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Helena
de Sousa Freitas entrevista:
MAGRIÇA,
A Notívaga Noturna!
Helena
- Porquê a escolha de uma identidade mistério? Será um trunfo discreto para
cativar visitantes para o site? E que problemas têm surgido por Magriça, a
Notívaga Noturna não 'dar a cara'?
Magriça
-
É sim, é um trunfo discreto e explico porquê. É que as pessoas foram ‘coisificadas’,
viraram números. E ninguém olha pra você, a menos que tenha um nome famoso
ou espatafúrdio. Dou um exemplo. Você vai ao pronto-socorro. A moça que a
atende, depois de você ficar na fila, claro:
- Pronto... (o único pronto mesmo do
pronto-socorro)
-
É que estou com dor de...
(sem olhar para você, a moça)
- Tem RG?
- Carteirinha do Convênio?
- Já esteve aqui? Quando? (uai, ela não tem
computador?)
- CPF?
(demora fazendo a ficha, batucando o computador.
Ainda não olhou pra você).
- Agora assina aqui, senta ali e espera.
(ela também não confere a sua assinatura, não vê
se você é a pessoa da foto do RG, etc, não OLHA pra você. O importante não
é atender, é obter os números necessários para preencher a ficha e colocar
você na fila número 2).
Ao sair, alguém já lhe perguntou:
- Está
melhor?
- Foi bem
atendida? Está satisfeita com nosso serviço?
Nada. Você assinou a ficha, o hospital vai
faturar em cima do convênio... E pronto.
A alienação é total. Dia desses, depois de
passar pelo PS, me encaminharam para a fisioterapia, pois a mão direita ficou
paralisada e eu não conseguia fazer nada com ela, a não ser carregar debaixo
do braço. Entrei na fila 3. Aí me pediram os documentos tudo de novo.
- Motivo?
-
Mão paralisada conforme laudo médico.... aqui oh...
A indefectível ficha número 2 foi preenchida,
com as "n" sessões de fisioterapia que deveria fazer.
- Por favor, uma assinatura em cada linha!
-
Mas minha senhora, minha mão direita está praticamente paralisada - e eu não
sou canhoto.
- Isto é problema seu. Eu preciso das
assinaturas.
Quase pedi uma carimbeira, pois eu ia lambuzar a
ficha cheia de dedões, como se estivesse numa DP. Me contive ao lembrar que não
conferem nada e assinei um monte de garranchos esquizóides, parecia desenho
de criança imitando coisa escrita. Sem me olhar, nem conferir o que quer que
fosse:
- Obrigada. Pode voltar na data e horário
marcados.
Voltando ao assunto - e tentando responder à
pergunta - se na nossa vida real já estamos numerificados e coisificados,
imagine então na NET, onde somos literalmente virtuais, NICK NAMES.
Naturalmente nos convertemos em personagens de nós mesmos e o interesse em
saber quem de fato você é só aparece quando se estabelece um vínculo
AFETIVO. Aí sim, as pessoas querem trocar fotos e, se possível, se
encontrarem.
O motivo de escolher nomes esdrúxulos e pouco
usuais como Notívaga e Magriça é que essa seria a única chance de ser
encontrada entre BILHÕES de páginas de Internet. Diariamente, entram no ar
de 5 a 10 milhões de páginas novas. Se meu NICK NAME fosse José da Silva,
ficaria perdida entre milhões de páginas indexadas nos mecanismos de
pesquisa da WEB. A combinação de Magriça e Notívaga GARANTEM que qualquer
um me ache na Internet, mesmo que tenha perdido a minha URL. Foi uma estratégia
inicial que funcionou muito bem. Hoje, quase quatro anos depois, se você
digitar POESIAS (no plural), verá que meu site é o PRIMEIRO da lista, no
Google, no Radar e em muitos outros. Claro que - como computador não aprende
gramática na fábrica e engenheiro de software em geral é analfabeto, só
sabe escrever linha de código - se você digitar POESIA (no singular) não
vai me achar. Vai achar o Jornal de POESIA, do Soares Feitosa. Então, se você
for singular, acha o site do FEITOSA. Se você for PLURAL, acha o da MAGRIÇA.
Para mim está ótimo.
Tenho poucos problemas com usuários novos por
causa do nome. Uns poucos acham ridículo, mas a maioria acha um grande barato
e curte. Um problema que eu tenho - as vezes - é como me registrar se não
existo? Eu queria entrar na REBRA, que é só para escritoras, mas eu teria de
dar os documentos da personagem, que ainda não tenho (dia desses encomendo um
na Praça da República, RG com CPF e número da carteira de cinesíforo,
foto, tudo bonitinho, até número da DP de expedição).
Helena
- Dado o clima de suspeição ainda reinante em torno da Internet, ser um
webmaster com identidade fictícia não inibirá alguns autores de publicarem
no site? Algum autor já levantou este problema? Que garantias lhe ofereceu?
