Francisco Simões

 

 

SEM  TETO





Como aceitar que a vida é bela
Se me tomaram a porta e a janela,
Se minha alma, sonhos e planos
Foram emboscados numa esparrela.
Sonhos e planos, minha utopia,
Minha doce e fiel fantasia
Que noite e dia me sustentava
Para eu não me afogar na hipocrisia
De tudo que eu via e ouvia,
Que me agredia e me desdourava
Visto que tudo que eu sentia
A ninguém, a ninguém mesmo importava.

Como aceitar que a vida é bela
Se ergueram entre mim e ela
Tantas barreiras,  tantos muros
Que não pulo,  que nem calculo
Se pelo menos do outro lado
Ainda há flores nos jardins.
No meu chão só há concreto,
Vivo perto dos confins,
Plantam temores e colho dores
Do presente e do passado,
Despetalando  um futuro incerto.

Como aceitar que a vida é bela
Se eu não passo de uma tela
Na calçada, um quadro mal pintado
Desprezado por quem passa,
Açoitado pela indiferença,
Confinado na desgraça,
Sufocado na descrença.

Autor : Francisco Simões ( Nov./ 2000)

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