Entrevistado hoje:

Soares Feitosa 

 

 

 

 

Helena de Sousa Freitas entrevista:

 

Soares Feitosa

 

 

Helena - Soares Feitosa dirige  um dos projectos pioneiros na área da literatura no meio digital : O Jornal da Poesia. Como lhe surgiu esta idéia? ideia?

 

Soares Feitosa – A idéia do Jornal de Poesia surgiu quando constatei num tempo que já parece distante, 1996 (praticamente os primórdios da www), que a língua portuguesa era a grande órfã da Net. Hoje, é comum ter gentes lusas na Internet – e isto me alegra imenso -, mas, naqueles dias, quando busquei Castro Alves, ninguém sabia quem era. Digitei Augusto dos Anjos, também não, ninguém sabia dele na Internet. Já desistindo, encontro, com grande alegria, uma referência a esse estupendo poeta, autor do segundo hino nacional (Minha terra tem palmeiras, Brasil, onde os pássaros cantam mais e melhor que os de lá... Portugal), Gonçalves Dias.

Contudo, constatei, com decepção total, que se tratava de uma “page” do Banco do Brasil informando que na cidade de Gonçalves Dias aquele banco mantinha uma agência. Então, ali mesmo, num rompante, disse às paredes do meu quarto que botaria meus ídolos na Net.

Comecei, evidente pelo Menino — assim o chamo, e quem me conhece sabe de quem falo — Castro Alves. Vozes d’África, “page’ cuja formatação original, bem feinha, faço questão de manter, foi a primeira. Depois, seguiu-se o Navio, qu’eu mesmo digitei com estas mãos que a terra só daqui a uns longos anos há-de comer. Encharquei de emoção o teclado, os dedos, também as folhas do velho livro, mas emoção maior foi, depois de cadastrar a “page” no Altavista... depois de alguns segundos... ah, meu Deus... como um pássaro que nos assusta em voo súbito durante uma caçada, agora ali na tela, Castro Alves, justo ele, o Menino!

Depois foi tudo mais fácil. Quem, em seguida? Gonçalves Dias, Pessoa, Camões, Augusto dos Anjos e Gerardo Mello Mourão, meu ídolo contemporâneo. Bom, quem faz um cesto faz cem. Marchei para os 100 primeiros. Depois, para os 1.000. Hoje estamos perto de 3.000, alguns com obras completas, fonte de prazer, entretenimento, pesquisa e estudo ao redor do Mundo, no amplo sentido da WWW.

 

 

Helena - Neste momento, quantos poetas expõem o seu trabalho no Jornal de Poesia? E quais os direitos e deveres de cada autor divulgado nesse site?

 

Soares Feitosa – Dia destes, um poeta me escreveu: Qual o critério de publicar? Levei um susto, justamente porque nunca adotei critério algum. Publico a todos, sem mínimo julgamento de minha parte. Então, respondi que o critério eram dois: a) inimigos, publico-os todos; b) amigos, publico-os também. Muitos dos publicados no Jornal de Poesia, nem Internet tinham. Quando descobrem que ali estão, que susto! Susto bom, claro! Fazemos, então, uma bela camaradagem. Com Cláudio Willer foi assim. Com Floriano Martins, grande poeta, crítico e tradutor brasileiro também foi. Tanto falavam de mal desse Floriano, quando um belo dia, ele me mandou um e-mail não sei sobre que assunto, no que aproveitou para se dizer mais “personagem” do que autor no JP. Convidei-o imediatamente para tocar a banda hispânica do Jornal de Poesia. Ele, como ninguém, abrira, há tempos, um novo horizonte com os poetas latino-americanos a quem demos secularmente as costas. Atualmente, graças ao Floriano, o Jornal de Poesia é um projeto ibérico em sentido amplo: luso como sempre o foi e agora também hispânico. Não há limites para crescer. Às grandes navegações ibero lusas, a nossa homenagem!

 

 

Helena - Que planos tem, a breve, médio e longo prazo, para o Jornal de Poesia?

 

Soares Feitosa – O problema é que sou um só, Floriano também um único e temos, cada qual, mulher e filhos para dar de comer. A gente até insiste com eles que comam menos, mas quem disse! Essa gente quer todas as manhãs, logo bem cedo, tomar café. Se botamos só café à mesa, reclamam, querem leite! Se botamos pão, exigem bolo; se botamos bolo, querem brioches. Damos-lhes os brioches todos!, é o jeito. De modo que, dividimo-nos: nosso devocional que seria um cinema, não há cinema; um passeio, mas não há passeio. Só isto: o trabalho e o Jornal de Poesia, eu; o trabalho e a Banda Hispânica, o Floriano. Há projeto de fazermos em breve alguns clones de nós mesmos...

