Helena
de Sousa Freitas entrevista:
RPIRES
Helena
- O Roberto Pires sempre admitiu ter uma preferência pelas crónicas. No
entanto, estas são muitas vezes consideradas um género literário menor ou
até um ramo muito particular do jornalismo. O que pensa sobre isto?
Roberto
Pires - Minha preferência pelas crônicas é um fato. Concordo também que é
um gênero apreciado pelos jornalistas. Só não concordo que seja menor ou
inferior a outras formas de expressão literária: é simplesmente diferente.
A
Literatura possui inúmeras facetas e esta diversidade, para mim, é uma de
suas belezas. Outra idéia errônea é considerar o trabalho jornalístico
inferior no campo das Letras, pois existem jornalistas tão bons que fazem
artigos de valor literário.
Helena
- Os seus textos relatam inúmeros episódios do quotidiano e revelam alguma
preocupação social. Na sua opinião, a escrita e a necessidade de uma maior
justiça e igualdade no Mundo andam de mãos dadas?
Roberto
Pires - Não obrigatoriamente, pois nem todos pensam ou escrevem assim!
No
entanto, para mim, o papel social do homem em qualquer atividade é uma
manifestação de sua formação humanitária. Geralmente me catalogo como um
contador de histórias da vida real e, como professor, sonho com uma sociedade
mais justa. Este é o reflexo do social.
Helena
- Pode falar-nos um pouco do livro de crónicas que está em vias de editar e
que tem prefácio de Rachel de Queiroz?
Roberto
Pires - Trata-se de uma coletânea das crônicas produzidas nos últimos três
anos que reflete e reafirma minha tendência literária de "Contador de
Histórias" com o título ‘Crônicas de Uma Vida’. É uma obra
despretensiosa.
Helena
- Acredita que num mercado literário já tão diverso quanto o brasileiro
existe, neste momento, espaço para novos autores?
Roberto
Pires - Acredito em novos autores e a prova disto é a existência de Literário
On Line. Na verdade, penso muito mais em bons autores do que em novos autores.
Sobre o mercado literário brasileiro, este
ainda pode crescer bastante desde que se trabalhe o hábito da leitura,
que em nosso país deixa muito a desejar.
Helena
- Quais são as principais dificuldades que se colocam, no Brasil, a um autor
desconhecido que se dirija a uma editora em busca de publicação?
Roberto
Pires - Seja no Brasil ou em qualquer outro país as dificuldades são as
mesmas: ninguém apostará seu precioso dinheiro em um novo autor. E este não
é um problema recente! Rachel de Queiroz que publicou o Quinze, livro sucesso
da Literatura Brasileira, teve que pedir dinheiro a seu pai para o editar.
Este primeiro passo o jovem escritor terá que dar sozinho! Esta é a única
dificuldade, mas que geralmente não o impede de prosseguir.
Helena
- A edição de autor, em que este custeia a publicação do seu livro, será
uma alternativa? E como se procede, num caso destes, à distribuição e
divulgação do título? E, ainda, como enfrentar as vozes críticas que
consideram esse livro uma 'obra paga' que pode não ter qualquer qualidade?
Roberto
Pires - Realmente esta é a solução para um novo autor! Quanto a sua divulgação
inicial, esta será por conta do "boca à boca!" Caso, o que é
quase certo, este não tenha dinheiro para contratar uma empresa especializada
em marketing!
Acho
que o grande trunfo podem ser os amigos! Um novo autor bem relacionado,
certamente encontrará o sucesso. Quanto a crítica, feliz do autor se esta se
manifestar! Vale lembrar o ditado: ‘Falem mal mas falem de mim’!
Quanto
à associação da publicação autocusteada com a qualidade, não creio que
se relacionem diretamente.O "Quinze" de Rachel de Queiroz foi auto-
custeado e foi e é sucesso!
Helena
- Como lhe surgiu a ideia de criar o Literário Online? E como tem sido
acompanhar o crescimento deste?
Roberto
Pires - Tudo nasceu por causa do Jornal da Poesia. Ao início teve lugar a
criação, com RBSotero e Carlos Cardeal, d’ O Literário em papel. Porém,
quando o Soares Feitosa, velho companheiro, mostrou o seu Jornal da Poesia na
Internet, sonhei em produzir ali algo parecido, embora menos formal. A idéia
era fazer nascer um fórum de publicação alternativo, para aqueles que
tivessem dificuldades com as publicações tradicionais.
Helena
- O Literário Online estabeleceu pontes entre o Brasil e Portugal. Esperava
isso quando iniciou este projecto?
Roberto
Pires - Não. A idéia inicial era um site somente com publicações
nordestinas. Mas a viagem de RBSotero a Portugal e a amizade feita com Helena
de Sousa Freitas estreitaram as
relações entre os dois países. Quem de fato trouxe o Povo Português para o
Literário foi Helena de Sousa Freitas! Justiça seja feita!
*
Helena
- Este órgão tem tentado sempre unir Cultura e Educação. Porquê esta
aposta?
Roberto
Pires - Nunca entendi a razão desta separação no Brasil! Como professor sei
que não podemos desvincular a Educação da Cultura. Um povo para ser educado
precisa de seu referencial de cultura, preciosa ferramenta do
ensino-aprendizado.
