Entrevistada hoje:

Ana Luísa Peluso

 

 

 

Helena de Sousa Freitas entrevista: 

 

ANA LUÍSA PELUSO

 

 

Helena - Como se iniciou nesta aventura da escrita? (Idade, local onde vivia, contexto da ocasião e das primeiras letras publicáveis)

 

Ana Luísa Peluso - A escrita para mim sempre teve uma função ativa, ou seja, ela servia à princípio para relatar meu dia-a-dia em diários e agendas. Isso quando eu era adolescente. Mas mesmo antes, quando criança, já me aventurava a criar histórias. Como meu pai era escritor, e muito rígido em suas observações, eu rasgava tudo o que escrevia com medo de não ter sua aprovação. Então passei a me dedicar mais ao desenho (que servia também como instrumento narrativo de histórias, já que meu passatempo favorito era desenhar HQs) e ao artesanato.

Já aos dezessete anos, a escrita passou a ter um papel fundamental em minha vida. Vivi minha adolescência dentro de um regime de ditadura militar e quando dei por mim e pela liberdade que a democracia (?) pressupõe, me agarrei aos papéis e canetas com a voracidade de uma leoa e foi lá que comecei a vislumbrar as possíveis soluções que o mundo poderia ter: na escrita. Posso dizer que escrevo desde os 13 anos, mas meu encontro com minha escrita se deu aos 17. Foi nesse período que realmente descobri que escrever era algo mais natural em mim do que qualquer outra coisa.

O ambiente era minha casa, mas o ambiente interno era o de uma menina apaixonada por um rapaz que ia ser padre. Um amor impossível. Daí maior necessidade de escrever e relatar todo esse sentimento que ficou represado por grande período de tempo. O rapaz não se tornou padre. É dentista e não se casou. Mas me ajudou a encontrar uma ferramenta de investigação da vida e suas nuances diárias. Posso dizer que nesse período houve grande amadurecimento do pensamento, como idéia, como construção de cenas que foram se desenhando no papel, a princípio com a roupagem de crônicas, porque sou uma pessoa com enorme senso de humor, e depois através de ensaios. Os poemas surgiram muitos anos depois.

 

Helena - Abandonou a faculdade de Letras pelo desenho e as artes visuais. Depois de aprender a desenhar, reforçou o seu empenho na escrita. Sente-se dividida entre estas duas actividades?

 

Ana Luísa Peluso - Não. De uma certa forma, hoje percebo que elas se complementam, porque a escrita é um desenho de pensamentos. A arte de certa forma se interliga entre si. Unindo os dois, posso dizer que dá para construir grandes cenas. Entenda-se por cenas talvez um roteiro, já que para fazer um filme é necessário o story board antes. E enquanto aprimorava o desenho (que sempre esteve presente em minha vida) não pensava na escrita, porque no fundo me sinto uma artesã. Se não tiver caneta e papel, eu mexo com massa de modelar, se não tiver massa, eu faço dobraduras de papel. A escrita, ao longo de minha vida, era apenas mais um instrumento de expressão. Agora, na fase adulta, mais precisamente de seis anos para cá, ela se tornou a principal ferramenta.

O interessante é que meu primeiro sonho era ser publicitária (único vestibular de três que não passei), então estaria usando a escrita, o desenho, a criação, enfim, de alguma forma. Mas a matéria prima é e sempre será o ato de pensar.

 

 

Helena - Uma vez que se dedica em tempo integral ao site da Officina, como consegue recursos financeiros para o dia a dia?

 

Ana Luísa Peluso - A Officina do Pensamento não gera realmente lucro algum, e isso é uma pena, porque poderia crescer muito se obtivéssemos recursos para trabalha-la melhor. Principalmente porque nosso objetivo está estreitamente ligado a difusão da cultura, entre outras coisas. Vânia (Vânia Moreira Diniz) me auxilia no pagamento do servidor, provedor, enfim os gastos que temos com a Officina. Para me manter financeiramente, atualmente, faço home pages para empresas e profissionais liberais, mas sinto que não é o suficiente para me manter aqui nesse espaço onde propago meu trabalho como escritora. Se eu não conseguir um emprego (rindo) que me permita um ganho certo, é muito provável que precise parar mais dia, menos dia. Isso me entristece muito. Até porque vemos tantos auto-intitulados escritores vendendo milhões de páginas, sem qualquer tipo de literatura escrita nelas. E isso é uma realidade vivida principalmente no Brasil.

 

Helena - Os grandes acontecimentos do Mundo e os breves (mas grandiosos) momentos da vida quotidiana são muitas vezes abordados nos seus trabalhos. Podemos dizer que são 'tema recorrente' na sua produção?

