Entrevistada hoje:

Magriça, Notívaga Noturna

Ilustração da Magriça: Luciano Moraes ("Menina") http://www.lucianomoraes.cjb.net

 

 

Helena de Sousa Freitas entrevista:

 

 

MAGRIÇA, A Notívaga Noturna!

 

 

 

Helena - Porquê a escolha de uma identidade mistério? Será um trunfo discreto para cativar visitantes para o site? E que problemas têm surgido por Magriça, a Notívaga Noturna não 'dar a cara'?

 

Magriça - É sim, é um trunfo discreto e explico porquê. É que as pessoas foram ‘coisificadas’, viraram números. E ninguém olha pra você, a menos que tenha um nome famoso ou espatafúrdio. Dou um exemplo. Você vai ao pronto-socorro. A moça que a atende, depois de você ficar na fila, claro:

- Pronto... (o único pronto mesmo do pronto-socorro)

- É que estou com dor de...

(sem olhar para você, a moça)

- Tem RG?

- Carteirinha do Convênio?

- Já esteve aqui? Quando? (uai, ela não tem computador?)

- CPF?

(demora fazendo a ficha, batucando o computador. Ainda não olhou pra você).

- Agora assina aqui, senta ali e espera.

(ela também não confere a sua assinatura, não vê se você é a pessoa da foto do RG, etc, não OLHA pra você. O importante não é atender, é obter os números necessários para preencher a ficha e colocar você na fila número 2).

Ao sair, alguém já lhe perguntou:

- Está melhor?

- Foi bem atendida? Está satisfeita com nosso serviço?

Nada. Você assinou a ficha, o hospital vai faturar em cima do convênio... E pronto.

A alienação é total. Dia desses, depois de passar pelo PS, me encaminharam para a fisioterapia, pois a mão direita ficou paralisada e eu não conseguia fazer nada com ela, a não ser carregar debaixo do braço. Entrei na fila 3. Aí me pediram os documentos tudo de novo.

- Motivo?

- Mão paralisada conforme laudo médico.... aqui oh...

A indefectível ficha número 2 foi preenchida, com as "n" sessões de fisioterapia que deveria fazer.

- Por favor, uma assinatura em cada linha!

- Mas minha senhora, minha mão direita está praticamente paralisada - e eu não sou canhoto.

- Isto é problema seu. Eu preciso das assinaturas.

Quase pedi uma carimbeira, pois eu ia lambuzar a ficha cheia de dedões, como se estivesse numa DP. Me contive ao lembrar que não conferem nada e assinei um monte de garranchos esquizóides, parecia desenho de criança imitando coisa escrita. Sem me olhar, nem conferir o que quer que fosse:

- Obrigada. Pode voltar na data e horário marcados.

Voltando ao assunto - e tentando responder à pergunta - se na nossa vida real já estamos numerificados e coisificados, imagine então na NET, onde somos literalmente virtuais, NICK NAMES. Naturalmente nos convertemos em personagens de nós mesmos e o interesse em saber quem de fato você é só aparece quando se estabelece um vínculo AFETIVO. Aí sim, as pessoas querem trocar fotos e, se possível, se encontrarem.

O motivo de escolher nomes esdrúxulos e pouco usuais como Notívaga e Magriça é que essa seria a única chance de ser encontrada entre BILHÕES de páginas de Internet. Diariamente, entram no ar de 5 a 10 milhões de páginas novas. Se meu NICK NAME fosse José da Silva, ficaria perdida entre milhões de páginas indexadas nos mecanismos de pesquisa da WEB. A combinação de Magriça e Notívaga GARANTEM que qualquer um me ache na Internet, mesmo que tenha perdido a minha URL. Foi uma estratégia inicial que funcionou muito bem. Hoje, quase quatro anos depois, se você digitar POESIAS (no plural), verá que meu site é o PRIMEIRO da lista, no Google, no Radar e em muitos outros. Claro que - como computador não aprende gramática na fábrica e engenheiro de software em geral é analfabeto, só sabe escrever linha de código - se você digitar POESIA (no singular) não vai me achar. Vai achar o Jornal de POESIA, do Soares Feitosa. Então, se você for singular, acha o site do FEITOSA. Se você for PLURAL, acha o da MAGRIÇA. Para mim está ótimo.

Tenho poucos problemas com usuários novos por causa do nome. Uns poucos acham ridículo, mas a maioria acha um grande barato e curte. Um problema que eu tenho - as vezes - é como me registrar se não existo? Eu queria entrar na REBRA, que é só para escritoras, mas eu teria de dar os documentos da personagem, que ainda não tenho (dia desses encomendo um na Praça da República, RG com CPF e número da carteira de cinesíforo, foto, tudo bonitinho, até número da DP de expedição).