Magriça
-
Sem dúvida, esse nome esquizóide hoje preocupa mais as pessoas que anos atrás,
quando tudo começou. Mas não consigo avaliar quantas pessoas não entram no
Site e se registram por esse motivo. O que recebo, sim, são muitas cartas de
pessoas que querem saber que garantia elas têm de proteger os seus escritos,
se forem publicados no Site. Não tenho um "disclaimer", mas
respondo a todos o que é a absoluta verdade: não
há qualquer garantia! Tudo que está publicado na Internet pode ser copiado,
absolutamente tudo, inclusive de sites protegidos por senhas. Se a pessoa
tem medo de publicar, não deve ter medo de publicar no meu site e sim em
qualquer lugar da Internet. O que deve fazer é proteger seus direitos
autorais antes. Nas DICAS do site, encaminho a pessoa para o registro. Veja
parte das DICAS:
· Alguém pode copiar meus textos?
Sim. Tudo o que está na Internet pode
ser copiado. Não há proteção alguma. Se você tem receio, registre antes
suas obras. É um processo moroso, caro, mas é a única proteção possível
aos seus direitos autorais.
· Onde
posso registrar minhas obras?
Na Biblioteca da Fundação Nacional. Veja no site <http://www.bn.br/>
. No menu, clique em SERVIÇOS, opção DIREITOS AUTORAIS.
O
Escritório de Direitos Autorais, que funciona ininterruptamente desde 1898,
é o órgão da Fundação Biblioteca Nacional
responsável pelo registro de obras intelectuais, e tem, por
finalidade, dar ao autor segurança quanto ao direito sobre sua obra, de
acordo com a Lei nº 9.610/98 <http://www.bn.br/servicos/atendimento/eda/lei9610.htm>.
· O
registro
permite o reconhecimento da autoria, especifica direitos morais e patrimoniais
e estabelece prazos de proteção tanto para o titular quanto para seus
sucessores. Além de imperar nas questões referentes à cessão dos direitos,
contribui para a preservação da memória nacional,
uma das missões da Fundação Biblioteca
Nacional,
através da Lei do Depósito Legal <http://www.bn.br/diretrizes/biblioteca/deplegal/deplegal.htm>.
Infelizmente, a despeito da Internet existir há
alguns anos e da Biblioteca da Fundação Nacional estar na Internet, ela
funciona na WEB como funcionava em 1898, quando foi fundada. Tudo é papel, cópia
de documento autenticada, o pagamento é no Banco Físico (deve ser ainda o BB,
que já existia há mais de cem anos). Este privilégio não é da BN: é das
.COM em geral, que são .SEM inteligência para fazerem as coisas diferentes
do que se fazia nos tijolos nesta era de Internet. Por isso tanta empresa .COM
.QUEBRA!
Exemplifico (mandem pra eles, consultoria
de graça):
·
separem o atual (arcaico) processo em 2 processos diferentes: um é
registro de AUTOR, outro é registro de OBRA;
·
tudo pode ser feito pela Internet, começando pelo registro de AUTOR.
Depois mando tudo para eles: cópia do CPF, RG, certidão de nascimento, DNA
da vovó, etc, tudo autenticado (aí sim pelo correio físico). Enquanto eu
for eu, e não morrer, não preciso mandar novamente meus documentos provando
que eu sou eu. Parece simples e óbvio, não parece? Pronto, agora tenho minha
carteirinha de autor. Com algum número, por favor, senão não vale;
·
cada vez que eu escrevo minha obra nova (livro, conto, poesia, o diabo),
eu mando o texto pela Internet (junto com o meu número). Pago o registro pela
Internet (com o meu dinheiro). Como se fosse um pedido de registro de patente.
Eles publicam no site tudo o que é requerido. Vence - no caso de textos
iguais - o de maior anterioridade.
Parece simples, não é? E é. Mas por isso não
é feito. Vai tirar o trabalho de muito burocrata e carimbador de repartição.
Se isso fosse feito, todos sites ligados a
literatura poderiam ter uma interface padrão com a BN. Ao publicar um texto
no meu Site, por exemplo, os mesmos dados seriam enviados para a BN. O autor
pagaria uma pequena taxa - por mês, por ano, por obra, sei lá - e garantiria
seus direitos autorais. E os sites ligados a literatura passariam a prestar um
ótimo serviço. Acabaria essa baderna que é hoje a Internet. Há vários
textos meus literalmente copiados em outros sites, sem qualquer identificação
de minha autoria. Como sou uma personagem de ficção, como vou registrar
minhas obras? Como vou garantir meus direitos?
Helena
- Sendo vista por muitos cibernautas como uma criatura de espírito livre e
cheia de iniciativa, poderia revelar-nos quais são os seus maiores sonhos?
