Helena
de Sousa Freitas entrevista:
LEILA
MíCCOLIS
Helena
- Ainda recorda os seus primeiros passos no cenário das Letras? Como
foram eles? Contou com algum apoio ou sobretudo com adversidades?
Leila
Míccolis – Fui tida como garota prodígio, pois aos 3 anos já fazia
quadrinhas e aos cinco trabalhava em rádio e TV. Porém, meu primeiro prêmio
literário foi aos dez anos, num concurso sobre Índios. A
partir daí gostei da experiência, entrei em outros certames e ganhei
diversos, sempre incentivada pela minha mãe. Nunca parei de escrever, mesmo
no tempo em que advogava. No entanto, abandonei a profissão para dedicar-me
inteiramente à literatura, em 1978. Aí, as adversidades foram financeiras:
abandonar uma profissão segura por outra totalmente incerta foi um ousado
contrato de risco. A partir daí, tive que navegar em outras áreas que não só
as da poesia ou dos concursos literários e aprender o ofício,
autodidatamente.
Helena
- Leila Míccolis tem exercido a sua escrita em diversos géneros literários.
Consegue eleger o seu favorito?
Leila
Míccolis – Sem dúvida a poesia... é minha menina dos olhos, meu
chamego, meu xodó, talvez até por ser o gênero literário mais rejeitado,
sob falsos slogans como o de que “poesia não vende”. Aqui no Brasil,
poetisa chegou a virar termo pejorativo... Depois, gosto muito de crônicas
(que, afinal, é a poesia do dia-a-dia, em prosa). Na Internet, no site
Edadrebil, tenho mensalmente uma coluna dentro de “Arbítrio”, chamada:
“Poesia toda prosa”, em que mostro os caminhos percorridos, na vida, pelo
poético. Se acede em
http://www.edadrebil.hpg.com.br.
Helena
- Como se sente por ter reconhecimento literário num país com tão
baixos índices de leitura?
Leila
Míccolis – Feliz, naturalmente, também por não ser uma escritora
restrita ao mercado editorial. Pertencendo, na poesia, à Geração 70, usei e
uso performances e eventos que utilizam a oralidade e não passam pelo livro
para chegar até o público. Lógico que livro é fundamental, mas há que se
fazer veicular por outros meios além das livrarias.
Helena
- Muitos autores consideram-na uma resistente por nunca ter deixado de
escrever e de utilizar a palavra para enfrentar os problemas. Concorda com os
que partilham desta opinião?
Leila
Míccolis – Eu me considero resistente, não por nunca ter deixado de
escrever, mas por usar a palavra da forma em que a uso, sempre tentando
desmistificar preconceitos, autoritarismos, apontando falsos moralismos e
hipocrisias sociais.
Helena
- Em que situações usar da palavra abertamente lhe causou transtornos políticos,
sociais ou de outra ordem?
Leila
Míccolis – Minha poesia sempre foi muito polêmica; se ela incomoda até
hoje, de início assustava ainda mais. Em plena ditadura militar, quando em
1978 eu escrevi Silêncio Relativo, mesmo sendo a edição totalmente paga por
mim, a gráfica não aceitou fazer o livro e, sob muita pressão, até
imprimiu, sem colocar seu nome, com medo de represália ou da apreensão da
obra.
E
olha que eu não falava abertamente sobre o regime mas, lógico, meu ciclo
familiar era um tanto inquietante, porque mostrava que política e repressão
começam dentro da nossa casa. Também tive vários poemas censurados em
Suplementos Literários e não só da época - até hoje, a primeira fase de
minha poesia (mais agressiva) é pouco divulgada.
Enfim,
minha poesia não é “pacata e acomodada”. Com menos ou mais humor, ela
questiona e mostra, muitas vezes, o ridículo de uma vida
alienada, consumista e cheia de protótipos.
Helena
- Além de escrever, dirige o site e a editora Blocos. Como concilia tantas
tarefas?
Leila
Míccolis – A direção não é só minha. É principalmente do Urhacy
Faustino, meu companheiro, a quem cabe toda a parte gráfica. Eu fico com a
seleção de texto, a parte mais agradável, a meu ver.
Realmente
o trabalho é grande: a Blocos acaba de fazer uma parceria internacional com a
Rickmarc Publishing, de Londres e nossa
revista eletrônica (que não é de uso apenas da editora, mas já conta ao
todo com 1500 poetas) é atualizada diariamente.
