja no papel.

Creio que a utopia de um mundo ideal e igualitário inicia na palavra e se concretiza no universo em que todos transitamos na busca da felicidade coletiva.

 

 

Helena - Qual a sua opinião pessoal sobre 'O Literário' - em papel e online?

 

Rozélia Scheifler Rasia - O literário é um excelente espaço para a intercomunicação entre escritores e leitores. A versão on line atinge uma segmento diferenciado da população brasileira, isto é, a elite econômica do país, mas também aqueles que estão no mercado de trabalho e fazem do computador um instrumento de ascensão pessoal e profissional.

O jornal em papel é mais democrático, pois está presente em todos os lugares, em todas as camadas sociais. Saliento que ambos são indispensáveis ao processo de multirecursos literários que o público exige para o lazer, a informação e a produção de novos saberes.

 

 

Helena- Para finalizar, gostaria de deixar alguma mensagem para os seus leitores?

 

Rozélia Scheifler Rasia - Vou repetir as palavras de Erico Verssimo: "Nunca deixe de sonhar, se não a vida se torna um pássaro de asa quebrada, que não pode voar."

 


               Página de
Rozélia Scheifler em O Literário

 

Voltar

  

 

Visitantes