Magriça
-
Esta resposta tem diferentes planos e perspectivas. Dum modo mais geral, o que
eu mais queria mesmo é impossível: viver num mundo sem canalhas, corruptos e
opressores. Pelo andar da carruagem, nem eu, nem filhos nem netos terão essa
oportunidade. Por isso, procuro fazer a minha parte e, como Magriça, ajudo a
quem eu posso. Sou partidária de revoluções feitas a partir dos gestos
pessoais e não macro-ações coletivas. Minha sogra diz que “quem anda em
bando é animal”.
No lado profissional, gostaria de poder me dedicar
totalmente, por exemplo, a um projeto de Internet que me desse sustentação e
independência financeira , como o Site da Magriça ou o Site ATENDA (Shopping
by-email), ainda em fase de testes.
O problema básico é o tamanho do mercado
brasileiro, que é pelo menos 100 vezes MENOR que o mercado americano. Se eu
produzir um livro aqui e puder vender 1.000 unidades, posso ter certeza que O
MESMO ESFORÇO HUMANO, a mesma ENERGIA VITAL colocada no trabalho produziria
uma venda de 100 MIL unidades nos USA. Se eu ganhasse um dólar em cada livro,
no Brasil passaria fome. Nos USA, sobraria dinheiro. Poderia viver com um
livro por ano. Aqui, se fizer 4 por mês, não conseguiria sobreviver. E nem
com os 1300 escritores do site eu conseguiria fazer 4 livros por mês... Já o
site ATENDA, ele é um serviço grátis para consumidores compradores e vai
ser tarifado para revendedores e lojas. Mas demorará uns 2 anos até a coisa
pegar...
É importante notar que as jogadas financeiras dos
especuladores estragaram parte da Internet, criando para os usuários a errônea
noção de que tudo na WEB deve ser grátis. Grátis por quê? Há gente
trabalhando, há espaço físico, há eletricidade, há máquinas, despesas de
telecomunicações etc. Quem paga essa conta? No Site da Magriça é tudo grátis
- e há pessoas que escrevem reclamando dos serviços e exigindo isso ou
aquilo (em geral coisas que elas mesmas podem fazer no próprio site, há
ferramentas para isso). Como o Site tem muitos usuários, mais de 5.000, todos
imaginam que aqui há uma equipe trabalhando, financiada não sei por qual
SANTO banco. As pessoas já não se dão
conta que este é um site pessoal meu, que faço isso por hobby, para
incentivar as pessoas a escreverem mais e a se tornarem mais conhecidas. E
pago tudo do meu bolso. E faço o trabalho nas madrugadas e fins de semana,
pois trabalho fora num cargo executivo que me consome 12 a 17 horas por dia.
Quando viajo e fico fora uns dias, é uma desgraça... centenas de e-mails a
responder... Por isso o sonho de poder, um dia, me dedicar só ao Site. Mas
isso exigiria a cobrança de um fee, mensal ou anual - e as pessoas ainda não
estão dispostas a pagar por nenhum serviço da WEB. Infelizmente. Mas o
sonho, o sonho existe sim...
Helena
- Das sugestões sobre a sua verdadeira identidade que já lhe deixaram no
site, qual se aproxima mais da realidade?
Magriça
-
Um leitor já acertou na mosca de quem eu sou e - obviamente - escrevi para
ele e retirei a resposta do ar.
No Site, instigo as pessoas a descobrirem que é a
Magriça - e há respostas muito engraçadas. Selecionei várias das respostas
para o primeiro livro de Seleção de Poetas Notívagos, que deve ser
publicado com os resultados do Concurso Von Breysky 2001. No entanto, a
resposta com a qual mais identifico é uma que afirma que "A Notívaga é
um pouco de todos nós...". É bem isso.
O interessante - e que pouca gente sabe - é que há
várias "camadas" de relacionamento. A pessoa visita o site, gosta,
não gosta, não sei. Não há nenhum vínculo. Um dia dá um estalo, resolve
se inscrever. É claro que envio uma resposta automática, mas personalizada,
sempre. Eu começo a monitorar: se o sujeito está com dificuldade, se está
operando de forma errônea... De repente, mando uma cartinha pessoal de apoio,
dando dicas. Se me escrevem, respondo, mesmo que demore uma ou duas semanas,
conforme a prioridade do assunto.
As pessoas vão descobrindo que não é uma máquina
respondendo - e sim uma pessoa. Aumenta o vínculo. Depois de um tempo, começo
a fazer follow-up, mando cartas de incentivo, de aniversário pessoal, de
aniversário de cadastramento no site etc. As pessoas começam a escrever
mais, o vínculo aumenta. Começam a me contar casos pessoais, seus problemas
na vida. Algumas pedem conselhos - e perguntam o que acho disso, o que acho
daquilo. Cria-se o vínculo da amizade e chego a me sentir uma espécie de
consultora existencial-terapêutica.