 

 

Helena - Dado o clima de suspeição ainda reinante em torno da Internet, ser um webmaster com identidade fictícia não inibirá alguns autores de publicarem no site? Algum autor já levantou este problema? Que garantias lhe ofereceu?

 

Magriça - Sem dúvida, esse nome esquizóide hoje preocupa mais as pessoas que anos atrás, quando tudo começou. Mas não consigo avaliar quantas pessoas não entram no Site e se registram por esse motivo. O que recebo, sim, são muitas cartas de pessoas que querem saber que garantia elas têm de proteger os seus escritos, se forem publicados no Site. Não tenho um "disclaimer", mas respondo a todos o que é a absoluta verdade: não há qualquer garantia! Tudo que está publicado na Internet pode ser copiado, absolutamente tudo, inclusive de sites protegidos por senhas. Se a pessoa tem medo de publicar, não deve ter medo de publicar no meu site e sim em qualquer lugar da Internet. O que deve fazer é proteger seus direitos autorais antes. Nas DICAS do site, encaminho a pessoa para o registro. Veja parte das DICAS:

 

· Alguém pode copiar meus textos?
Sim. Tudo o que está na Internet pode ser copiado. Não há proteção alguma. Se você tem receio, registre antes suas obras. É um processo moroso, caro, mas é a única proteção possível aos seus direitos autorais.

· Onde posso registrar minhas obras?
Na Biblioteca da Fundação Nacional. Veja no site
<http://www.bn.br/> . No menu, clique em SERVIÇOS, opção DIREITOS AUTORAIS.

O Escritório de Direitos Autorais, que funciona ininterruptamente desde 1898, é o órgão da Fundação Biblioteca
Nacional responsável pelo registro de obras intelectuais, e tem, por finalidade, dar ao autor segurança quanto ao direito sobre sua obra, de acordo com a Lei nº 9.610/98 <http://www.bn.br/servicos/atendimento/eda/lei9610.htm>.

· O registro permite o reconhecimento da autoria, especifica direitos morais e patrimoniais e estabelece prazos de proteção tanto para o titular quanto para seus sucessores. Além de imperar nas questões referentes à cessão dos direitos, contribui para a preservação da memória nacional, uma das missões da Fundação Biblioteca Nacional, através da Lei do Depósito Legal <http://www.bn.br/diretrizes/biblioteca/deplegal/deplegal.htm>.

 

Infelizmente, a despeito da Internet existir há alguns anos e da Biblioteca da Fundação Nacional estar na Internet, ela funciona na WEB como funcionava em 1898, quando foi fundada. Tudo é papel, cópia de documento autenticada, o pagamento é no Banco Físico (deve ser ainda o BB, que já existia há mais de cem anos). Este privilégio não é da BN: é das .COM em geral, que são .SEM inteligência para fazerem as coisas diferentes do que se fazia nos tijolos nesta era de Internet. Por isso tanta empresa .COM .QUEBRA!

Exemplifico (mandem pra eles, consultoria de graça):

·        separem o atual (arcaico) processo em 2 processos diferentes: um é registro de AUTOR, outro é registro de OBRA;

·        tudo pode ser feito pela Internet, começando pelo registro de AUTOR. Depois mando tudo para eles: cópia do CPF, RG, certidão de nascimento, DNA da vovó, etc, tudo autenticado (aí sim pelo correio físico). Enquanto eu for eu, e não morrer, não preciso mandar novamente meus documentos provando que eu sou eu. Parece simples e óbvio, não parece? Pronto, agora tenho minha carteirinha de autor. Com algum número, por favor, senão não vale;

·        cada vez que eu escrevo minha obra nova (livro, conto, poesia, o diabo), eu mando o texto pela Internet (junto com o meu número). Pago o registro pela Internet (com o meu dinheiro). Como se fosse um pedido de registro de patente. Eles publicam no site tudo o que é requerido. Vence - no caso de textos iguais - o de maior anterioridade.

Parece simples, não é? E é. Mas por isso não é feito. Vai tirar o trabalho de muito burocrata e carimbador de repartição.

Se isso fosse feito, todos sites ligados a literatura poderiam ter uma interface padrão com a BN. Ao publicar um texto no meu Site, por exemplo, os mesmos dados seriam enviados para a BN. O autor pagaria uma pequena taxa - por mês, por ano, por obra, sei lá - e garantiria seus direitos autorais. E os sites ligados a literatura passariam a prestar um ótimo serviço. Acabaria essa baderna que é hoje a Internet. Há vários textos meus literalmente copiados em outros sites, sem qualquer identificação de minha autoria. Como sou uma personagem de ficção, como vou registrar minhas obras? Como vou garantir meus direitos?

