Helena
de Sousa Freitas entrevista:
AFFONSO
ROMANO DE SANT' ANNA
Helena
- Em que circunstâncias sentiu, pela primeira vez, que a poesia era uma parte
inseparável do seu modo de vida?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Comecei a anotar umas coisinhas aí pelos 14 anos e a escrever para jornais
aos 16. Mas, quando me formei na escola primária, lembro-me da professora
dizer à minha mãe: "ele é bom menino, mas é meio distraído, vive
olhando pela janela". Acho que escrever é isso, é "olhar pela
janela", ver o mundo pelas suas frestas.
Helena
- Durante algum tempo leccionou nos Estados Unidos. Que memória guarda dessa
experiência?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Imagine um mineiro, solteiro, chegar na California em 1965 na hora em que o
movimento hippie estava começando e a contra-cultura explodindo! Imagine o
choque de ir lecionar uma literatura que ninguém conhecia - coisa de
marciano. Eu falava em Machado, ninguém sabia.Falava em Drummond, silêncio.
Guimarães Rosa, nem pensar. De Pelé sabiam, mas de Niemeyer e Villa-Lobos,
nada. Olhar o seu país de fora para dentro é um exercício de humildade.
Helena
- Que comparações podem ser estabelecidas entre os mercados livreiros
norte-americano e brasileiro ao nível de edição, vendas e leitores?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
O mercado americano é essa força que todos sabemos. Mas os bons livros você
não encontra nas cadeias de livarias, todas comprometidas com best-sellers, o
contrário da França e Itália. Lá também faltam livrarias que mantenham
acervos clássicos, o que chamamos "de fundo". Nos USA o que
impressiona são as bibliotecas. Encontrei lá muito livro brasileiro que
nunca tinha visto. Entrar numa biblioteca universitária nos Estados Unidos
quase provoca orgasmo intelectual.
O Brasil é um país aquém de si mesmo.
Costumo dizer que o nosso sistema literário não existe. Portugal tem um
sistema literário, tal como França e Espanha, mas aqui são ilhas... e muita
coisa boa naufraga entre uma praia e outra.
Helena
- O seu poema 'Carta aos Mortos' foi, em Outubro de 2000, publicado em inglês
na revista norte-americana The New Yorker, o que lhe valeu uma enchente de
mensagens na caixa de correio electrónico. Como se sentiu face a essas
demonstrações calorosas de leitores e ex-alunos seus?
Affonso Romano de Sant'Anna - Foi
realmente surpreendente. Parece que publicar ali é uma condecoração, pois
no fim do ano me mandaram uma espécie de diploma com o nome de todos os
poetas publicados naquele período.
Recebi até carta de uma editora pedindo para republicar aquele poema numa
antologia escolar americana. É desses poemas, como filhos, que nos
gratificam. Já saiu em várias línguas. Outro dia recebi uma revista em
polonês com um poema meu. Não conseguia atinar qual era, pois o polonês é
impenetrável, parece só ter consoantes mas vim a descobrir que, afinal, era
também o "Carta aos mortos".
Helena
- Dos livros que já lançou e das distinções que já obteve, quais o
marcaram profundamente? Porquê?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Ganhei uns prêmios aqui e acolá, mas minha maior distinção foi sair na
comissão de frente da Escola de Samba da Mangueira, quando homenagearam
Carlos Drummond em 1967. Foram duas emoções superpostas: desfilar na
homenagem a Drummond e desfilar como poeta, ao lado dos poetas populares do
morro. Foi algo mágico.
Helena
- A sua obra é, com alguma frequência, divulgada ou referida na Internet.
Considera este novo meio importante para a Literatura? Em que aspectos?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
A Internet tem tirado do exílio editorial e de público especialmente os
poetas. Poetas que não teriam como editar um livrinho, que não teriam 500
leitores, alcançam 10 mil leitores em poucos meses. Infelizmente existe uma
outra barreira que é a língua portuguesa. Ainda temos que usar o espanhol ou
o inglês para cruzar fronteiras culturais.