Já houve casos graves, como o de uma garota
(menor) do RJ, que queria se suicidar, devido ao tratamento recebido pelos
pais. Através do ICQ conversei muito com ela, acabei me identificando e
acabei lhe dando uma nova perspectiva de vida. Graças a Deus, ela desistiu da
idéia. Há escritores que - enquanto pessoas - estavam desesperançados da
vida, após separações traumáticas ou perda de entes muito queridos. Através
do incentivo à escrita e novos amigos feitos no Site, essas pessoas me
escrevem felizes, dizendo terem se reencontrado na vida e mostrando eterna
gratidão.
Então, a minha conclusão (bem como a deles) é
que NÃO IMPORTA QUEM SOU. Importa o QUE EU FAÇO. Não fosse essa perspectiva
de ajudar as pessoas, através da literatura, não sei se teria energia vital
suficiente para manter sozinha um site desta dimensão. Tento fazer do Site da
Magriça, mais do que um site de literatura, um site de RELACIONAMENTO. Porque
percebo que, no fundo, as pessoas estão muito sós. E cansadas de serem
tratadas como mais um número.
Helena
- Em que circunstâncias nasceu na Magriça o apego pela palavra escrita?
Magriça
-
Na verdade, meu pai era repórter e gostava de ler - e comprava muitos livros,
fascículos e até gibis. Em casa tinha de tudo e certamente mais de 2000
livros. Eu lia muito, desde pequena. Na adolescência chegava a ler um livro
por dia nas férias. Mas estudei num colegial técnico, que me tomava o dia
inteiro, casei e comecei a trabalhar muito cedo, passando a estudar a noite.
Então comecei a escrever um pouco aqui, um pouco ali, até em guardanapo de
bar, nos poucos intervalos da vida. No começo da carreira, dava manutenção
em máquinas IBM, num grande banco paulista. Eram máquinas de digitação de
cheques, em disquete, uma novidade
na época (27 anos atrás). Estudava o quarto ano técnico de dia, ia para a
USP fazer filosofia a noite e de madrugada ia para o banco, dar manutenção
nas máquinas (ah, você descobriu como comecei a ser uma pessoa notívaga,
porque dormir de verdade, só nos fins de semana!). Então, de duas uma: ou
contava estórias do Oscar Wilde para digitadoras (que choravam,
choravam...) ou ficava digitando nas máquinas IBM para testá-las, depois da
manutenção. Aí eu escrevia poemas, contos, etc.... Era fascinante digitar
num teclado e ver o texto impresso numa IMPRESSORA - porque o máximo que eu
conhecia era máquina de escrever elétrica, que eu tinha em casa e que era
uma tecnologia nova, fantástica. Aí eu lia o texto, corrigia, imprimia de
novo. Que maravilha, não precisava usar mais o corretor de tinta, não
esperava mais secar...Pra falar a verdade, é difícil dizer o que me fascina
mais até hoje: a palavra escrita ou a tecnologia. Enfim... gosto muito de
escrever sim. Dá para ver pelo tamanho das respostas.
Helena
- Para não se dar a conhecer, seria capaz de editar um livro sob pseudônimo
ou, fazendo-o sob o nome verdadeiro, não o divulgar no site para que os
ciberleitores não o relacionassem consigo?
Magriça
-
A primeira sim, a segunda não. Somos personalidades completamente diferentes
(não ria). Eu publicaria um livro com as poesias da Notívaga, se elas
tivessem qualidade suficiente. Mas a grande maioria foi escrita por encomenda
e só têm significado para quem as encomendou. Não acredito que
interessassem ao público em geral. Só se eu colocasse o contexto (o pedido)
e a poesia-resposta. Infelizmente, devido a um maldito vírus, eu perdi todos
os pedidos antigos, que deram origem às poesias. Hoje o site é diferente,
registra os pedidos e mostra as respostas - mas eu praticamente não escrevo
mais nada, nem há tempo para isso.
Já
sob o nome verdadeiro eu publicaria outras coisas. Tenho uma série
"biográfica" que apelidei de "minha vida", onde conto
"minha vida" a cada década (há poesias, crônicas, pequenas histórias).
Já há material para uns 4 livros (décadas de 60, 70, 80, 90). A Magriça só
aparece no final da década de 90, em 99.
Helena
- Como lhe ocorreu criar um site de 'pedidos e achados', ou seja, onde uma
pessoa pode colocar os seus escritos e outra solicitar um poema ou conto com
características específicas?
Magriça
-
Para responder a essa questão, preciso contar um pouco da história do Site.