 

 

Helena - Sendo vista por muitos cibernautas como uma criatura de espírito livre e cheia de iniciativa, poderia revelar-nos quais são os seus maiores sonhos?

 

Magriça - Esta resposta tem diferentes planos e perspectivas. Dum modo mais geral, o que eu mais queria mesmo é impossível: viver num mundo sem canalhas, corruptos e opressores. Pelo andar da carruagem, nem eu, nem filhos nem netos terão essa oportunidade. Por isso, procuro fazer a minha parte e, como Magriça, ajudo a quem eu posso. Sou partidária de revoluções feitas a partir dos gestos pessoais e não macro-ações coletivas. Minha sogra diz que “quem anda em bando é animal”.

No lado profissional, gostaria de poder me dedicar totalmente, por exemplo, a um projeto de Internet que me desse sustentação e independência financeira , como o Site da Magriça ou o Site ATENDA (Shopping by-email), ainda em fase de testes.

O problema básico é o tamanho do mercado brasileiro, que é pelo menos 100 vezes MENOR que o mercado americano. Se eu produzir um livro aqui e puder vender 1.000 unidades, posso ter certeza que O MESMO ESFORÇO HUMANO, a mesma ENERGIA VITAL colocada no trabalho produziria uma venda de 100 MIL unidades nos USA. Se eu ganhasse um dólar em cada livro, no Brasil passaria fome. Nos USA, sobraria dinheiro. Poderia viver com um livro por ano. Aqui, se fizer 4 por mês, não conseguiria sobreviver. E nem com os 1300 escritores do site eu conseguiria fazer 4 livros por mês... Já o site ATENDA, ele é um serviço grátis para consumidores compradores e vai ser tarifado para revendedores e lojas. Mas demorará uns 2 anos até a coisa pegar...

É importante notar que as jogadas financeiras dos especuladores estragaram parte da Internet, criando para os usuários a errônea noção de que tudo na WEB deve ser grátis. Grátis por quê? Há gente trabalhando, há espaço físico, há eletricidade, há máquinas, despesas de telecomunicações etc. Quem paga essa conta? No Site da Magriça é tudo grátis - e há pessoas que escrevem reclamando dos serviços e exigindo isso ou aquilo (em geral coisas que elas mesmas podem fazer no próprio site, há ferramentas para isso). Como o Site tem muitos usuários, mais de 5.000, todos imaginam que aqui há uma equipe trabalhando, financiada não sei por qual SANTO banco. As pessoas já não se dão conta que este é um site pessoal meu, que faço isso por hobby, para incentivar as pessoas a escreverem mais e a se tornarem mais conhecidas. E pago tudo do meu bolso. E faço o trabalho nas madrugadas e fins de semana, pois trabalho fora num cargo executivo que me consome 12 a 17 horas por dia. Quando viajo e fico fora uns dias, é uma desgraça... centenas de e-mails a responder... Por isso o sonho de poder, um dia, me dedicar só ao Site. Mas isso exigiria a cobrança de um fee, mensal ou anual - e as pessoas ainda não estão dispostas a pagar por nenhum serviço da WEB. Infelizmente. Mas o sonho, o sonho existe sim...

 

 

Helena - Das sugestões sobre a sua verdadeira identidade que já lhe deixaram no site, qual se aproxima mais da realidade?

 

Magriça - Um leitor já acertou na mosca de quem eu sou e - obviamente - escrevi para ele e retirei a resposta do ar.

No Site, instigo as pessoas a descobrirem que é a Magriça - e há respostas muito engraçadas. Selecionei várias das respostas para o primeiro livro de Seleção de Poetas Notívagos, que deve ser publicado com os resultados do Concurso Von Breysky 2001. No entanto, a resposta com a qual mais identifico é uma que afirma que "A Notívaga é um pouco de todos nós...". É bem isso.

O interessante - e que pouca gente sabe - é que há várias "camadas" de relacionamento. A pessoa visita o site, gosta, não gosta, não sei. Não há nenhum vínculo. Um dia dá um estalo, resolve se inscrever. É claro que envio uma resposta automática, mas personalizada, sempre. Eu começo a monitorar: se o sujeito está com dificuldade, se está operando de forma errônea... De repente, mando uma cartinha pessoal de apoio, dando dicas. Se me escrevem, respondo, mesmo que demore uma ou duas semanas, conforme a prioridade do assunto.

As pessoas vão descobrindo que não é uma máquina respondendo - e sim uma pessoa. Aumenta o vínculo. Depois de um tempo, começo a fazer follow-up, mando cartas de incentivo, de aniversário pessoal, de aniversário de cadastramento no site etc. As pessoas começam a escrever mais, o vínculo aumenta. Começam a me contar casos pessoais, seus problemas na vida. Algumas pedem conselhos - e perguntam o que acho disso, o que acho daquilo. Cria-se o vínculo da amizade e chego a me sentir uma espécie de consultora existencial-terapêutica.

