Entrevistado hoje:

José Luis Peixoto

 

 

 

Helena de Sousa Freitas entrevista:

José Luis Peixoto.

 

 

 

 

Helena - O que significa para si a edição de ‘A Criança em Ruínas’, título de poesia, quando começa a ser visto como um prosador de sucesso?  

 

José Luís Peixoto - A poesia foi um género que nunca abandonei. Os primeiros textos que escrevi, com intenções literárias, foram escritos em verso e, até hoje, nunca deixei de escrever poesia. Além disso, continuo a ser um leitor compulsivo de poesia. Penso mesmo que a influência dessa leitura está bem presente na minha prosa.

Como tal, ‘A Criança em Ruínas’ é um livro bastante importante para mim, pois contém poemas que foram e são muito importantes para mim.  

 

 

 

Helena - No livro ‘Morreste-me’ expressa a dor pela morte do seu pai. Transportar esse sentimento de perda íntima para a obra literária aliviou-o, fê-lo compreender melhor o que sentia ou implicou um repisar do trajecto doloroso?  

 

José Luís Peixoto - Para se escrever sobre algo que se conhece ou que se viveu é fundamental ‘ordenar’ esse sentimento, tentar compreendê-lo tanto quanto possível. Creio que esse processo fez com que eu entendesse melhor essa perda e, como tal, ajudou-me bastante a viver com ela.  

 

 

 

Helena - Foi dado recentemente à estampa, numa colectânea da editora ‘101 Noites’, um texto da sua autoria intitulado ‘A Menina e a Mãe’, que denota uma grande percepção do mundo feminino, das suas fragilidades e tragédias. Em que medida a figura maternal tem influenciado a sua vida e a sua escrita, sobretudo após a morte do seu pai?

 

 

José Luís Peixoto - Freud foi muitíssimo perspicaz ao perceber a importância que a mãe, tal como o pai, têm na formação da personalidade de cada indivíduo. No meu caso, tenho a sorte de ter uma mãe que sempre me deu um exemplo de coragem e de perseverança. Até no ponto de vista literário, creio que a sua influência foi fundamental. A riqueza e as particularidades do seu imaginário e do seu vocabulário (com muitos regionalismos e expressões do Alto Alentejo) é algo que fará sempre parte de mim. Como vem escrito nessa antologia, citando Balzac: ‘O coração de uma mãe é como um abismo no fundo do qual encontramos sempre perdão.’ Assim é o coração da minha mãe.

 

 

 

 

Helena - Os galardões literários são por vezes olhados com alguma ironia no meio. Qual a sua posição sobre isto, tendo em conta que o seu romance ‘Nenhum Olhar’ aumentou o nível de vendas depois de ter arrebatado o Prémio José Saramago 2001?

 

 

José Luís Peixoto - Normalmente, os galardões literários são olhados com ironia apenas por aqueles que não os recebem. No meu caso, foi algo com que não estava minimamente a contar. Ainda para mais tratando-se de um prémio onde o universo em causa era o de todos os países de expressão portuguesa. Fiquei, obviamente, muito feliz, sobretudo porque senti que o prémio foi um motivo de orgulho para a minha família e amigos.

 

 

 

 

Helena - ‘Nenhum Olhar’ foi terminado já em Cabo Verde, onde, como revelou certa vez, tentou exilar-se de si próprio. O tempo que permaneceu no país influenciou a conclusão da obra em algum aspecto?

 

 

José Luís Peixoto - Estou convencido de que a influência terá sido pequena, uma vez que o livro já estava todo definido quando cheguei a Cabo Verde. Todos os aspectos estavam já plenamente decididos. No entanto, nesse ano que passei em Cabo Verde encontrei bastantes semelhanças com o Alentejo (tratado em ‘Nenhum Olhar’), sobretudo no que diz respeito à generosidade das pessoas.

 

 

 

 

Helena - Depois de ‘Nenhum Olhar’ ser lançado pela ‘Temas e Debates’ passou a ter uma agente. Sente-se agora mais livre das actividades relacionadas com a divulgação literária ou já antes não lhes dedicava muito tempo?

 

 

José Luís Peixoto - As únicas actividades de divulgação literária em que participo são aquelas para que me convidam e só mesmo se me for impossível estar presente é que recuso encontros públicos com leitores. Esses encontros em bibliotecas, escolas, feiras do livro, livrarias, etc, são actividades que faço com muita frequência.

O trabalho da agente literária é totalmente desligado dessa vertente, pois diz respeito à negociação de direitos sobre os meus livros com editoras de outros países.

 

 

 

Helena - O facto de ser este ano bolseiro do Ministério da Cultura e de ter sido considerado pelo Nobel José Saramago como ‘o continuador dos escritores’ não condiciona o que está a escrever? Não se sente pressionado?

 

 

José Luís Peixoto - Tento não deixar que a pressão não me afecte. Para continuar a escrever como até aqui, para tentar dar o meu melhor, no momento em que escrevo tenho de estar completamente livre das expectativas que possam existir. Penso que tenho conseguido fazê-lo. Não tenho qualquer tipo de problema a esse nível. As inseguranças e as certezas que tenho em relação àquilo que escrevo são as mesmas que sempre tive.