Antes de começar o Site da Magriça, no início
de 1999, a primeira idéia foi colocar na WEB umas 30 poesias minhas (da
criatura e não da personagem), escritas desde 1994, e que estavam publicadas
em FÓRUNS de BBS (Bulletim Board Systems). Fiz meu primeiro site, que ficou tão
chato quanto 90% dos sites de poesia ainda o são: um exercício de Narciso.
Eu, feliz, passava o endereço pessoal do Site para alguns poucos conhecidos,
achando o máximo. Como na verdade não passava de mais um site chato e estático,
não havia como crescer a audiência e nem incorporar coisas novas, a menos
que eu escrevesse cada vez mais. E eu, que não sou poeta, nem iria escrever
tanto e muito menos atrair a atenção de pessoas ligadas à poesia e à
literatura.
Resolvi ir passeando de site em site ligado a
poesia ou literatura, colecionando o e-mail do responsável e dos seus
leitores. Um dia me deparei com o Jornal de Poesia, do Soares Feitosa, até
hoje o trabalho mais sério, ligado a Poesia, de tudo que vi na Internet no
mundo. Ali colecionei mais algumas centenas de e-mails, pois o objetivo do
Feitosa era divulgar os autores consagrados - sendo ele mesmo um autor de
primeiro quilate. Minhas poesias pareciam puro lixo urbano perto das dele e
dos autores de seu site, sempre muito selecionados e que - na ocasião - já
chegavam a quase 2.000 (do passado e contemporâneos).
Meu
paradigma mudou. Passei a sonhar em um dia ter um site tão importante quanto
o dele, mas incentivando novos autores. Das celebridades (vivas e idas) Soares
Feitosa já cuidava com excelência e mestria - e eu não me atreveria a fazer
um copião do site dele. Mas faria algo para as novas gerações, dos filhos
ou dos netos.
Foi aí que decidi adotar uma identidade secreta,
para criar um ar de mistério no site vindouro. Criar uma personagem,
intrigante, insinuante, instigante, irreverente e agridoce - que aos poucos
fosse se tornando conhecida. Nasceu a Notívaga Noturna. E nasceu o nome do
Site, que virou Site da Magriça - Poesias e Escritos, para dar a idéia de
uma figura esguia, mirrada, frágil - mas sempre ligada à literatura.
Além disso, o site precisaria prestar um serviço
que tivesse utilidade para as pessoas. Só assim elas o frequentariam e o
divulgariam, permitindo a criação de uma comunidade de usuários e - mais
que isso - de amigos. Como já disse e repito sempre, WEB é sinônimo de
interatividade e, por isso, sites estáticos, catálogos de empresas, produtos
ou pessoas, não se desenvolvem. O primeiro serviço a que me propus foi
publicar as poesias de terceiros, revisando-as antes, melhorando onde era possível.
Usando os e-mails colecionados durante um bom
tempo, fiz a divulgação do primeiro serviço. Vieram algumas pessoas. Logo a
seguir, inovei criando um serviço de encomendas - eu escrevia sob
encomenda para as pessoas, qualquer coisa, sem cobrar nada. Descobri então
a enorme dificuldade que as pessoas têm para expressar seus sentimentos por
escrito. Para escrever, eu precisava "incorporar" o problema de quem
me encomendava, ficar sob sua pele, me inspirar, escrever e depois enviar
(tanto ao solicitante quanto à pessoa a quem ela destinava o texto pedido).
Esse serviço "pegou" - e as encomendas
não cessavam. Praticamente eu escrevia um texto ou poema por dia, tarefa
quase impossível, devido ao meu trabalho executivo, estafante, restando
poucas horas de sono e os fins de semana para programar o site e colocar a
correspondência em dia. Ao mesmo tempo, reprogramei o Site em formato de
Banco de Dados, em três línguas, permitindo que os próprios usuários
publicassem seus trabalhos, pois eu não tinha tempo para editorar páginas,
quer seja dos trabalhos que chegavam cada vez com maior profusão, quer seja
das coisas que eu mesma escrevia para os solicitantes.
Neste trabalho de escrever sob encomenda fui de
tudo: homossexual, amante, lésbica, gay, professor, pai, mãe, avô, filho,
paraninfo de turma, crítico de situação social, traí o marido, traí a
mulher, participei de triângulos amorosos, corneei o melhor amigo e etc. Um
dia esgotei-me: as situações se repetiam. Onde buscar mais inspiração? Os
pedidos cresciam, se acumulavam - e eu não dava mais vazão a eles. Foi mais
ou menos nessa época, início de 2000, que conheci pelo site o Von Breysky -
que participava ativamente no site. Cada vez ele escrevia mais e mais,
chegando a me ultrapassar em número de poesias no Site, tornando-se
rapidamente o maior usuário. Aí Von Breysky propôs um concurso para
incentivar o crescimento do Site, oferecendo um prêmio de US$ 500 a quem mais
colocasse poesias no Site até 31 de dezembro de 2000. Topei, divulguei - e o
Site começou a crescer de forma muito rápida, atraindo cada vez mais
interessados, não só do Brasil, como também de outros países.
