Entrevistada hoje:

Maria Esther Torinho

 

 

 

Helena de Sousa Freitas entrevista:

 

Maria Esther Torinho

 

Helena - O seu interesse pelas Letras nasceu consigo, foi cultivado por alguém na família ou surgiu espontaneamente a determinada altura da sua vida? 

 

Esther Torinho - Ninguém em minha família escreve. Esse interesse/necessidade em relação à escrita surgiu aos 15 anos. À essa época, colaborava com o Jornalzinho da Escola e, à parte, escrevia contos. Aos 16 anos recebi o meu primeiro prêmio: um 2º lugar num Concurso sobre o IV Centenário do Rio de Janeiro. Quanto aos contos, não os mostrava a ninguém. Um dia joguei-os fora e não pensei no assunto.

 

 

Helena - Em que circunstâncias se iniciou na escrita? E quando pensou em 'tirar os textos da gaveta'?

 

Esther Torinho - Em 86 comecei dois ou três contos e não os concluí. Em 87, ao escrever uma dedicatória, saiu um poema singelo. Então comecei a perceber que esse era o meu principal meio de expressão. Um ano depois venci um Concurso de Poesia. Após um malfadado contrato com uma Editora que me passou a perna fiquei "escrevendo para a gaveta". Em dezembro de 99, comecei timidamente a divulgar na Rede e em janeiro de 2000 publiquei meu primeiro livro. Não parei mais de escrever. Tenho participado de vários concursos e Antologias e já tenho alguns livros prontos (poesia e um de crônicas), além de um de contos a ser concluído.

 

 

Helena - Consegue traçar o seu perfil literário? (O que a motiva a escrever, temas recorrentes, impacto dos prémios literários, contactos com os leitores, etc)

 

Esther Torinho – Os sentimentos me motivam, meus e alheios. Motivam-me emoções vividas no presente, no passado ou imaginárias. Também me motivam palavras. Às vezes leio uma palavra em algum lugar e ela desencadeia uma emoção que me leva a um poema normalmente tão diferente que nem posso dizer “foi inspirado em”. Quando acontece o "inspirado em" dou o devido crédito. Quanto aos vários prêmios, também motivam, mas minha motivação é muito mais intrínseca, parte de dentro de mim como uma necessidade inapelável.

 

 

Helena - Como se sente por integrar a antologia 'Espelhos da Língua', que reúne 38 textos seleccionados entre os 1661 inscritos?

 

Esther Torinho - Muito orgulhosa. Foi um concurso sério. Haja vista a qualidade dos trabalhos/autores ali contidos, fui incluída entre outros grandes talentos do conto e da poesia, como Helena de Sousa Freitas*, Olga Savary, Nilza Amaral, José Félix e outros.

 

 

Helena - Quem é Esther Torinho quando 'se despe' da escrita (supondo que consegue tal feito)? Fale-nos um pouco das suas outras facetas no dia-a-dia.

 

Esther Torinho - Uma mulher como outra qualquer. Uma Maria (embora não goste que me chamem de Maria), Maria no sentido da música cantada magistralmente por Milton Nascimento: "a força, o suor e uma estranha mania de ter fé na vida" . Enfim, uma pessoa sincera, valente, guerreira, batalhadora, mas ao mesmo tempo, suave, amiga e leal.

 

 

Helena - Além da escrita - que parece ser a 'paixão maior' -, quais os outros grandes 'motores' da sua vida?

 

Esther Torinho - Filhos foram sempre grandes motivações. Estão começando a chegar os netos, outra fonte de alegrias. Minha profissão - psicóloga e professora – e duas coisas que me apaixonaram literalmente - o Curso de Letras e o de Psicologia: um pela oportunidade de contato maior com os grandes mestres da Literatura, que amo de paixão, e o outro pela oportunidade de auto conhecimento e de conhecimento do ser humano. Outra paixão que me move? Amar, ah, o amor... Sou apaixonada pela vida e não perco a motivação, jamais.

 

 

Helena - Sendo responsável pelo site 'Verso e Reverso', onde aloja também outros autores, pode explicar como o mantém? (Contactos com os escritores, selecção de trabalhos, etc)

 

Esther Torinho - Mantenho-o sozinha, mas Deus me ajuda (risos); tenho uma enorme força de vontade. É um site pessoal, onde desejava criar um espaço para os amigos, o que só pude começar há pouco tempo. Esse site está online há um ano e pouco e já obteve 16 selos de qualidade, nacionais e internacionais. Quase me matei para aprender webdesign, mas compensou - é uma coisa que amo fazer. Voltando à seção Escritores Amigos, eu mesma faço o contato, solicito autorização, dados ou entrevista e trabalhos e crio as páginas. Tenho outro site - Senda de Letras, que não tenho divulgado por falta de tempo.