Já houve casos graves, como o de uma garota (menor) do RJ, que queria se suicidar, devido ao tratamento recebido pelos pais. Através do ICQ conversei muito com ela, acabei me identificando e acabei lhe dando uma nova perspectiva de vida. Graças a Deus, ela desistiu da idéia. Há escritores que - enquanto pessoas - estavam desesperançados da vida, após separações traumáticas ou perda de entes muito queridos. Através do incentivo à escrita e novos amigos feitos no Site, essas pessoas me escrevem felizes, dizendo terem se reencontrado na vida e mostrando eterna gratidão.

Então, a minha conclusão (bem como a deles) é que NÃO IMPORTA QUEM SOU. Importa o QUE EU FAÇO. Não fosse essa perspectiva de ajudar as pessoas, através da literatura, não sei se teria energia vital suficiente para manter sozinha um site desta dimensão. Tento fazer do Site da Magriça, mais do que um site de literatura, um site de RELACIONAMENTO. Porque percebo que, no fundo, as pessoas estão muito sós. E cansadas de serem tratadas como mais um número.

 

 

Helena - Em que circunstâncias nasceu na Magriça o apego pela palavra escrita?

 

Magriça - Na verdade, meu pai era repórter e gostava de ler - e comprava muitos livros, fascículos e até gibis. Em casa tinha de tudo e certamente mais de 2000 livros. Eu lia muito, desde pequena. Na adolescência chegava a ler um livro por dia nas férias. Mas estudei num colegial técnico, que me tomava o dia inteiro, casei e comecei a trabalhar muito cedo, passando a estudar a noite. Então comecei a escrever um pouco aqui, um pouco ali, até em guardanapo de bar, nos poucos intervalos da vida. No começo da carreira, dava manutenção em máquinas IBM, num grande banco paulista. Eram máquinas de digitação de cheques, em disquete, uma novidade na época (27 anos atrás). Estudava o quarto ano técnico de dia, ia para a USP fazer filosofia a noite e de madrugada ia para o banco, dar manutenção nas máquinas (ah, você descobriu como comecei a ser uma pessoa notívaga, porque dormir de verdade, só nos fins de semana!). Então, de duas uma: ou contava estórias do Oscar Wilde para digitadoras (que choravam, choravam...) ou ficava digitando nas máquinas IBM para testá-las, depois da manutenção. Aí eu escrevia poemas, contos, etc.... Era fascinante digitar num teclado e ver o texto impresso numa IMPRESSORA - porque o máximo que eu conhecia era máquina de escrever elétrica, que eu tinha em casa e que era uma tecnologia nova, fantástica. Aí eu lia o texto, corrigia, imprimia de novo. Que maravilha, não precisava usar mais o corretor de tinta, não esperava mais secar...Pra falar a verdade, é difícil dizer o que me fascina mais até hoje: a palavra escrita ou a tecnologia. Enfim... gosto muito de escrever sim. Dá para ver pelo tamanho das respostas.

 

 

Helena - Para não se dar a conhecer, seria capaz de editar um livro sob pseudônimo ou, fazendo-o sob o nome verdadeiro, não o divulgar no site para que os ciberleitores não o relacionassem consigo?

 

Magriça - A primeira sim, a segunda não. Somos personalidades completamente diferentes (não ria). Eu publicaria um livro com as poesias da Notívaga, se elas tivessem qualidade suficiente. Mas a grande maioria foi escrita por encomenda e só têm significado para quem as encomendou. Não acredito que interessassem ao público em geral. Só se eu colocasse o contexto (o pedido) e a poesia-resposta. Infelizmente, devido a um maldito vírus, eu perdi todos os pedidos antigos, que deram origem às poesias. Hoje o site é diferente, registra os pedidos e mostra as respostas - mas eu praticamente não escrevo mais nada, nem há tempo para isso.

Já sob o nome verdadeiro eu publicaria outras coisas. Tenho uma série "biográfica" que apelidei de "minha vida", onde conto "minha vida" a cada década (há poesias, crônicas, pequenas histórias). Já há material para uns 4 livros (décadas de 60, 70, 80, 90). A Magriça só aparece no final da década de 90, em 99.

 

 

Helena - Como lhe ocorreu criar um site de 'pedidos e achados', ou seja, onde uma pessoa pode colocar os seus escritos e outra solicitar um poema ou conto com características específicas?

 

Magriça - Para responder a essa questão, preciso contar um pouco da história do Site.