Em função disso, no final do segundo semestre de
2.000 o Site começou a sofrer ataques de puristas, que queriam menos
quantidade e mais qualidade. Algumas cartas muito agressivas, que quase me
fizeram desistir de tudo e fechar o site para sempre. Para completar, veio
aquele maldito vírus que destruiu minha máquina - e perdi toda correspondência
passada. Boa parte dos pedidos que ainda não tinha atendido desapareceram.
Recuperei o que foi possível, cerca de 100 pedidos em aberto, e trabalhei
numa nova versão do Site, em português somente. Nesta versão, os próprios
leitores-escritores poderiam responder às encomendas de outros usuários.
Enviei um e-mail aos escritores contando a novidade e pedindo ajuda. Em 48
horas os 100 pedidos haviam sido respondidos. Sucesso total. A seção de
desafios raramente têm 2 a 3 pedidos acumulados: os escritores
"consomem" os pedidos com voracidade. As vezes eu coloco um desafio
novo (encomenda) só para a seção não ficar vazia!
Helena
- Será que escrever poesia ou conto 'a pedido de' - à priori com a
condicionante do tema e com o vínculo forçado a um determinado episódio e
destinatário - não perturba a inspiração de quem cria?
Magriça
-
Ponha perturba nisso! Por outro lado, é um tremendo exercício. Quando jovem,
já estudei teatro. Se você é realmente um bom ator, interpreta bem qualquer
personagem. Sem querer, inventei o teatro
da literatura - e fui a cobaia de mim mesma. Escrever para terceiros é
bem mais complexo que fazer “baixar um santo”. É ser uma personagem
transmutada em palavras, de forma articulada e contextualizada. Recomendo este
exercício a todos estudantes de literatura. Os professores poderiam pegar as
centenas de desafios que já foram colocados no Site e repassarem a seus
alunos. Nem precisariam se desgastar criando as tarefas... E os alunos
poderiam lá publicar novas respostas a antigos desafios. Why not?
Helena
- Excluindo a aura de mistério que o envolve e a possibilidade de funcionar
como 'fornecedor de textos', existe algo mais que diferencie o site da Magriça
de tantos outros sobre escrita existentes na Net a cargo de pessoas
aparentemente identificadas?
Magriça
-
Sim: o que os leitores pedem eu faço, mais cedo ou mais tarde. A despeito das
limitações de programação e principalmente de design, eu tenho mudado
continuamente o site, sempre incorporando as sugestões dos leitores. O Site
é hoje fruto duma concepção coletiva - e não resultado de idéias geniais
minhas. E sempre tenho uma lista de idéias novas, porque sempre os leitores
sugerem mais. Hoje há serviços de listas de amigos, que permitem aos autores
a divulgação de seus textos para seu grupo de referência, com um mínimo de
esforço. Hoje cada autor tem seu endereço pessoal, onde só são enxergados
os seus trabalhos, sem misturar com os demais 27.000 textos do site. Há todo
um serviço de estatísticas, mostrando quem é quem no Site. Toda a
correspondência com os leitores e autores é personalizada - e me comunico
com eles em média uma vez por mês. Não existe um site - que eu saiba - que
trate as pessoas dessa forma individualizada. O Site só não está melhor
porque não posso implementar mais funções, devido ao provedor, que está
reclamando. Preciso mudar de plataforma tecnológica, indo de ACCESS para SQL
e com muito mais espaço em disco. Só o arquivo de textos tem 60 Megabytes! A
estrutura da base de dados está preparada para novos serviços: fotos dos
autores, música personalizada, biografias, comentários dos usuários por
poesia. Mas isto virá na quarta geração do site, em março, quando ele
voltará a ser trilingue.
Helena
- Poderia traçar o percurso do site desde que surgiu na Net? Percalços,
aventuras e desventuras, alegrias, novidades...
Magriça
-
Vamos lá. Parte da história eu já contei. As principais desventuras são
com os provedores, pois o site fica instalado em servidores compartilhados com
outros usuários. Como o crescimento é constante, chega uma hora em que o
provedor começa a reclamar que estou usando demais. Chegaram, na LOCAWEB, a
me desligar por isso. Fiquei uma semana fora do ar até conseguir transportar
para outro provedor. Agora está nos USA. Estava feliz... mas diminuíram o
tempo de processamento de cada página, para caber mais usuários em cada máquina.
Estão rentabilizando a operação deles. O resultado prático: tiraram
algumas páginas minhas do ar e várias, se você tenta rodar, as vezes rodam,
as vezes não rodam. Depende do instante. Ou seja, o serviço virou uma droga
de repente. E lá vou eu ter que mudar de casa novamente. Isto é o que mais
irrita, a mim e aos usuários.