 

Ana Luísa Peluso - Pode-se dizer que é o tema atual recorrente. Amanhã poderei estar escrevendo sobre outros assuntos, abordando outros temas. Mas o que mais me move hoje em dia em direção à escrita são os acontecimentos mundiais, do ponto de vista sociológico e filosófico. E a observação do mecanismo psicológico das pessoas e muitas vezes de mim mesma.

 

 

Helena - Com que objectivos nasceu a Officina do Pensamento (www.officinadopensamento.com.br) quando já existiam tantos sites sobre literatura e novos autores na Internet?

 

Ana Luísa Peluso - O mais engraçado é que apesar de escrever tanto, eu mal tinha tempo de navegar, pois até Dezembro do ano passado tinha uma empresa de design em sociedade com uma amiga. Esse projeto apareceu ainda nessa sociedade e foi o marco para o término da mesma, por divergências de pontos de vista. Foi nesse entremeio que percebi a quantidade de sites voltados para literatura que existiam. O projeto inicial era um site onde pudéssemos premiar contos através da net. Contratamos assessoria de imprensa,  gastamos dinheiro, mas o projeto não descolou.

Hoje, convivendo com amigos donos de projetos semelhantes ao da Officina,  noto a dificuldade em se levar tudo isso adiante. As pessoas não imaginam o trabalho que dá para fazer um portal do tamanho da Officina e muitos outros, maiores ainda, que existem pela rede. Pois mesmo contando com a ajuda financeira de Vânia, a arte, o html, enfim a montagem é feita aqui, em minha casa. E no momento faço isso sozinha. Por isso estamos elaborando uma maneira de crescer e podermos colocar mais pessoas para trabalhar na Officina. Mas podemos dizer que o grande objetivo da Officina é promover a arte, sem restrições.

 

 

Helena - De quem partiu a idéia da parceria Officina do Pensamento/Site de Vânia Diniz? Que iniciativas conjuntas se vislumbram para o futuro?

 

Ana Luísa Peluso - A idéia partiu meio que conjuntamente. Notamos que tínhamos os mesmos ideais. Isso bastou para que se estabelecesse uma confiança mútua e respeito imediatos. A partir daí, as coisas começaram a fluir por si só. A tendência é que os dois sites se unifiquem breve, formando um portal.

Nossas perspectivas são bastante arrojadas e podemos dizer que nosso projeto é ambicioso, do ponto de vista de existência, de permanência dentro da rede.

A Officina do Pensamento segue uma linha editorial própria e a tendência é abrir espaço para novos escritores e artistas, levando para o mundo real, através de eventos, a arte de cada um. Também temos perspectivas de iniciarmos campanhas contra a miséria, utilizando a web como meio de comunicação para isso. Sem falar na ecologia, educação, e tantos outros pontos nevrálgicos que nossa sociedade exibe nesse momento.

 

 

Helena -  Ana Luísa Peluso é uma mulher de ideais, o que se torna evidente na Officina. Essa vontade de mudar o Mundo, de ajudar os outros, é uma preocupação que mantém quando escreve?

 

Ana Luísa Peluso - Sim. Além de ideais, sou uma pessoa basicamente empreendedora. Não aceito ter idéias e não poder gerar trabalho  através delas. Mas o ideal sempre vai existir. O ideal não tem fim, porque quando conseguimos consertar algo, vai aparecer outra coisa necessitando reparos. O que chama de ideal, para mim é o moto-contínuo da vida. Quem não idealiza, não age. Apenas cumpre. E por vezes, mal cumprido. Por isso sinto a necessidade de empreender.

Sempre fui assim. Já tive empresa até de bijuterias, e ficava muito feliz por poder gerar empregos. Um país sem empregos não é um país. É quintal de outros países. Trabalho nós temos. Mas falta emprego. E principalmente entender que as pessoas não são obrigadas a cumprir algo que não lhes dê satisfação. Acho que a felicidade de cada ser humano está estreitamente ligada à vocação. Se alguém fizer o que gosta, a oportunidade de tudo dar certo é bem maior.

Mas respondendo mais precisamente, posso dizer que quando escrevo, sou livre. Então se amanhã ou depois meu gênio estiver às avessas e eu xingar a humanidade, em vez de carrega-la nos ombros de meus versos, continuo sendo eu mesma, e continuo sendo idealista até na bronca.

 

 

Helena - Alguma vez se sentiu tentada a optar por um género literário? Qual deles?

 

Ana Luísa Peluso - Sempre fui encantada pelas crônicas. Posso dizer que minha literatura se resume aos cronistas. Não sou uma pessoa "lida". Não tive acesso a isso, apesar de meu pai ser escritor. Ele era uma pessoa com um gênio pacífico, porém difícil de entender. Tudo (e pouco) que li, foi comprado por mim mesma.