Felizmente,
esse trabalho coletivo é bem recompensado — no mês passado (agosto/2001)
tivemos 234.366 pages views, 45 países visitando Blocos. Aliás, convido
todos a conhecer e participar em www.blocosonline.com.br.
Não
lido, porém, apenas com esta parte, tenho também meus compromissos
profissionais como escritora, que não são poucos. No entanto, quando se ama
aquilo que se faz, o tempo, cúmplice, age a nosso favor. Só pode ser isto...
Helena
- Após reunir autores de todo o Mundo, organizar concursos e divulgar formas
alternativas de edição, que projectos tem para o futuro breve do site Blocos
Online?
Leila
Míccolis – Queremos transformar Blocos Online em um grande portal,
abrigando inclusive sites menores e menos visitados. No entanto, também
estamos procurando um patrocinador, para que possamos crescer mais rápido.
Blocos
Online nos sai muito caro financeiramente, é um espaço democrático cada vez
maior (com mais de 10.000 páginas). e portanto cada vez mais oneroso para
quem vive exclusivamente de literatura, como Urhacy e eu. Se pudéssemos
investir mais nele, atingiríamos um maior número de pessoas.
Por
mais incrível que pareça, Blocos é lido mais no exterior do que no próprio
Brasil, onde detém uma faixa de 23% a 25% de leitores. Assim, entre os
projetos prioritários, está o nosso desejo de reverter esta situação.
Já
inauguramos as seções de poesia-animada (em flash), poesia-ilustrada e
poema-objeto. Agora estamos estudando a implantação de um banco de dados e
de outros recursos úteis e práticos, para deixar nossa revista eletrônica
cada vez melhor.
Helena
- A escrita para televisão, que representou êxitos como 'Barriga de Aluguel'
ou 'Kananga do Japão' mudaram a sua projecção no palco literário
brasileiro? Em que medida?
Leila
Míccolis – Não digo que mudaram, mas ampliaram meu universo: acho que
me tornaram mais conhecida. No Brasil, uma autora que quer viver
profissionalmente de literatura, não pode ficar restrita aos direitos
autorais de seus livros, ainda mais sendo eles de poesia. Precisa partir para
outro tipo de veículos, que alarguem suas fronteiras. Foi o que aconteceu.
Tornando meu nome mais conhecido, naturalmente minha literatura ganhou com
isso também, pois é mais procurada e lida.
Helena
- Considera-se uma autora feminina, feminista ou ambas? Ou, pelo contrário,
nenhuma daquelas?
Leila
Míccolis – Principalmente feminista. Infelizmente o termo (igual a
“poetisa”) tornou-se pejorativo e as pessoas passaram a ter vergonha de usá-lo.
Para mim, feminista é todo ato que visa a ampliação dos direitos civis e
políticos da mulher. E, dentre esses direitos, está, inclusive, o do
esclarecimento de seu emocional, através do qual ela é tantas vezes
sutilmente manipulada.
Portanto,
minha poesia é feminista sim, embora não se dirija exclusivamente às
mulheres, mas a todos os que efetivamente querem a construção de uma vida
mais justa e saudável, em todos os sentidos.
Helena
- Uma autora consegue publicação, respeito e consagração com a mesma
'facilidade' que um autor? Ou subsistem diferenças assinaláveis?
Leila
Míccolis – Existem diferenças, lógico — facilidades e dificuldades
extras, a serem vivenciadas pelo “sexo frágil”. Julgo, contudo, que com
força de vontade, coragem e competência a mulher consegue furar qualquer
tipo de prevenção ou bloqueio.
Helena
- Em que aspecto a sua sensibilidade perante a vida se entrelaça com a veia
de escritora?
Leila
Míccolis – Eu sou daquelas que acreditam na coerência entre vida e
obra. Pelo menos comigo acontece assim: eu não saberia dividir-me
dicotomicamente, defendendo certos valores na minha obra e negando-os na vida
cotidiana. Acho que é por isso que minha produção poética, mesmo quando se
veste de tom irônico, tem um clima tão denso, tão forte e mobiliza tanto as
pessoas: é que ela não é mera ficção; ela é baseada nos princípios em
que acredito e numa postura de vida que investe, pessoalmente, nos valores que
dissemina.
Helena
- Consegue imaginar o Mundo sem Literatura e sem livros?
Leila
Míccolis – Meu mundo é feito de literatura e para a literatura,
porque, como Torquato Neto já afirmou, “escrever é apenas a ponta do
iceberg”. Então, sem livros, o
meu universo seria um deserto árido — território onde eu certamente não
gostaria de habitar.