Antes de começar o Site da Magriça, no início de 1999, a primeira idéia foi colocar na WEB umas 30 poesias minhas (da criatura e não da personagem), escritas desde 1994, e que estavam publicadas em FÓRUNS de BBS (Bulletim Board Systems). Fiz meu primeiro site, que ficou tão chato quanto 90% dos sites de poesia ainda o são: um exercício de Narciso. Eu, feliz, passava o endereço pessoal do Site para alguns poucos conhecidos, achando o máximo. Como na verdade não passava de mais um site chato e estático, não havia como crescer a audiência e nem incorporar coisas novas, a menos que eu escrevesse cada vez mais. E eu, que não sou poeta, nem iria escrever tanto e muito menos atrair a atenção de pessoas ligadas à poesia e à literatura.

Resolvi ir passeando de site em site ligado a poesia ou literatura, colecionando o e-mail do responsável e dos seus leitores. Um dia me deparei com o Jornal de Poesia, do Soares Feitosa, até hoje o trabalho mais sério, ligado a Poesia, de tudo que vi na Internet no mundo. Ali colecionei mais algumas centenas de e-mails, pois o objetivo do Feitosa era divulgar os autores consagrados - sendo ele mesmo um autor de primeiro quilate. Minhas poesias pareciam puro lixo urbano perto das dele e dos autores de seu site, sempre muito selecionados e que - na ocasião - já chegavam a quase 2.000 (do passado e contemporâneos).

Meu paradigma mudou. Passei a sonhar em um dia ter um site tão importante quanto o dele, mas incentivando novos autores. Das celebridades (vivas e idas) Soares Feitosa já cuidava com excelência e mestria - e eu não me atreveria a fazer um copião do site dele. Mas faria algo para as novas gerações, dos filhos ou dos netos.

Foi aí que decidi adotar uma identidade secreta, para criar um ar de mistério no site vindouro. Criar uma personagem, intrigante, insinuante, instigante, irreverente e agridoce - que aos poucos fosse se tornando conhecida. Nasceu a Notívaga Noturna. E nasceu o nome do Site, que virou Site da Magriça - Poesias e Escritos, para dar a idéia de uma figura esguia, mirrada, frágil - mas sempre ligada à literatura.

Além disso, o site precisaria prestar um serviço que tivesse utilidade para as pessoas. Só assim elas o frequentariam e o divulgariam, permitindo a criação de uma comunidade de usuários e - mais que isso - de amigos. Como já disse e repito sempre, WEB é sinônimo de interatividade e, por isso, sites estáticos, catálogos de empresas, produtos ou pessoas, não se desenvolvem. O primeiro serviço a que me propus foi publicar as poesias de terceiros, revisando-as antes, melhorando onde era possível.

Usando os e-mails colecionados durante um bom tempo, fiz a divulgação do primeiro serviço. Vieram algumas pessoas. Logo a seguir, inovei criando um serviço de encomendas - eu escrevia sob encomenda para as pessoas, qualquer coisa, sem cobrar nada. Descobri então a enorme dificuldade que as pessoas têm para expressar seus sentimentos por escrito. Para escrever, eu precisava "incorporar" o problema de quem me encomendava, ficar sob sua pele, me inspirar, escrever e depois enviar (tanto ao solicitante quanto à pessoa a quem ela destinava o texto pedido).

Esse serviço "pegou" - e as encomendas não cessavam. Praticamente eu escrevia um texto ou poema por dia, tarefa quase impossível, devido ao meu trabalho executivo, estafante, restando poucas horas de sono e os fins de semana para programar o site e colocar a correspondência em dia. Ao mesmo tempo, reprogramei o Site em formato de Banco de Dados, em três línguas, permitindo que os próprios usuários publicassem seus trabalhos, pois eu não tinha tempo para editorar páginas, quer seja dos trabalhos que chegavam cada vez com maior profusão, quer seja das coisas que eu mesma escrevia para os solicitantes.

Neste trabalho de escrever sob encomenda fui de tudo: homossexual, amante, lésbica, gay, professor, pai, mãe, avô, filho, paraninfo de turma, crítico de situação social, traí o marido, traí a mulher, participei de triângulos amorosos, corneei o melhor amigo e etc. Um dia esgotei-me: as situações se repetiam. Onde buscar mais inspiração? Os pedidos cresciam, se acumulavam - e eu não dava mais vazão a eles. Foi mais ou menos nessa época, início de 2000, que conheci pelo site o Von Breysky - que participava ativamente no site. Cada vez ele escrevia mais e mais, chegando a me ultrapassar em número de poesias no Site, tornando-se rapidamente o maior usuário. Aí Von Breysky propôs um concurso para incentivar o crescimento do Site, oferecendo um prêmio de US$ 500 a quem mais colocasse poesias no Site até 31 de dezembro de 2000. Topei, divulguei - e o Site começou a crescer de forma muito rápida, atraindo cada vez mais interessados, não só do Brasil, como também de outros países.