Helena
- Apesar de depender de um mercado difícil - o literário - e de exercer um género
nobre mas pouco consumido pelos leitores - a poesia - tem conseguido implantar
o seu nome e a sua obra tanto no Brasil como no exterior. Existe alguma fórmula
para este sucesso?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Olha, a poesia ( sempre digo isto a quem está começando) é uma carreira de
longo curso. Se alguém está querendo retorno rápido, vá para a televisão
e publicidade. Acho que o poeta tem que ter um projeto. Falo sobre isto no meu
livro sobre Drummond e num outro recente, "A sedução da palavra".
No meu caso, pratico uma poesia também comprometida com meu tempo. Tenho dado
respostas, as que posso, às perplexidades do meu tempo. Ainda agora o
longo poema "Os homens amam a guerra", em torno do conflito
no Afeganistão, saiu em diversos jornais, foi para a Internet em várias línguas
e vai ganhar uma edição em livro especial.
Helena
- A crítica escreveu já que Affonso Romano de Sant'Anna é, de entre os
poetas brasileiros vivos, o digno sucessor de Carlos Drummond de Andrade.
Sente o peso desta responsabilidade? Ela influencia a sua escrita?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Há umas ilações e coincidências, mas é só isso. Nascemos em Minas, desde
os meus 17 anos que nos escrevíamos, fiz minha tese de doutorado sobre ele,
desfilei na Mangueira quando o homenagearam e até mesmo fui chamado para
substituí-lo como cronista no Jornal do Brasil.
Quando ele morreu, uma leitora me disse
que foi a uma sessão espírita e o Drummond apareceu e mandava recados para
mim. Tem piada, como vocês dizem.
Quanto à coisa de "sucessão"...
isto me deu muita dor de cabeça, porque depois que alguns críticos fizeram
essa ilação, dei-me conta do quão era infinda a lista de candidatos a
sucessor do poeta. Estou fora. Ninguém sucede ninguém. Mal consigo suceder a
mim mesmo.
Helena
- Afirmou, há cerca de um ano, que "a poesia é um projecto para toda a
vida. Exige cultivo, estar com o ouvido afinado, atento à vida e às palavras
e à vida das palavras.(...) O importante é a continuidade. Poesia é uma
carreira de longo curso". Então, afinal, não se nasce poeta, como
diziam os antigos?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Coincidência que eu havia dito algo sobre isto lá em cima, sem saber que
haveria esta pergunta. Complementando: você aperfeiçoa sua sensibilidade poética
e seu domínio da escrita. Mas pode acontecer um bom talento pode perder-se e
um talento médio levar a palma.
Helena
- No seu livro 'Textamentos' surgem diversas referências ao amadurecimento do
ser humano ao longo da vida e ao final da trajectória da existência física.
Em que medida o processo natural de envelhecimento - que nos acompanha desde o
berço - influi na sua escrita e na sua forma de encarar o mundo?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Envelhecer deve ser uma dádiva, um coroamento. Há pessoas que envelhecem
mal. "Envelhecer com mel ou fel?", indaguei numa crônica. Para o
artista é um privilégio poder converter isto num ganho estético. O que
aparece como destruição, ruína, pode converter-se em instauração de algo
mais luminoso, que sobrevive à carne.
Helena
- Há cerca de quatro meses, falecia Jorge Amado, deixando mais pobre a
literatura mundial. Qual o impacto desta perda para si, ao nível pessoal e
enquanto autor de expressão lusa?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Jorge Amado era uma pessoa baianamente, generosa. Por exemplo, nas
vezes em que durante a última ditadura publiquei poemas duros, tipo "Que
país é este?" na parte de política dos jornais, enviava-me palavras de
estímulo, lembrando-me Castro Alves, que foi assunto de um de seus livros.
Embora não lhe tenham dado o Nobel, há
muito que estava na glória. Para você ver como é estranha a vida de um
escritor: mesmo os grandes levam pedradas. Quando ele publicou "Gabriela,
Cravo e Canela" alguém escreveu um artigo que começava assim: "Eu
não sou crítico, mas, em compensação, o senhor Jorge Amado também não é
escritor". Há várias lições a se depreender daí.