 

 

Helena – Edita ainda o Jornal de Tributos e o Jornal de Filosofia? Pode aprofundar um pouco sobre eles?

 

Soares Feitosa – É... fico morto de vergonha de dizer que não tenho tempo. Como se fosse pouco, ainda inventei estes outros. Estou aleijado de ambas as mãos, a tal da LER (uma tendinite: Lesão por Esforço Repetitivo*). Também, não é para menos: moro dentro do computador. Floriano diz que quando vier cá a casa atualizar a banda hispânica não há aperto de mão... ele está também de mãos enfaixadas!

 

 

Helena - Sabemos que viajava quando sentiu o primeiro grande ímpeto para a escrita. Parece tratar-se de um episódio um tanto místico... Como ocorreu exactamente e em que aspectos modificou a sua vida?

 

Soares Feitosa – Foi numa prosaica Kombi do açougue que tínhamos em Recife, fedendo a carne, a caminho da rodoviária. Quase aos 50 anos - até então nunca me metera com poesia. Sequer leituras, ou melhor, não lera praticamente nada dos poetas do Século XX, exceto o Gerardo Mello Mourão de quem, coisa de uns 20 anos passados, lera, espiando por cima, O País dos Mourões.

Contudo, meus interesses nunca foram aqueles. Não sei de onde chegaram, assim subitamente. Foi uma transformação brutal em minha vida. Aqueles fenômenos da conversão religiosa, como se fosse, em que o mundo anterior desaba. Foi assim mesmo. A família e meus amigos daquele tempo ainda hoje não sabem o que aconteceu. Nem eu. Amigos daquele tempo? Sim. Havia-os. Eram meus colegas do sindicato dos bois e da carne-verde e os tributaristas, minhas únicas atividades de então. Não se tornaram inimigos, mas o distanciamento foi total. Para espanto e tristeza de todos nós.

 

 

Helena - Além de editar o JP, é também escritor, tendo uma obra conhecida e divulgada: Salomão. Poderia explicar aos leitores como foi concebida esta obra? O que a impulsionou e motivou?

 

Soares Feitosa – Salomão ainda não está concluído. Conhecido, sim, porque o poema (parte inicial do livro que prossegue num proseado) já o coloquei na WWW e o imprimi para alguns amigos. Roberto Pires, editor do Literário Online, é um deles. Aliás, a leitura do Salomão por parte do Roberto Pires despertou nele, também na maturidade, o gosto pela poesia. Assim, indiretamente, o Literário nasceu com o Salo, assim o chamo, Sálo, como se fosse um filho, e é. Não sei quando o concluo. Está praticamente pronto, falta só urdir uns capítulos... É coisa demais para um quengo só.

 

 

Helena -  Actualmente, consegue imaginar a sua vida longe da escrita? 

Soares Feitosa – Teria muita dificuldade de responder a esta pergunta. Veja, “matei” todos os meus afazeres anteriores, praticamente “matei” a família; passeamos um mínimo. Eu mesmo “matei-me”, pois não mantenho nenhum lazer que não seja o Jornal de Poesia... Então, de um lado, o trabalho; do outro, o Jornal de Poesia. Teria que haver outra “conversão”. Parece que, enfim, sou mesmo um passional. Ataco as coisas com os dentes. Aliás, moro dentro deles, assim escrevi em Habitação .

 

 

Helena - Na sua opinião, o que escreve insere-se em alguma corrente literária específica? Ou sente nela influências do realismo, romantismo, naturalismo, etc?

 

Soares Feitosa – Não, não me sinto vinculado a esses classificatórios.

 

 

Helena - A crítica tem sido, muitas vezes - ainda que nem sempre com inteira justiça - ‘juiz’ ou ‘barómetro’ de um determinado período da literatura. Conhece a opinião que a crítica tem da sua obra? Pode partilhá-la com os leitores?

 

Soares Feitosa -  Os leitores têm sido de uma suprema generosidade. Poucos, em tão pouco tempo, amealharam uma fortuna crítica tão extensa, rica e variada. Desde os técnicos, Wilson Martins, para exemplificar, às pessoas do povo, gente que não freqüenta o ambiente literário, lê alguma doidice minha e me escreve. Escrevem-me alguns num tom decididamente passional. Fico comovido, sim.  Tão bom quanto dinheiro, senão melhor!

