Helena
de Sousa Freitas entrevista:
RAIMUNDO
BENTO SOTERO
Helena
- Como tomou conhecimento do EisPoesia, festival de poesia que teve lugar em
Portugal em 1999 e que deu início a uma maior ligação do Literário(Jornal
papel) com este país?
RBSotero
– Descobri pela Internet e recebi um convite da Gérmen – Associação
Cultural, entidade que organizava o festival, para participar. Aceitei e
enviei os meus trabalhos, tendo vários amigos de Camocim decidido apoiar a
minha ida a Portugal.
Helena
- O poeta acumula prémios, homenagens e menções não só no Brasil como no
estrangeiro. Há alguma receita para este sucesso?
RBSotero
– Não há receita. Acredito que os júris têm sido muito generosos comigo.
(risos)
Helena
- Muitos escritores praticam outra forma de arte, como a pintura ou a música.
Alguma vez se sentiu tentado por elas ou pratica alguma?
RBSotero
– Não. Gostaria até de tocar algum instrumento, mas sou inapto, essa é a
verdade.
Assim,
fico-me pela poesia e prosa. Inspiro-me na desordem, no caos, no drama e,
muito, no aspecto social da vida.
Helena
- Dado o cariz por vezes regionalista dos seus escritos, se não estivesse em
Camocim a sua escrita seria diferente?
RBSotero
– Mesmo que estivesse numa cidade grande eu escreveria com toque rural, bucólico.
Eu cresci numa fazenda, sou um típico ´menino de engenho´, como diria José
Lins do Rego.
Helena
- Enquanto poeta com anos de actividade, como é assistir, em Camocim, ao
nascimento de novos talentos Helenas?
RBSotero
– É muito bom porque me sinto precursor na área literária na região. Na
altura fui visto como meio louco, o que hoje em dia já não acontece quando
surge um novo autor. Na minha opinião, o Inácio Santos é um desses novos
talentos, um bom prosista.
Helena
- Ao longo da sua carreira literária, que autores o influenciaram?
RBSotero
– Fui influenciado pelo livro ´Eu´, de Augusto dos Anjos, depois pela obra de Cruz e Sousa, introdutor do
simbolismo no Brasil. Em seguida li ´As Flores do Mal´, de Baudelaire, que
muito me impressionou.
Helena
- Nos seus textos e poemas surgem com alguma insistência a morte e o amor,
havendo até casos em que a depressão e a angústia estão de mãos dadas com
o erotismo. Porquê a opção (se se tratar de opção e não de algo que
simplesmente ultrapassa o ofício da escrita) por estes temas?
RBSotero
– A morte fascina-me e impressiona-me, mesmo ao nível do suicídio, dos
cemitérios, das lápides, sobretudo em dias de chuva. É mórbido, mas é
assim.
Do amor não gosto tanto de falar, nem mesmo me inspiro nele. São as contingências
da vida que levam o amor aos meus versos.
Helena
- Em regra, a poesia de RBSotero segue as linhas clássicas.
Uma questão de gosto, de talento ou por qualquer outra razão?
RBSotero
– É de fato uma questão de gosto, pois o talento é pouco. Aliás, aqui no
Brasil quem escreve sonetos é tido como medíocre, como fazedor de versos e não
como poeta. Contudo, eu aprecio as linhas clássicas da literatura. Adoro o
soneto, sou-lhe fiel e não consigo escrever poesia sob outra forma.
Helena
- Como comenta a "poesia de molde mais livre", aquela que não
respeita a rima, a métrica e que pouco utiliza os recursos estilísticos da língua
portuguesa?
RBSotero
– Tenho o maior respeito por esse tipo de poesia. Aprecio sobretudo os
trabalhos poéticos de Cecília Meireles, Mário Quintana e Carlos Drummond de
Andrade.
Helena
- Alguma vez sentiu necessidade de escrever para criar uma vida paralela ao
seu quotidiano? Ou escreve para mudar algo nos outros e no Mundo?
RBSotero
– Nem uma coisa, nem outra. Sendo franco, eu escrevo para mim. Se eu gostar
já fico feliz comigo próprio - para mim está excelente. No entanto, se
algum leitor gostar, aceito o caso com satisfação. No que diz respeito à crítica,
não me preocupo de todo com o que julguem da minha poesia. Todavia, em relação
à prosa o caso é diferente, pois aí escrevo também para os leitores.
Helena
- Dos livros que já escreveu, qual lhe diz mais
actualmente?
Porquê e em que aspectos?
RBSotero
– Posso falar antes dos que me dizem menos, dos que me envergonho de ter
escrito - ´Versos Retorcidos´e ´Versos Sinistros´- pois são demasiado
pesados, macabros.Pelo contrário, gosto muito do ´Poesia Alguma´, pelos
seus versos mais claros, mais abertos às pessoas e à vida, e também aprecio
o ´Tapera´.
Helena
- E para quando um novo livro de RBSotero?
RBSotero
– Estou neste momento com um livro no prelo, o ´Rosa dos Ventos e Outras
Rosas´, que segue a linha do ‘Poesia Alguma’ mas é mais maduro.
Considero-o um bom livro e deposito bastante esperança nele, do qual destaco
o poema ´Apesar´.
Helena
- Tem algum livro em formato electrónico (e-book) ou planeia vir a ter?
RBSotero
– Não. Sou muito tradicional, à antiga, e gosto de folhear um livro, de
lhe cheirar o papel e a tinta, em suma, de o Sentir!
Helena
- Como membro da casa de 'Literário On Line', qual a sua opinião sobre o
jornal em papel e digital?
RBSotero
– Como anteriormente referia, eu sou muito preso ao papel. De qualquer
forma, compreendo e aceito que ´Literário" em papel é limitado e que não
consegue superar a omnipresença do jornal em suporte digital, que pode mais
facilmente ser consultado a partir de qualquer ponto do Mundo e que não
depende da tiragem.
Helena
- Considera a Internet um meio eficaz de divulgação literária?
No seu caso, o que mudou depois de ter colocado os seus poemas e prosas online?
RBSotero
– Considero um meio eficaz de divulgação, apesar da minha nostalgia, e sem
dúvida que a Internet ajudou na projeção dos meus escritos. Nesse campo,
agradeço o trabalho que o Professor Roberto Pires fez com vista a levar o meu
nome além-fronteiras.
Helena
- De um modo mais geral, em que é que a Internet tem transformado os hábitos
de leitura das pessoas?
RBSotero
– A grande rede facilita o acesso a muitas e grandes obras. Porém, os
leitores internautas não se prendem aos textos disponíveis na Net como
sucede com os leitores do livro tradicional. Talvez isso se deva à grande
variedade de sites de literatura, que motivam o surgimento do ´leitor-passarinho´, aquele que lê como quem petisca, sem
se demorar.
De
qualquer modo, não há dúvida de que o ato de colocar os textos na Net ajuda
a dar a conhecer um poeta, um contista, e permite a interatividade
leitor-autor.
Helena
- Que mensagem gostaria de deixar aos seus leitores, aos que admiram a sua
obra?
RBSotero
– Quero apenas agradecer a deferência de gostarem do que escrevo.
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