Helena
- Apesar de crise quase universal na venda de livros, por vezes ocorrem fenómenos
como a saga 'Harry Potter'. Existe alguma explicação para estes casos?
Estaremos perante o triunfo do talento, do passa-palavra ou de uma inteligente
campanha de marketing?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Já andei escrevendo sobre Harry Potter e "O senhor dos anéis" São
fenômenos de massa, ou autores que foram massificados através de caminhos
diversos. Nem a sra. Rowling nem o sr. Tolkien são ingênuos. Tiveram até
formação literária. Este último, professor de literatura medieval, dizia
que a literatura ocidental entrou em decadência a partir do século XI. Uma
intrigante "boutade". Ambas as obras pertence mais à sociologia da
leitura do que à história da literatura.
Helena
- Muitos produtos culturais são fortemente publicitados, caso da música e do
cinema. No entanto, a publicidade ao livro é rara e fraca. Será que ainda
domina uma certa sacralização do livro? Ou o gasto promocional não seria,
neste caso, compensado com o lucro das vendas?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Na Itália, há poucos meses, um autor publicou seu livro com anúncio nas páginas
ou contra-capa para diminuir o preço. É como jogadores de futebol que usam
camisa com anúncio. Não sou contra, embora atrapalhe a leitura e o
acompanhamento do jogo. Na verdade, poucos são os editores que estão sabendo
achar novos caminhos para o livro
de qualidade. Alguns investem em best-sellers e publicam uns autores nacionais
só para constar do catalogo, não fazendo nenhuma força para vendê-los.
Helena
- No caso particular do Brasil, que apoios faltam ao livro e à leitura?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Quando dirigi a Biblioteca Nacional (1991/1996) criei o Sistema Nacional de
Bibliotecas e lancei o programa "Uma biblioteca em cada município".
Tive que tocar isto sozinho, porque nem o Ministério da Cultura se
interessava pelo assunto. Criei também o Proler, que instalou-se em 300 municípios
e tinha 32 mil voluntários. Infelizmente, esses programas foram
descontinuados, estropiados, mesmo no governo de Fernando Henrique, que é um
péssimo presidente para a área da cultura.
Helena
- Um pouco por todo o mundo proliferam as editoras que só lançam no mercado
edições de autor, custeadas na íntegra pelos escritores. Estas editoras,
que correm poucos ou nenhuns riscos, são acusadas de publicar sem critério e
os autores acabam, em consequência dessa falta de crivo, por ver a sua obra
desprestigiada. Como comenta esta realidade?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
O mercado é assim mesmo: surge livro de todo o tipo e de todo o lado. Um
livreiro me disse que, como no Brasil surgem mais de 2.000 livros por mês, não
tem como expô-los, nem que lhe fossem dados de graça.
O tempo de vida de um livro nas estantes
das livrarias é de um mês.Vendeu, ótimo; não vendeu, perdeu-se. E os
livros de editoras pequenas só servem para lançamentos psicológicos, não
efetivos.
Helena
- Conhece o Literário Online? Que avaliação faz deste órgão de divulgação
cultural e educativa na Net?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Na verdade ainda não o conheço. Hoje na Internet os poetas, sobretudo,
encontraram uma tábua de salvação. Outro dia, colocaram um texto meu num
site às 3 da manhã e até às 10 horas já somava 830 visitas. Por outro
lado, um garoto de 17 anos, estudante de física e que gosta de literatura,
ofereceu-se para fazer um site para mim (http://pagina.de/affonso) e com isto
recebo sempre mensagens de novos leitores. E, com meu endereço eletrônico ao
pé de minhas crônicas n’ O Globo e no Estado de
Minas, posso manter um diálogo com os meus leitores, algo impensável
ao tempo de Camões ou de Fernando Pessoa.
Helena
- Que mensagem deixa aos seus leitores?
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Gostaria de continuar esse diálogo com vocês através da leitura de meus
livros.
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