 

 

Helena - Participa activamente em listas de discussão sobre Literatura. Como avalia a existência destas enquanto local de encontro de poetas e prosadores? E enquanto espaço aberto à troca de experiências de escrita?

 

Esther Torinho - No momento participo de seis listas, fora os convites que recebo e recuso por falta de tempo. É uma espaço novo e apinhado de gente. Apesar das trocas ocorrem de forma diversa nos grupos, são sempre trocas positivas: de amizade de textos, de críticas. Tudo isso é muito bom. Faço boas amizades, entre escritores ou não, e muitas dessas pessoas se revelam excelentes amigos, tanto à distância quanto pessoalmente.

 

 

Helena - Neste momento, existe já um grupo considerável de autores que escrevem em português e divulgam os seus trabalhos online. Que avaliação faz destes novos autores, que regularmente se encontram em sites, concursos, listas de debate, etc?

 

Esther Torinho - Como meio de divulgação democrático, a Internet tem trazido ao conhecimento do público muitos valores. Há muita Literatura de qualidade na Internet; também há o joio, mas acho que é um direito de todos mostrarem seus trabalhos. Depois da grande onda atual, creio que o próprio público fará a seleção. Costumo dizer que o tombo combate a onda: no embate de forças a onda quebra mas também se quebra e isso gera o equilíbrio. Os bons sobreviverão.

 

 

Helena - A Internet será, para estes autores, o palco de exposição negado pelas editoras tradicionais?

 

Esther Torinho - Acho que a Internet é esse palco de exposição para muitos e pode inclusive abrir portas e divulgar um nome. Espero que as Editoras acabem descobrindo esses valores.

 

 

Helena - Na sua opinião, que futuro espera(m) estes escritores? Serão lidos e reconhecidos no futuro ou serão esquecidos?

 

Esther Torinho - Parece-me que aumentou muito o universo de pessoas que escrevem, e a Internet está dando chance para que se mostrem. Acho que, de entre muitos, a seleção é difícil e mais rigorosa. Da diversidade e quantidade surge maior qualidade e isso só beneficia a Literatura e o público leitor.

 

 

Helena - Quais são, neste momento, os seus livros de cabeceira? E aqueles de que nunca se separa?

 

Esther Torinho - Livro: coisa que amo de paixão. Estou sempre lendo e em estado de permanente produção. Amo um monte de escritores consagrados e atuais. Em poesia, minha maior paixão é Cecília Meireles. Acabo de ler um livro que adorei da amiga Nilza Amaral -O dia das lobas - livro excelente, original e muito bem escrito.

 

 

Helena - O que afastará tantos cidadãos médios do livro? Será o preço, uma escrita difícil, ou apenas a falta de hábito?

 

Esther Torinho  - O preço do livro e a falta de hábito. Mas essa situação tende a se reverter. Quando eu era estudante, quase não se fazia redação em sala de aula; as bibliotecas eram poucas. Hoje a produção de textos é uma coisa obrigatória nas aulas. Eu mesma já conduzi muitas Oficinas de Criação de Poesia em sala, tendo obtido excelentes resultados. O brasileiro ainda vai ler muito, tenho certeza; basta que sejam orientadas as crianças e adolescentes atuais, não forçando, mas incentivando.

 

 

Helena - A poesia é um género literário amado pelos brasileiros?

 

Esther Torinho - Até há bem pouco tempo dizia-se "ninguém lê poesia", mas isto está mudando: há um número cada vez maior de pessoas interessadas em poesia em particular e em Literatura no geral.

 

 

Helena – Quais os seus votos para a Literatura do séc XXI, no plano nacional e internacional?

 

Esther Torinho - Que as pessoas leiam cada vez mais, pois isso reduz o preço do livro. É um círculo vicioso mas não viciado (apesar de que ler é um vício, mas um vício adorável): quanto mais pessoas lerem, mais barato fica e mais pessoas lerão. Que os direitos autorais sejam respeitados. Que o governo incentive, de fato, a Literatura e a Arte em geral. Que as Editoras queiram e possam investir nos novos talentos.

 

 

Helena - Conhece o Literário Online. Faça o seu juízo sobre este órgão de divulgação literária.

 

Esther Torinho - O Literário Online é mais um excelente meio de divulgação. Está crescendo e se expandindo, sob o comando do Roberto Pires, que é uma pessoa dinâmica e, como professor, bem sabe da falta que faz a leitura em nosso país.

 

 

Helena - Espaço para deixar uma mensagem aos seus leitores.

 

Esther Torinho - Primeiramente quero agradecer ao Literário OnLine por esta oportunidade. Aos leitores agradeço o incentivo e o apoio recebido. Quando gostam, fico feliz, pois consegui transmitir emoção... e esse é o meu objetivo maior!

 

 

 

* Menção mantida por se dever fidelidade jornalística às respostas da entrevistada.

 

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