Helena
de Sousa Freitas entrevista:
António
Manuel Venda
Helena
- Em que circunstâncias começou a escrever? Se sentiu cedo esse impulso,
porque escolheu estudar numa área tão distinta como a Gestão de Empresas?
António Manuel Venda -
Comecei a escrever um pouco mais a sério por volta dos dezoito anos. Antes
disso, o que fazia era muito pouco, apenas ficava a roer-me de inveja dos
livros que lia, desde a banda desenhada até aos Cinco, aos Salgaris e depois,
já perto de começar a escrever, aos livros dos autores que me agarram para
sempre para a literatura, García Márquez, Saramago, Camilo José Cela,
Vargas Llosa, Eduardo Mendoza...
Quanto à área profissional
diferente, não sei... uma área que não fosse diferente só poderia ser a de
Letras, mas aí deparei-me sempre com muitas imposições, que estiveram perto
de me afastar completamente dos livros. A sorte é que, fora das aulas, eu ia
confirmando que havia muito mais para ler do que aquilo a que me obrigavam.
Helena
- Publicou diversos textos no DN Jovem,
então em edição em papel e um dos mais prestigiados suplementos de colaboração
literária juvenil. Actualmente o DN
Jovem existe apenas on-line. Na
sua opinião, esta mudança alterou a sua popularidade entre os jovens
autores?
António Manuel Venda - Creio
que sim. O DN Jovem, na prática, acabou depois de deixar de ser um suplemento
do jornal, em formato de papel. E com o afastamento do seu criador, o
jornalista Manuel Dias, que ainda se manteve algum tempo na edição on-line,
muito pior.
Helena - Depois
de cinco livros editados pela via tradicional, em papel, optou por colocar 'Os
Papagaios da Roda Gigante - Uma Aventura de Zeca Zângão', a sua Sexta obra,
apenas on-line. Por questões
relativas a editoras ou apenas pela aventura da diferença? Neste formato, o
livro não alcançará menos leitores?
António
Manuel Venda - O livro não foi editado porque nos dois casos em que se
colocou essa hipótese (integrando uma colecção juvenil), foi considerado
sem interesse, mau mesmo.
No
que diz respeito ao número de leitores, não sei, mas talvez sim, talvez
tenha menos; de qualquer forma, está ao alcance de toda a gente, apenas com
uns cliques e o custo de uma chamada telefónica local.
Helena
- Qual tem sido a reacção dos leitores aos 'Contos Inéditos' que, de dois
em dois meses, são distribuídos nas caixas de e-mail
dos assinantes?
António Manuel Venda - Até
aqui não me queixo. Tem havido movimentação à volta deles, comentários,
continuações (inclusive uma assinante do Brasil fez uma segunda parte de um
dos contos, situando a acção do outro lado do Atlântico), protestos (por
causa de serem histórias que por vezes não acabam - um amigo até me sugeriu
que as reunisse num livro chamado The
Neverending Stories...).
Mas o volume, quando se atingir as
doze, vai chamar-se A Chegada Tardia do
Macaco, a quinta que foi enviada e que significa muito para mim. Já
agora, essa história foi trabalhada por cerca de quarenta alunos de uma
escola do Porto, cuja professora é subscritora dos contos; quando os visitei,
prepararam-me uma das maiores surpresas da minha vida, boa, muito boa,
inesquecível. Há também uma escola do Algarve onde uma turma está a
trabalhar sobre os contos.
Helena
- Sentiu alguma influência, ao nível da popularidade e venda dos seus
livros, desde que passou a ter um site
na Internet?
António Manuel Venda -
Não muito, mas sem dúvida que há um maior contacto com os leitores.
Acabei por conhecer muitas pessoas que lêem os meus livros e ouvir o que
pensam deles, até o porquê de os lerem, que é uma coisa que ainda me faz
uma certa confusão.
Helena
- Ter uma página on-line tem levado
até si leitores de fora de Portugal. Além deste, que outros aspectos
positivos vê na Internet enquanto
forma de divulgação cultural?
António Manuel Venda - A Internet é um espaço sem fronteiras. As possibilidades são
infinitas. E é a maior biblioteca do mundo, para citar o José Eduardo
Agualusa.
Helena
- Dos seus cinco livros, algum está, ou estará em breve, à venda fora de
Portugal? Traduzido ou na língua original?
António Manuel Venda - Não.
Nem traduzido, nem na língua original. Pelo menos até ao fim de 2001 não
havia nada marcado.
Helena
- Alguma vez pensou em abandonar a sua profissão para se dedicar a tempo
inteiro à escrita?
António Manuel Venda -
Pensar, muitas vezes, mas isso vai depender das vendas dos livros, que
neste momento não são suficientes.
Helena
- Se tivesse oportunidade de rescrever algum dos seus livros, qual escolhia? E
a que alterações procedia?
António Manuel Venda -
Alterar, muito pouco, enfim, uma palavra ou outra, uma expressão, coisas sem
grande importância. Rescrever, não sei, mas o que mais gostei de escrever
foi o Até Acabar Com o Diabo.
Talvez o escrevesse outra vez.