Em função disso, no final do segundo semestre de 2.000 o Site começou a sofrer ataques de puristas, que queriam menos quantidade e mais qualidade. Algumas cartas muito agressivas, que quase me fizeram desistir de tudo e fechar o site para sempre. Para completar, veio aquele maldito vírus que destruiu minha máquina - e perdi toda correspondência passada. Boa parte dos pedidos que ainda não tinha atendido desapareceram. Recuperei o que foi possível, cerca de 100 pedidos em aberto, e trabalhei numa nova versão do Site, em português somente. Nesta versão, os próprios leitores-escritores poderiam responder às encomendas de outros usuários. Enviei um e-mail aos escritores contando a novidade e pedindo ajuda. Em 48 horas os 100 pedidos haviam sido respondidos. Sucesso total. A seção de desafios raramente têm 2 a 3 pedidos acumulados: os escritores "consomem" os pedidos com voracidade. As vezes eu coloco um desafio novo (encomenda) só para a seção não ficar vazia!

 

 

Helena - Será que escrever poesia ou conto 'a pedido de' - à priori com a condicionante do tema e com o vínculo forçado a um determinado episódio e destinatário - não perturba a inspiração de quem cria?  

 

Magriça - Ponha perturba nisso! Por outro lado, é um tremendo exercício. Quando jovem, já estudei teatro. Se você é realmente um bom ator, interpreta bem qualquer personagem. Sem querer, inventei o teatro da literatura - e fui a cobaia de mim mesma. Escrever para terceiros é bem mais complexo que fazer “baixar um santo”. É ser uma personagem transmutada em palavras, de forma articulada e contextualizada. Recomendo este exercício a todos estudantes de literatura. Os professores poderiam pegar as centenas de desafios que já foram colocados no Site e repassarem a seus alunos. Nem precisariam se desgastar criando as tarefas... E os alunos poderiam lá publicar novas respostas a antigos desafios. Why not?

 

 

Helena - Excluindo a aura de mistério que o envolve e a possibilidade de funcionar como 'fornecedor de textos', existe algo mais que diferencie o site da Magriça de tantos outros sobre escrita existentes na Net a cargo de pessoas aparentemente identificadas?  

 

Magriça - Sim: o que os leitores pedem eu faço, mais cedo ou mais tarde. A despeito das limitações de programação e principalmente de design, eu tenho mudado continuamente o site, sempre incorporando as sugestões dos leitores. O Site é hoje fruto duma concepção coletiva - e não resultado de idéias geniais minhas. E sempre tenho uma lista de idéias novas, porque sempre os leitores sugerem mais. Hoje há serviços de listas de amigos, que permitem aos autores a divulgação de seus textos para seu grupo de referência, com um mínimo de esforço. Hoje cada autor tem seu endereço pessoal, onde só são enxergados os seus trabalhos, sem misturar com os demais 27.000 textos do site. Há todo um serviço de estatísticas, mostrando quem é quem no Site. Toda a correspondência com os leitores e autores é personalizada - e me comunico com eles em média uma vez por mês. Não existe um site - que eu saiba - que trate as pessoas dessa forma individualizada. O Site só não está melhor porque não posso implementar mais funções, devido ao provedor, que está reclamando. Preciso mudar de plataforma tecnológica, indo de ACCESS para SQL e com muito mais espaço em disco. Só o arquivo de textos tem 60 Megabytes! A estrutura da base de dados está preparada para novos serviços: fotos dos autores, música personalizada, biografias, comentários dos usuários por poesia. Mas isto virá na quarta geração do site, em março, quando ele voltará a ser trilingue.

 

Helena - Poderia traçar o percurso do site desde que surgiu na Net? Percalços, aventuras e desventuras, alegrias, novidades...  

 

Magriça - Vamos lá. Parte da história eu já contei. As principais desventuras são com os provedores, pois o site fica instalado em servidores compartilhados com outros usuários. Como o crescimento é constante, chega uma hora em que o provedor começa a reclamar que estou usando demais. Chegaram, na LOCAWEB, a me desligar por isso. Fiquei uma semana fora do ar até conseguir transportar para outro provedor. Agora está nos USA. Estava feliz... mas diminuíram o tempo de processamento de cada página, para caber mais usuários em cada máquina. Estão rentabilizando a operação deles. O resultado prático: tiraram algumas páginas minhas do ar e várias, se você tenta rodar, as vezes rodam, as vezes não rodam. Depende do instante. Ou seja, o serviço virou uma droga de repente. E lá vou eu ter que mudar de casa novamente. Isto é o que mais irrita, a mim e aos usuários.