 

 

Helena - Que espaço sente ter já conquistado no palco literário brasileiro? E como tem decorrido essa caminhada?

 

Soares Feitosa – Excelente, digo. Mais não tem sido porque moro longe do centro cultural brasileiro que são as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Lá, a grande imprensa. Estamos longe (e deserdados) da grande imprensa. Mas me sinto absolutamente bem “remunerado”.

 

 

Helena - Conhecendo o mercado livreiro no Brasil, o que tem a dizer sobre ele? Quais os seus defeitos e virtudes? Em que aspectos poderia/deveria ser melhorado?

 

Soares Feitosa – A Internet só tem aumentado a venda de livros. Veja, li, na WWW, algo sobre o físico (e humanista!) Richard Feynman. Imediatamente pedi, via WWW,,  os livros dele - seis, todos editados em Portugal. “Está a brincar, senhor Feynman?” é um livro estupendo e cuja leitura recomendo.

 

 

Helena - Conhece bem o Literário On Line? Que apreciação faz deste projecto quando na Internet  existe inúmeros boletins de divulgação literária? O que  diferencia  Literário On Line?

 

Soares Feitosa – O que diferencia o Literário On Line,  acima de qualquer coisa, é que ele é do meu amigo Roberto Pires... E, por isto mesmo, o melhor, sem defeito algum...

 

 

Helena - Como entende o papel do livro na formação cívica quando tantos países se queixam dos baixos índices de leitura? Daria algum conselho aos novos autores brasileiros no sentido de que a escrita se tornasse uma arte mais apelativa?

 

Soares Feitosa – Temos que acabar com as bibliotecas! Ou melhor, destruir as estantes! Criar uma lei proibindo livros em estantes, inclusive nas casas e nos escritórios. O túmulo do autor é uma estante! Botar os livros a circular... Por empréstimo, os livros rodando, girando. Este projecto está em Salomão. Nele (dentro de uma cela de uma prisão brasileira, o Carandiru) é fundada a grande Biblioteca sem um único livro... porque todos os livros estarão a circular. O terror do Bibliotecário é que um livro demore mais de 15 minutos na Biblioteca... A rigor, a Biblioteca será uma espetacular agência de correios “correando” livros. Fogo a todas as estantes, portanto!

 

 

Helena - Consegue eleger três escritores sem os quais a literatura do séc. XX nunca seria a mesma? Quem são eles?

 

Soares Feitosa - Só consigo botar nessa lista um único: Franz Kafka, exatamente porque todos os outros, por melhores que sejam, têm paralelos em outros séculos. Mas FK, não. É ímpar, único, o abismo em estado puro.

 

 

Helena - Muitos são os escritores que têm na escrita de ficção (seja romance, conto ou poesia) uma segunda ocupação. Ao longo do seu trajecto, que profissões já conciliou com a escrita?

 

Soares Feitosa – Todas! Vivo, ou pelo menos me esforço, para a transdisciplinaridade absoluta, inclusive agricultura, trabalhos manuais, jardinagem, puericultura, obstetrícia e tudo o mais o que há (e possa vir a existir) na velha humana telha...

 

 

Helena - Além de escrever, existem outras artes que ‘professe’: a pintura, a música, o cinema?

 

Soares Feitosa – Gosto muito do exercício de “mestre geral”. Sentar tijolos. Madeira. Gado. Gentes. Escola. Fazer, eu mesmo, livros manuais. Contabilidade. Pedra. Cimento. Cal. Gentes. Escrever cartas. Sentar e conversar. Gentes.

 

 

Helena - Pode deixar uma mensagem aos seus leitores?

 

Soares Feitosa – O Homem vive dois ciclos. Um, o ciclo íntimo, a intimidade; o outro, a alteridade. A harmonia entre ambos – entre o Eu e o Outro — me parece como sendo o único caminho da legitimidade. Quem disse que é fácil? Por exemplo, nesta entrevista: não seria justo deixar de reconhecer-me a meu trabalho como objeto da entrevista; mas não poderia, em nome só de mim mesmo, esquecer o Outro: a você — parabéns pelas belas entrevistas que tem feito! *(2) — aos meus leitores, ao Roberto Pires, aos amigos (aos inimigos também!); à Vida, em suma! Dosar as medidas? Quem é que sabe dosá-las?! Ando doido para aprender! Deixo um abraço.

 

 

* Nota da entrevistadora

* (2) Declaração mantida por se dever fidelidade às respostas do entrevistado

 

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