Ele não me emprestava seus livros. Não me deixava lê-los. Não vejo problemas nisso, porque acredito mais na observação acerca das coisas do que em um documento. Apenas sinto falta de conhecer tantos escritores quanto a maioria de meus amigos conhece.

O poema foi uma surpresa, pois me julgava incapaz de escreve-los, e hoje não sei viver sem eles. Eu via os sonetos de meu pai, todos "dodecassilabicamente" (acabei de inventar o termo - rindo) corretos e pensava comigo mesma: "Não sei fazer poesia. Nunca saberei". Era uma dor interna.

Hoje entendo o porque da dor: a poesia queria sair, mas eu não deixava. Acho que meu gênero é meio multifacetado. Adoro poemas, crônicas e ensaios. Romance não me encanta tanto, porque sou apressada, e tive uma experiência frustrante nas três tentativas que fiz. Não conseguiria passar mais de um dia sem saber o final de minha própria história, e isso ainda me incomoda, porque parece que escritor só dá certo quando escreve romance.

 

Helena - Entre os grandes autores que o Brasil já deu à literatura universal, qual o seu favorito?

 

Ana Luísa Peluso - Apesar de ser fã de crônicas, eu tenho dois autores (cujas obras conheci há um ano e pouco) que resumem todo um sentido de vida. Um intra, mexendo e brincando com a psique, e outro cujos versos nos ensinam verdadeiras lições de vida quando nos mostram o que um poeta sente e como vê o mundo. São Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade, respectivamente. Geralmente eu choro quando leio Drummond.

 

Helena - Como vai o livro que estava em vias de editar? Já pode contar-nos algo sobre ele?

 

Ana Luísa Peluso - Um dos três romances que comecei a escrever, quase chegou ao final. Essa foi a notícia que propaguei pela web. Acreditava que conseguiria termina-lo. Mas com o passar do tempo, minha ansiedade e principalmente a densidade do texto mexeram tanto comigo que achei melhor parar e deixar para outra ocasião. O texto é extremamente forte e toca-me profundamente.

Escrevi por alguns dias, e toda vez que terminava um trecho parecia-me que havia sonhado e vivido aquilo tudo. A coisa não saía de minha mente. Aí percebi que não estou madura para isso. Preciso aprender a lidar com a ansiedade, ter tempo para me dedicar à obra e dinheiro para poder escrever com calma. Senão estaria comprometendo a história apenas para editar um romance e isso eu não faria nunca. Não faria sentido essa pressa. Seria como profanar algo sagrado, porque quando escrevemos utilizamos elementos do inconsciente coletivo para criar nossos personagens, e gente para mim, é algo divino, sagrado mesmo.

Mas, em contrapartida, tenho pelo menos três livros de poemas aguardando um certo equilíbrio financeiro para poderem ir para o prelo. Acho que meu começo teria de ser por aí, mesmo.

 

Helena - Ana Luísa gostaria de viver de e para a Literatura. No Brasil é fácil para um autor conseguir tal estatuto?

 

Ana Luísa Peluso - Ana Luísa não é idealista (rindo), Ana Luísa é utópica. Quando escrevi essa asneira, achei que seria algo possível. Hoje percebo que é uma utopia que poucos conseguem transformar em realidade. O Brasil é o pior país para um escritor morar porque nossa cultura é subeditada. Não temos dinheiro para difundir a literatura em um nível onde todas as anas luísas pudessem ser lidas. Se você tem uma certa quantia para comprar um livro não vai consumir um autor desconhecido. Poucos se aventuram a ler desconhecidos. E é uma pena. Temos escritores excelentes no Brasil guardando seus textos na gaveta, enquanto temos muitos sucessos de vendagem que não acrescentam nada, nem à literatura, nem ao ser humano.

O caminho é sempre o mesmo: conhecer alguém que conhece alguém, que por sua vez conhece alguém que pode ler algo seu, e levar para outro alguém que tenha uma editora. Ou fazer cópia de seus livros e sair vendendo, como fazia Plínio Marcos, no início da carreira, no bairro do Bexiga. Ou ainda editar seu livro, às próprias custas e rezar para cair nas mãos certas.

Esses são os caminhos. Não existem outros.

 

 

Helena - Que opinião tem sobre a postura das editoras face aos novos autores?

 

Ana Luísa Peluso - Acho uma postura correta, do ponto de vista empresarial (temos sempre de lembrar que o dono de uma editora é um empresário antes de tudo e a empresa tem de dar lucro), no sentido de não arriscar dinheiro com alguém que pode não "funcionar". Mas se ninguém arriscar, como poderá saber se naquele livro não estaria nascendo um grande nome da literatura? O que acontece no Brasil é o fator mídia. Se você aparece na mídia e resolve se tornar escritora, tudo fica mais fácil.