Outra maldição na Internet são os IGs e BOLs e HOTMAILS da vida. Tudo muito bacana: dão Internet grátis, e-mail grátis. Ao tentar me corresponder com os usuários em geral dá: caixa-postal lotada, servidor fora do ar, etc. Em suma, perco o contato com os usuários e até autores. Eles mandam coisas que nunca chegam, porque o serviço é de péssima qualidade e de baixa fiabilidade. Minha recomendação aos leitores e usuários: para coisas mais sérias, jamais use e-mails grátis. Tenha o e-mail de um provedor pago, sem limitação de tamanho de caixa postal.

As alegrias? Bem as alegrias estão em centenas de e-mails com pequenos e grandes elogios. Na satisfação dos usuários. Na crescente popularização do Site e no reconhecimento da seriedade de sua proposta. O que me intriga é que a mídia oficial nunca deu a menor importância ao site. Porém o tempo é senhor da razão e um dia acredito que darão alguma atenção.

As novidades? Parte já contei acima. Talvez eu implemente uma seção de MPB, mas diferente de tudo que existe na NET. Já programei e testei, mas acho que ainda não é hora. Também criei um serviço chamado DOBEMDOMAL, para as pessoas falarem BEM ou MAL sobre certos temas - mas não sei se vou colocar no ar este ano. Na parte de literatura, estou testando um serviço novo, para construção coletiva de textos, também de forma diferente de tudo que vi na WEB até hoje. Na verdade, a minha prioridade é colocar os serviços que os leitores e autores sugerem. Depois disso vêm minhas próprias idéias. Coisa nova, de minha autoria, só se sobrar tempo. E esse é meu recurso mais escasso hoje em dia.

 

 

Helena - Que planos tem a Magriça para o seu próprio futuro e para o futuro do site?

 

Magriça - Se pudesse, como já disse, me dedicaria unicamente ao Site. Já há massa crítica de usuários para isso. Abandonaria a carreira executiva. Porque “Do Mundo Nada Se Leva” (referência explícita a Capra)... Estou em busca de uma instituição que financie, seja o Magriça, seja o ATENDA. Uma possibilidade é começar a publicar as obras dos autores novos e fazer disso um business. Para isso, preciso de uma aliança com uma forte editora, com ampla capacidade de distribuição - que é a chave do sucesso num país em que o mercado é restrito. Se algum leitor aí quiser dar uma boa dica, pode me mandar!

 

 

Helena - Como surgiu a idéia do Concurso Von Breysky 2001? Que avaliação faz desta iniciativa, ao nível da participação, qualidade dos trabalhos a concurso, etc?

 

Magriça - Foi a partir do concurso Von Breysky 2000, que não sei se foi muito divulgado fora do site. Já não me lembro bem.

No começo de 2001, eu e Von Breysky começamos a pré-desenhar o concurso de 2001, tomando como base as críticas ao concurso anterior, buscando elevar a qualidade das publicações e - simultaneamente - o número de participantes. Resolvemos juntar antigos participantes do Site, que haviam mandado uma série de críticas construtivas ao concurso anterior e eram extremamente colaboradores. Criamos uma comissão com Paulo Camelo, Luciano Moraes e, posteriormente, com Nandinha Guimarães. Criamos juntos o concurso 2001 e o regulamento - tudo pela Internet, de forma interativa.

Eu jamais vi ou conversei pessoalmente, nem ao menos por telefone, com qualquer pessoa da comissão organizadora e julgadora do Prêmio Von Breysky 2001: nem o Von Breysky (que agora oferecia US$1.000 para patrocinar o concurso), nem o Paulo Camelo (sei que é de Recife), nem o Luciano Moraes (sei que é de Araras - SP) e muito menos Nandinha Guimarães (jamais consegui uma imagem dela, o que sei é que é de Fortaleza). E tampouco eles, com exceção do Von Breysky, conhece a minha verdadeira identidade. Inclusive o VB, como o chamo "intimamente", prefere me tratar por Magriça e ponto. Parece-me que se sente mais à vontade com a personagem do que com a própria criatura...

O sucesso do concurso Von Breysky 2001 foi absoluto: mais de 2000 poesias inscritas, mais de 340 participantes pré-aprovados na fase preliminar. Muitos poetas de qualidade. Impressionante. Todo o julgamento das poesias foi também feito via Internet, nada em papel, tudo em banco de dados. Um juiz não sabia o que o outro estava fazendo, não sabia de quem eram as poesias que estavam julgando - e eu controlava e monitorizava tudo aqui de São Paulo - SP, orientando e resolvendo problemas técnicos. Quando chegava uma poesia, eu depurava ao máximo: tirava títulos redundantes, tirava identificações pessoais no corpo da poesia etc. Um trabalho insano, pois as pessoas não lêem os regulamentos e enviam as coisas de qualquer jeito. O Site fechou o ano de 2001 com quase 5000 participantes, 1300 deles escritores - e mais de 25.000 textos publicados. Comparados aos 50 textos iniciais do site, em 1999, representam um crescimento de 500 vezes. Um absurdo - só possível devido à Internet.