Helena
- De entre os diversos prémios literários que já soma no currículo, tem
uma estima especial por algum? Por qual e porquê?
António Manuel Venda -
Gostei do Prémio Literário Cidade de Almada, em cuja entrega fui tratado de
uma maneira extraordinária pelas pessoas da Câmara
Municipal de Almada. Os outros tiveram sempre umas peripécias um pouco
parvas. O da Comissão dos
Descobrimentos acabaram por não mo entregar e até me sugeriram que
escrevesse uma carta a recusá-lo; na entrega do Inasset
fiquei à porta porque o organizador não me deixou entrar a tempo, pensando
que eu era um penetra ou algo assim, o Literatura
e Desenvolvimento teve um escândalo colado à entrega da área de ficção
(a minha), com uns poetas a invadirem o palco e a protestarem por não haver
prémios para a poesia. Por fim, o Abel
Salazar, obtido ainda enquanto estudante universitário, previa a edição
em livro e depois não deu em nada.
Helena
- Depois da sucessão de êxitos de vendas da chamada 'literatura pop',
será que ainda se pode dizer que os portugueses lêem pouco?
António Manuel Venda - Claro
que sim. Continuam a ler pouco. Nem os jornais se lêem ao nível de outros países
da Europa. Mas tudo isto tem a ver com o nosso atraso estrutural, com um poder
de compra que nos envergonha junto dos nossos parceiros europeus e com um
custo de vida maior (os jornais e os livros são um bom exemplo – cá são
muito mais caros).
E depois, em França, em Inglaterra,
na Alemanha, por exemplo, lê-se nos transportes públicos; cá, quem é que
pode ler nos transportes, nos apertos dos comboios ou dos autocarros? Depois,
entre quem lê, resta saber os que percebem o que lêem; têm aparecido uns
estudos a dizer que um em cada dois portugueses não entende o que lê. É
claro que no caso da literatura pop
os números não serão tão trágicos, talvez aí um em cada quatro não
entenda, um pouco como acontece com as revistas cor de rosa.
Helena
- Se pudesse mudar algo na literatura portuguesa, o que faria? Reduzia o preço
dos livros? Dava mais destaque a alguns autores obscuros? Apostava em força
na promoção do livro? Dinamizava as bibliotecas?
António Manuel Venda - Não
mudava nada. Acho que a mudança essencial tem a ver com o país como um todo,
em termos de um desenvolvimento muito mais sólido que possa integrar sectores
como a educação, a saúde, a justiça, a administração pública, a própria
economia como um todo. É uma coisa para gerações, não para fazer com uma
ou outra medida pontual. Mas eu não acredito muito, porque mudanças
estruturais dependem de governantes com um perfil muito diferente daqueles
que, infelizmente, nos têm saído ao caminho.
Helena
- Autores como José Saramago e Eugénio de Andrade assinaram recentemente o
seu livro de visitas. Como se sentiu após ler as palavras de incentivo para
que continue este 'ofício da escrita' que ficaram registradas na página?
António Manuel Venda - Penso
que as mensagens deles surgiram na sequência de uma divulgação que foi
feita do site. Fiquei surpreendido,
até por surgirem muito próximo uma da outra, mas fiquei contente. De
qualquer forma, eu fico sempre contente a cada mensagem nova que chega.
Helena
- Tem inúmeras crónicas publicadas em jornais e rádios portugueses.
Sabendo-se que muitos escritores se deixam tentar pelo jornalismo, nunca se
sentiu seduzido pelas notícias, entrevistas e reportagens do jornalismo 'puro
e duro'?
António Manuel Venda - Não.
As crónicas, enfim, faço-as porque me pedem órgãos de comunicação social
da minha terra, e por elas nada recebo. Como acabo por fazer muitas, às vezes
dou por mim um pouco cansado. Acho que se fizesse menos ia regressar ao grande
prazer que já senti na escrita de crónicas.
Helena
- Divulga a sua obra através da Internet,
em newsletters que circulam por
e-mail e até em simples cartões de apresentação. Dado que muitas pessoas
ainda têm uma visão sacralizada do livro e não o entendem como um produto
cultural carente de publicidade, já teve reacções negativas por parte de
leitores?
António Manuel Venda - Não.
As informações do site seguem
apenas para quem se inscreve para recebê-las junto com os contos inéditos.
Depois, alguma divulgação que faça é para listas que me fornecem; isso
acaba por acontecer apenas uma vez, visto que não mantenho essas listas.
Helena
- Conhece o Literário Online (www.literario.com.br)?
Que opinião tem dos seus conteúdos culturais, esforço de divulgação e
implantação na Net?
António Manuel Venda - Agora
é que passei a conhecer e certamente irei ser uma visita frequente. As
primeiras impressões são bem positivas.
Helena
- Pode deixar aqui uma mensagem aos seus leitores.
António Manuel Venda - Os
leitores... Espero que o que leram tenha constituído uma experiência
positiva, que passem pelo site de
vez em quando e que vão dizendo alguma coisa. Como não são muitos, de
certeza que eu irei conseguindo responder a todos.
Visite
o site do autor!
http://www.antoniomanuelvenda.com
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