Então a gente vê biografia não autorizada de gente famosa, romances sendo contados por ghost writers, mas literatura boa, muito pouca.

Se eu tivesse uma editora, editaria um desconhecido por ano. Mas estou falando de edição com todo o aparato de divulgação. Sem divulgar, não funciona. Isso seria um começo. Um bom começo, por sinal.

 

 

Helena - Considera que a Internet constitui uma forma alternativa de editar?

 

Ana Luísa Peluso - Sim. Mas acho principalmente que a web é um caminho para uma nova corrente literária. Vamos ser muito lidos, todos nós. Porque um dia isso será reconhecido como um espaço que abriu as portas para quem não podia editar. Isso por um lado me felicita, por outro me irrita. Me agrada pelas chances de igualdade, mas me atormenta porque a tendência das pessoas será se acomodarem aqui e, o pior, as editoras sempre preferirão editar e-books do que livros reais, por serem mais baratos. Então o escritor perde mais uma vez nesse jogo. Além das editoras virtuais já existentes, as físicas estão vindo para cá, e isso tira a oportunidade de um escritor de web ser um escritor de livros, o que faz muita diferença.

 

 

Helena - Que avaliação faz dos e-books, ou livros electrónicos, ao nível de sucesso, leitores, formato, etc? Já pensou em editar assim o que escreve?

 

Ana Luísa Peluso - Não posso fazer uma avaliação profunda, porque não me aventurei ainda a ler um e-book por completo. Alguns dos que comecei a ler em formato pdf, perderam a graça, justamente por ter de ficar a mercê da barra de rolagem, na tela do computador. Livro tem de ser impresso. O computador é bom para escrever. Mas um fator interessante me chama atenção. Ler os textos em sites é bem mais agradável do que em e-books. Acho que o formato pdf não é  ainda "aquela receita do bolo!". O primeiro que estou lendo é o de Vânia (Olhos Azuis), que não é em formato pdf mas, ainda assim, acredito preferir o papel.

 

 

Helena - Acredita que os projectos educativos e culturais na Internet despertam a atenção dos cibernautas? Em que medida o modelo de escrita e leitura que a Net permite é uma forma de combater a baixa taxa de leitura?

 

Ana Luísa Peluso - Ainda não estamos sequer perto de combater essa taxa baixíssima. Porque um computador (para o padrão de vida brasileiro) é um bem de consumo caro. Mas acredito em projetos culturais pela web, sim. Principalmente quando as grandes empresas perceberem que apoiando esse ou aquele projeto (desde que seja realmente um projeto) podem contribuir para a massificação da cultura. O governo teria de se interessar em conceder benefícios fiscais aos empresários que apoiassem esses tipos de projetos. Se aparecer alguém interessado, eu tenho, no mínimo, três (rindo)!

 

 

Helena - Que opinião tem do Literário Online (www.literario.com.br)?

 

Ana Luísa Peluso - Acho que o literário tem um conteúdo forte e crescente, e com muitas possibilidades de sucesso pois, me parece, há uma parceria  com o governo do estado no setor de educação. Isso já é um grande passo para um projeto. Como tenho muitos amigos que escrevem para o Literário, estou sempre navegando por lá, e vejo a cada dia o crescimento do site. Outro dia estive lá e me perdi, dado o aumento de conteúdo que ele sofreu nos últimos tempos. Desejo ao Literário e ao seu editor RPires o sucesso merecido, porque não podemos ter outro sentimento para com quem faz um trabalho sério e, principalmente, usa a literatura como forma de educar. Nesse ponto temos tudo em comum!

 

 

Helena - Que mensagem deixa aos seus leitores?

 

Ana Luísa Peluso - Minha mensagem sempre será a do respeito humano. Não temos o direito sequer de discriminar o gênio de alguém. Se uma pessoa é geniosa, ou pedante, ou até arrogante (o que é uma lástima) é um direito dela ser assim. Mas não significa que devemos ser da mesma forma. Cada um dá o que tem. Tem-se amor, dá-se amor. Se a pessoa não tem, vem até nós, em busca.

Não podemos marcar as pessoas por suas características pessoais. Isso é fascismo. Cada pessoa é o que pode ser no momento. Como sou espiritualista, acredito que cada um faz, num momento, o que pode fazer, o que está ao seu alcance. Cada um é o que pode ser e tudo o resto é e sempre será uma farsa.

Uma frase pode resumir isso: Não faça o coração de ninguém bater mais do que deve, a não ser por uma boa emoção.

Ana Luísa Peluso

 

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