Outra maldição na Internet são os IGs e BOLs e
HOTMAILS da vida. Tudo muito bacana: dão Internet grátis, e-mail grátis. Ao
tentar me corresponder com os usuários em geral dá: caixa-postal lotada,
servidor fora do ar, etc. Em suma, perco o contato com os usuários e até
autores. Eles mandam coisas que nunca chegam, porque o serviço é de péssima
qualidade e de baixa fiabilidade. Minha recomendação aos leitores e usuários:
para coisas mais sérias, jamais use e-mails grátis. Tenha o e-mail de um
provedor pago, sem limitação de tamanho de caixa postal.
As alegrias? Bem as alegrias estão em centenas de
e-mails com pequenos e grandes elogios. Na satisfação dos usuários. Na
crescente popularização do Site e no reconhecimento da seriedade de sua
proposta. O que me intriga é que a mídia oficial nunca deu a menor importância
ao site. Porém o tempo é senhor da razão e um dia acredito que darão
alguma atenção.
As
novidades? Parte já contei acima. Talvez eu implemente uma seção de MPB,
mas diferente de tudo que existe na NET. Já programei e testei, mas acho que
ainda não é hora. Também criei um serviço chamado DOBEMDOMAL, para as
pessoas falarem BEM ou MAL sobre certos temas - mas não sei se vou colocar no
ar este ano. Na parte de literatura, estou testando um serviço novo, para
construção coletiva de textos, também de forma diferente de tudo que vi na
WEB até hoje. Na verdade, a minha prioridade é colocar os serviços que os
leitores e autores sugerem. Depois disso vêm minhas próprias idéias. Coisa
nova, de minha autoria, só se sobrar tempo. E esse é meu recurso mais
escasso hoje em dia.
Helena
- Que planos tem a Magriça para o seu próprio futuro e para o futuro do site?
Magriça
-
Se pudesse, como já disse, me dedicaria unicamente ao Site. Já há massa crítica
de usuários para isso. Abandonaria a carreira executiva. Porque “Do Mundo
Nada Se Leva” (referência explícita a Capra)... Estou em busca de uma
instituição que financie, seja o Magriça, seja o ATENDA. Uma possibilidade
é começar a publicar as obras dos autores novos e fazer disso um business.
Para isso, preciso de uma aliança com uma forte editora, com ampla capacidade
de distribuição - que é a chave do sucesso num país em que o mercado é
restrito. Se algum leitor aí quiser dar uma boa dica, pode me mandar!
Helena
- Como surgiu a idéia do Concurso Von Breysky 2001? Que avaliação faz desta
iniciativa, ao nível da participação, qualidade dos trabalhos a concurso,
etc?
Magriça
-
Foi a partir do concurso Von Breysky 2000, que não sei se foi muito divulgado
fora do site. Já não me lembro bem.
No começo de 2001, eu e Von Breysky começamos a
pré-desenhar o concurso de 2001, tomando como base as críticas ao concurso
anterior, buscando elevar a qualidade das publicações e - simultaneamente -
o número de participantes. Resolvemos juntar antigos participantes do Site,
que haviam mandado uma série de críticas construtivas ao concurso anterior e
eram extremamente colaboradores. Criamos uma comissão com Paulo Camelo,
Luciano Moraes e, posteriormente, com Nandinha Guimarães. Criamos juntos o
concurso 2001 e o regulamento - tudo pela Internet, de forma interativa.
Eu jamais vi ou conversei pessoalmente, nem ao
menos por telefone, com qualquer pessoa da comissão organizadora e julgadora
do Prêmio Von Breysky 2001: nem o Von Breysky (que agora oferecia US$1.000
para patrocinar o concurso), nem o Paulo Camelo (sei que é de Recife), nem o
Luciano Moraes (sei que é de Araras - SP) e muito menos Nandinha Guimarães
(jamais consegui uma imagem dela, o que sei é que é de Fortaleza). E
tampouco eles, com exceção do Von Breysky, conhece a minha verdadeira
identidade. Inclusive o VB, como o chamo "intimamente", prefere me
tratar por Magriça e ponto. Parece-me que se sente mais à vontade com a
personagem do que com a própria criatura...
O sucesso do concurso Von Breysky 2001 foi
absoluto: mais de 2000 poesias inscritas, mais de 340 participantes pré-aprovados
na fase preliminar. Muitos poetas de qualidade. Impressionante. Todo o
julgamento das poesias foi também feito via Internet, nada em papel, tudo em
banco de dados. Um juiz não sabia o que o outro estava fazendo, não sabia de
quem eram as poesias que estavam julgando - e eu controlava e monitorizava
tudo aqui de São Paulo - SP, orientando e resolvendo problemas técnicos.