Helena
- Sendo presidente da Academia Camocinense de Letras, o que sentiu ao empossar
pessoas como Rachel de Queiroz ou Chico Anysio?
Roberto
Pires - A mesma emoção que senti ao empossar Helena de Sousa Freitas, Luís
Humberto Teixeira e Franco de Lagos: A grande alegria de ter, junto de nós, autores
como vocês, que puxam a Academia para cima, com força! *
Helena
- O Literário Online, a Academia Camocinense de Letras e a Academia
Municipalista de Letras do Estado do Ceará- ALMECE estão a estabelecer
algumas parcerias. Existem, a curto prazo, iniciativas conjuntas das três
entidades?
Roberto
Pires - A primeira parceria iniciada foi a publicação do Informativo
ACADEMUS da ALMECE na Internet. A Academia,
apesar de ter seu site próprio está, fortemente ligada ao Literário e à
ALMECE! Porém
a grande parceria é a Literatura! As três entidades possuem em seus
estatutos a Literatura como meta prioritária.
Helena
- Quais são os projectos futuros de Roberto Pires enquanto autor? E enquanto
editor do Literário Online?
Roberto
Pires - Enquanto autor, não tenho nenhum projeto pessoal. Aqui e acolá, se a
mãe inspiração ajudar, publicarei algumas crônicas.
Quanto
ao Literário On Line, está em vista a publicação em Espanhol, Inglês,
Francês e Italiano! Na verdade, na língua hispânica o processo já se
iniciou com a tradução das primeiras páginas em ordem alfabética, como é
possível confirmar na secção de Literatura Jovem.
Helena
- Quais são os autores brasileiros favoritos do Roberto Pires leitor? E
aqueles sem os quais a Literatura Brasileira não seria a mesma?
Roberto
Pires - Meus autores prediletos são Machado de Assis, José de Alencar e
Augusto dos Anjos. Do grupo mais moderno Rachel de Queiroz, Chico Anysio e um
autor que já marcou e marcará ainda mais sua época - Soares Feitosa!
Como
referência literária brasileira posso citar Rachel de Queiroz, com seus
noventa e dois anos de idade! Sem Rachel, acho que a literatura
brasileira não seria a mesma de hoje!
Helena
- Como pessoa ligada às Letras, o que é para si a Língua Portuguesa?
Roberto
Pires - Acho que sou suspeito para falar da Língua Portuguesa! Tenho paixão
pelo idioma português, seja ele falado aqui ou na Europa ou qualquer outra
parte do mundo. Sem este idioma a Literatura Mundial perderia uma grande parte
de sua beleza!
Ainda
sobre o assunto, certa vez em Nova Iorque, entrei numa loja para comprar um
telefone sem fio e dirigi-me à vendedora com meu inglês com sotaque latino!
Ao ouvir-me a moça colocou a mão em meus ombros e disse quase intimamente:
-Fale um pouquinho comigo na nossa Língua, a mais bela do mundo.
Fiquei
muito comovido e acabamos
conversando longamente, após expediente de trabalho da moçoila!.
Helena
- Muitos editores tradicionais criticam a publicação de textos na Internet,
alegando que são colocados "online" escritos que jamais passariam
nas selecções das editoras de livros em papel.
Qual
a sua opinião sobre o assunto?
Roberto
Pires - Nada é mais democrático do que a Internet e isso me agrada.
Entretanto,
cabe a nós, “WebMasters”, selecionar
a hierarquia destes trabalhos pela qualidade! Um bom trabalho publico na área
nobre do Literário On Line. Um trabalho com menos qualidade literária
publicamos numa outra área específica.
Agora,
escolher entre um bom trabalho ou não, esta é uma questão pessoal. De
qualquer forma, alguém que hoje escreve com dificuldades, se auxiliado, poderá
amanhã vir a ser um bom autor e esta chance não lhe deve ser negada!
Helena
- Que futuro preconiza para o livro em papel na era do multimédia e do
suporte digital?
Roberto
Pires - Apesar de ser um adepto da mídia digital, acho que o futuro do livro
só tende a crescer. O livro em sua forma tradicional é nobre e dá gosto tocá-lo.
Acho também que a mídia moderna em nada atrapalha, pois já me surpreendi
imprimindo livros eletrônicos para desfrutá-lo, calmamente, no conforto do
sofá.
Helena
- Que mensagem deixa aos leitores das suas crónicas?
Roberto
Pires - Que a Humanidade amadureça mais e que o amor predomine,
principalmente nestes momentos de incerteza, quando se avizinha um confronto
inevitável! Os EUA com risco de consertar um erro com outro erro e algumas nações
do Oriente Médio se comportando como “galinhos de briga” e esquecendo das
belezas do Alcorão!
Obrigado
a você pela oportunidade e posso dizer que me sinto muito honrado em ser
entrevistado por alguém como você que já entrevistou os maiores nomes da
Literatura da Língua Portuguesa!
*
Nota de Helena de Sousa Freitas:
*
Estas referências directas à entrevistadora foram aqui mantidas apenas por
se dever fidelidade jornalística às respostas de Roberto Pires.
Voltar