Helena
- Tendo em conta que o gosto pela leitura depende muito da educação
ministrada às crianças, que livros podem, na sua opinião, incentivar os
mais novos e levar à formação de futuros leitores assíduos?
Leila
Míccolis – Antigamente só se incutia o hábito de leitura, lendo-se.
No mundo contemporâneo, porém, existem outros meios: a leitura de um livro,
pela mãe, de modo passivo, não terá tanto apelo quanto um animado livro
virtual em CD, ou um game interativo.
Então,
que a modernidade seja nossa aliada: encaremos certos jogos, como os de RPG,
como um poderoso incentivo para as crianças começarem a formular uma
linguagem narrativa própria.
Quanto
mais elas se embrenharem pela ficção, mais se sentirão motivadas a conhecer
outras histórias, até para criarem as suas. E aí, apresentá-las ao
infinito universo do mundo impresso, acrescentará uma nova alternativa a ser
descoberta e explorada por elas.
Com
relação ao tipo de livro ideal, creio que isso varia de criança para criança
e é necessário que se tenha bastante perspicácia para fazer-se a escolha
certa, ou seja, encontrar o livro mais “apetitoso” para cada leitor ou
leitora-mirim.
Helena
- Muitas vezes, numa determinada época e num determinado país, a literatura
tende a homogeneizar-se. Sente falta de alguns temas nas prateleiras das
livrarias?
Leila
Míccolis – Não, não creio nisso. Homogeneizar a literatura é o mesmo
que se falar em homogeneizar os seres humanos que a escrevem; na vida real, as
pessoas sempre serão diferentes umas das outras e exprimem a diferença de
posturas através de seus textos. Às vezes, apareceram até escolas literárias
e/ou movimentos predominantes, mas, mesmo dentro deles, a unidade é meramente
aparente. Veja, por exemplo: apesar de pertencermos à mesma Geração de 70,
cuja característica principal, a meu ver, era a linguagem coloquial e irônica,
pode-se colocar na mesma tendência à homogeneização as obras minhas, de
Paulo Leminski, de Alice Ruiz, de Nicolas Behr, de Touchê, de Ulisses Tavares
e de Glauco Mattoso? Claro que não. É que, em matéria de gente, cada cabeça
é uma sentença, e, portanto, uma forma de expressão diversa. Generalizar me
parece um tanto perigoso.
Quanto
às prateleiras das livrarias, creio que, no momento, o problema consiste não
na multiplicidade temática nos livros expostos mas na falta de leitores que
possam apreciar, entender e interessar-se por tão ampla variedade.
Helena
- Que projectos ocupam actualmente os seus dias? E a médio prazo, quais os
seus planos?
Leila
Míccolis – Atualmente trabalho na roteirização final de um filme
brasileiro (longa metragem), no crescimento de Blocos enquanto editora e
revista eletrônica, no término do meu 4º curso on line de roteiro de
televisão e no preparo dos meus próximos livros de poesia e de crônica. A médio
prazo, aguardo a tradução do meu livro “Sangue Cenográfico” para o inglês
e talvez aceite um convite para fazer novela no Japão.
Helena
- Qual a sua opinião tem sobre o Literário Online e o seu papel de divulgação
cultural?
Leila
Míccolis – Acho que é um trabalho precioso, feito com muita
honestidade, critério e amor. Obras como estas deveriam servir de exemplo
para que nossa cultura fosse mais difundida e mostrada em toda a exuberância.
Estão
de parabéns, portanto, o Prof. Roberto Pires e todos os da sua equipe. Meu
abraço a todos. Também quero agradecer a você, por tanta inteligência e
sensibilidade na formulação das perguntas desta entrevista. *
Helena
- Pode deixar uma mensagem aos seus leitores e espectadores?
Leila
Míccolis – Sim, com prazer. Fazer literatura em nosso país é um exercício
árduo. No entanto, para quem a ama de corpo e alma, não fazer é mais difícil
ainda. Portanto, lutemos pela regulamentação da profissão para a expansão
do mercado, batalhemos pelos nossos créditos e demais direitos autorais, e,
paralelamente a isto, não nos deixemos abater pelas críticas destrutivas,
pela falta de incentivos, ou pelas “pedras no caminho”.
Cabe
ao escritor da atualidade, disposto a redigir seus livros, vendê-los e
divulgar suas idéias, vencer primeiro os desafios que o separam da realização
plena do seu ideal.
Nota
de Helena de Sousa Freitas:
*
Esta referência directa à entrevistadora foi mantidas apenas por se dever
fidelidade jornalística às respostas de Leila Míccolis.
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