Quando chegava uma poesia, eu depurava ao máximo: tirava títulos
redundantes, tirava identificações pessoais no corpo da poesia etc. Um
trabalho insano, pois as pessoas não lêem os regulamentos e enviam as coisas
de qualquer jeito. O Site fechou o ano de 2001 com quase 5000 participantes,
1300 deles escritores - e mais de 25.000 textos publicados. Comparados aos 50
textos iniciais do site, em 1999, representam um crescimento de 500 vezes. Um
absurdo - só possível devido à Internet.
Helena
- No caso particular da Magriça, de que género literário se sente mais próxima?
Da poesia, do conto, do romance?
Magriça
-
Por incrível que pareça... hoje " prefiro" crônicas, croniquetas.
Depois poesias. Depois contos. Depois romances. Isso está certamente
relacionado ao tempo " livre " que hoje disponho. Em férias, na
praia, nada como um bom romance.
Helena
- Na sua opinião, de entre os autores brasileiros, quais mudaram o panorama
da Literatura no país (e, eventualmente, fora dele) no séc. XX?
Magriça
-
Não tenho a menor pretensão em afirmar algo desse tipo, pois não conheço
Literatura com tanta profundidade. Para mim, todos contribuem, em maior ou
menor grau, inclusive "poetas" como Caetano Veloso, Gil. Minha paixão,
no Brasil: Clarice Lispector. Fora do Brasil, Fernando Pessoa.
Helena
- Se pudesse ditar as regras, que alterações fazia no actual cenário literário
brasileiro? Investia em bibliotecas? Apostava mais em novos autores? Tornava
os livros mais baratos?
Magriça
-
A questão não é, isoladamente, da Literatura. É da educação em geral.
Impostos. Escolas não deveriam pagar impostos. E tudo que as pessoas
gastassem em educação deveria ser dedutível do Imposto de Renda. Inclusive
contribuições para a montagem de escolas, bibliotecas, centros culturais.
Você pode descontar do IR doações para os Sanatorinhos, por exemplo, mas não
pode deduzir 1 centavo se ajudou a construir uma sala de aula. A única coisa
que o país precisa é investir pesadamente em educação
continuada para todos. Escolas equipadas com Internet (linhas e máquinas).
Professores com crédito subsidiado para compra de equipamentos em 3 anos ou
mais. Precisamos modernizar o parque educacional brasileiro com urgência:
pessoas e instalações. Livros não deveriam, igualmente, ter impostos. Que
se sobretaxe bebidas, cigarros, revistas pornográficas - ótimo. Num país em
que o salário mínimo é menos de 200 reais, como pode um bom livro custar 30
reais?
Um ótimo livro não deveria custar mais que 10
reais. Portanto, não acho que o governo vá fazer grande coisa com políticas
e verbas centralizadas: eu criaria incentivos para que as empresas e pessoas
investissem de forma brutal em educação, de forma descentralizada e
regionalizada, a partir de diretrizes bem estabelecidas. Só assim estaremos
de fato nos preparando para a "nova" economia deste milênio - e
poderemos ousar manter a competitividade num mundo que, queiramos ou gostemos
ou não, está globalizado e em constante transformação.
Helena
- Creio que conhece o Literário On-line. O que pensa do conteúdo e papel
cultural e pedagógico deste site?
Magriça
-
Conheço sim, não com total profundidade, confesso-me. Pessoalmente, e sem
qualquer badalação, gosto muito das entrevistas que você faz. As perguntas
são muito boas, variam, mostram que você estudou o entrevistado ANTES de
fazer a entrevista. * No mais, considero o
trabalho do amigo Roberto Pires um trabalho sério, de qualidade, que
incorpora parte da cultura regional do Ceará com outras culturas, quer seja
do SUL MARAVILHA (Henfil), que seja de PORTUGAL. Um trabalho magnífico. O que
posso dizer é que na Internet todo trabalho sério cresce e aparece, como é
o caso do Literário. O resto... o resto desaparece.
Helena
- Que mensagem deixa para os visitantes do seu site, para os que acompanham o
seu trabalho e paixão pela palavra escrita?
Magriça
- “Escrevam
e deixem escrever". Ninguém é bom o suficiente para podar a
criatividade alheia (no Brasil temos críticos demais, produtores de menos). E
aproveito o gancho para agradecer o carinho com que todos me tratam, mesmo
quando dou umas broncas, principalmente na Lista do Site (lá no Yahoo).
Agradeço também ao Roberto Pires e a você a
oportunidade desta entrevista. Espero que os leitores do Literário On-Line
gostem. É a primeira vez que respondo seriamente a uma entrevista e dou
informações que jamais forneci a quem quer que seja. Mas o Literário
On-Line merece este respeito e meu amigo RPires mais ainda. Vocês todos
merecem este “furo”!
* Declarações apenas mantidas por se dever fidelidade às
respostas da entrevistada.
Site
da Magriça
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