 

 

 

 

Helena - No âmbito da bolsa literária está a trabalhar num novo romance. Já pode falar um pouco sobre ele? Em que é que a nova narrativa se aproxima e distancia do estilo e da história de ‘Nenhum Olhar’?

 

 

José Luís Peixoto - Neste momento, por superstição prefiro não falar ainda desse romance. No entanto, penso que terá necessariamente pontos de contacto e de distanciamento de ‘Nenhum Olhar’. Os primeiros reflectem o facto de serem escritos pela mesma pessoa. Os segundos reflectem as possíveis evoluções que tenham surgido na minha forma de ver a escrita.

 

 

 

 

Helena - Trabalha com método, com objectivos pré-estabelecidos e num processo contínuo. Na sua opinião, o criador ideal depende em ‘1% da inspiração e em 99% da transpiração’?  

 

José Luís Peixoto - Na literatura tem, naturalmente, de existir espontaneidade. Sem esta característica dificilmente existirá arte. No meu caso existem dois processos de escrita algo diferentes: o da poesia e o da prosa. Se no caso da poesia a espontaneidade é uma característica central, no caso da prosa a ‘transpiração’, o trabalho, é fundamental.

 

 

 

 

Helena - Apesar da lógica e organização com que trabalha ao nível técnico, expressa um ponto de vista romântico da literatura ao defender que os bons romances acrescentam sempre algo à vida do leitor. Estes dois lados do escritor - o racional e o emotivo - convivem pacificamente na mesma pessoa?

 

 

José Luís Peixoto - Sim. A harmonia entre ambos conduz à literatura que, neste momento, me interessa escrever.

 

 

 

Helena - Decidir-se a abandonar a profissão de professor de inglês pela escrita em exclusivo foi uma atitude corajosa. Nunca teme ter-se precipitado, vir a arrepender-se?

 

 

José Luís Peixoto - Se as coisas correram mal, aquilo que poderei fazer é voltar a procurar uma profissão mais segura. Mas, até lá, não penso muito nisso e aproveito, saboreio cada minuto. Sempre acreditei que o pior arrependimento é aquele que nasce das coisas que não se fizeram.

 

 

 

 

Helena - Depois de deixar o ensino escreveu teatro, cinema, letras para músicas e artigos para a imprensa. Este exercer do texto nos seus vários géneros prende-se com a sobrevivência financeira? 

 

 

José Luís Peixoto - Sim. Aquilo que sempre quis fazer de facto foi escrever apenas poesia e ficção em prosa. No entanto, escrevi textos de vária ordem que, além de terem sido desafios interessantíssimos, me deram um prazer muito grande e foram muito formadores ao nível da escrita de poesia e de ficção.

 

 

 

 

Helena - Tem afirmado várias vezes que a escrita não o mudou, que continua a ser a mesma pessoa apesar das vendas, das traduções, dos prémios. Esse equilíbrio e tranquilidade são difíceis de manter quando o apontam como um dos mais promissores escritores da actualidade?

 

 

José Luís Peixoto - Como disse, tento não deixar que isso me influencie. Tento fazer o melhor que posso, que é o mesmo que tenho feito até aqui.

 

 

 

 

Helena - Com apenas quatro anos fazia birras para que as suas irmãs lhe lessem histórias. Por motivos sócio-laborais diversos, nas famílias de hoje há menos tempo para ler contos às crianças. Como pai e como autor, sente que se está assim a perder uma forma de cativar desde cedo os mais novos para o prazer da leitura?

 

 

José Luís Peixoto - Não sou assim tão pessimista. Actualmente, as crianças têm vários meios que competem com os livros: televisão, Internet, etc. Ainda assim, continuam a existir leitores entre os mais jovens. Veja-se o fenómeno ‘Harry Potter’...

 

 

 

 

Helena - A partir do momento em que começou a ler tornou-se sócio da biblioteca itinerante que, uma vez por mês, visitava a vila de Galveias, distrito de Portalegre, onde residia. Face a esta experiência, como vê o acesso ao livro nas zonas rurais, no interior português?

 

 

José Luís Peixoto - As bibliotecas itinerantes eram a única possibilidade que muitas pessoas tinham de ler. Foi uma perda muito grande. Apesar de existir um esforço muito positivo no sentido de construir uma rede nacional de bibliotecas públicas, o fim das bibliotecas itinerantes é uma lacuna que ainda não foi colmatada.

 

 

 

 

Helena - Conhece o Literário Online (www.literario.com.br)? Que opinião tem do mesmo?

 

 

José Luís Peixoto - Acabei agora mesmo de fazer a minha primeira visita. Por aquilo que vi, tenho a certeza de que vou regressar muitas mais vezes. Parece-me ser uma forma séria de utilizar a Internet para promover o acesso à literatura.

 

 

 

 

Helena - Em jeito de despedida, que mensagem deixa aos seus leitores?

 

 

José Luís Peixoto - Os meus votos sinceros de felicidades. Desejo boas leituras e paz para todos.

 

 

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