 

 

Helena - No caso particular da Magriça, de que género literário se sente mais próxima? Da poesia, do conto, do romance?

 

Magriça - Por incrível que pareça... hoje " prefiro" crônicas, croniquetas. Depois poesias. Depois contos. Depois romances. Isso está certamente relacionado ao tempo " livre " que hoje disponho. Em férias, na praia, nada como um bom romance.

 

 

Helena - Na sua opinião, de entre os autores brasileiros, quais mudaram o panorama da Literatura no país (e, eventualmente, fora dele) no séc. XX?  

 

Magriça - Não tenho a menor pretensão em afirmar algo desse tipo, pois não conheço Literatura com tanta profundidade. Para mim, todos contribuem, em maior ou menor grau, inclusive "poetas" como Caetano Veloso, Gil. Minha paixão, no Brasil: Clarice Lispector. Fora do Brasil, Fernando Pessoa.

 

 

Helena - Se pudesse ditar as regras, que alterações fazia no actual cenário literário brasileiro? Investia em bibliotecas? Apostava mais em novos autores? Tornava os livros mais baratos?  

 

Magriça - A questão não é, isoladamente, da Literatura. É da educação em geral. Impostos. Escolas não deveriam pagar impostos. E tudo que as pessoas gastassem em educação deveria ser dedutível do Imposto de Renda. Inclusive contribuições para a montagem de escolas, bibliotecas, centros culturais. Você pode descontar do IR doações para os Sanatorinhos, por exemplo, mas não pode deduzir 1 centavo se ajudou a construir uma sala de aula. A única coisa que o país precisa é investir pesadamente em educação continuada para todos. Escolas equipadas com Internet (linhas e máquinas). Professores com crédito subsidiado para compra de equipamentos em 3 anos ou mais. Precisamos modernizar o parque educacional brasileiro com urgência: pessoas e instalações. Livros não deveriam, igualmente, ter impostos. Que se sobretaxe bebidas, cigarros, revistas pornográficas - ótimo. Num país em que o salário mínimo é menos de 200 reais, como pode um bom livro custar 30 reais?

Um ótimo livro não deveria custar mais que 10 reais. Portanto, não acho que o governo vá fazer grande coisa com políticas e verbas centralizadas: eu criaria incentivos para que as empresas e pessoas investissem de forma brutal em educação, de forma descentralizada e regionalizada, a partir de diretrizes bem estabelecidas. Só assim estaremos de fato nos preparando para a "nova" economia deste milênio - e poderemos ousar manter a competitividade num mundo que, queiramos ou gostemos ou não, está globalizado e em constante transformação.

 

Helena - Creio que conhece o Literário On-line. O que pensa do conteúdo e papel cultural e pedagógico deste site?

 

Magriça - Conheço sim, não com total profundidade, confesso-me. Pessoalmente, e sem qualquer badalação, gosto muito das entrevistas que você faz. As perguntas são muito boas, variam, mostram que você estudou o entrevistado ANTES de fazer a entrevista. * No mais, considero o trabalho do amigo Roberto Pires um trabalho sério, de qualidade, que incorpora parte da cultura regional do Ceará com outras culturas, quer seja do SUL MARAVILHA (Henfil), que seja de PORTUGAL. Um trabalho magnífico. O que posso dizer é que na Internet todo trabalho sério cresce e aparece, como é o caso do Literário. O resto... o resto desaparece.

 

 

Helena - Que mensagem deixa para os visitantes do seu site, para os que acompanham o seu trabalho e paixão pela palavra escrita?

 

Magriça - “Escrevam e deixem escrever". Ninguém é bom o suficiente para podar a criatividade alheia (no Brasil temos críticos demais, produtores de menos). E aproveito o gancho para agradecer o carinho com que todos me tratam, mesmo quando dou umas broncas, principalmente na Lista do Site (lá no Yahoo).

Agradeço também ao Roberto Pires e a você a oportunidade desta entrevista. Espero que os leitores do Literário On-Line gostem. É a primeira vez que respondo seriamente a uma entrevista e dou informações que jamais forneci a quem quer que seja. Mas o Literário On-Line merece este respeito e meu amigo RPires mais ainda. Vocês todos merecem este “furo”!

* Declarações apenas mantidas por se dever fidelidade às respostas da entrevistada.  

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