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AS
CAMARINHAS
Tinha mais ou menos seis anos. Com a minha mãe percorria os medos (médões
ou dunas) que se sobrepunham
à praia
do Monte
Clérigo. Adorava apanhar camarinhas. Redondinhas,
leitosas e às
vezes com
uma cor rosada. Muitas pessoas, na época em
que estavam
maduras, deslocavam-se àqueles montes de areia para colherem aqueles
saborosos e delicados frutos. Abundavam ali as
camarinhas silvestres!
Algumas pessoas iam apanhando e comendo, outras
colhiam-nas para fazer doce e geleia e, outras ainda, diziam, que as davam
às galinhas.
Porque razão davam um fruto tão saboroso e delicado
às galinhas
eu, criança ainda, não conseguia entender. Talvez
fosse por
isso, que um
dia, estando sozinho em casa, encontrei numa gaveta um
colar de pérolas que a minha irmã tinha começado a enfiar
numa linha
de pesca e
depressa associei as
pérolas às
camarinhas. Peguei
então uma
mão cheia delas e atirei-as às galinhas.
Os bicharocos debicaram
uma ou
outra mas não
comeram nenhuma.
Hoje, decorridos
quase sessenta
anos, recordei este episódio!
Recordei e dei comigo
a pensar
naquela frase que desde pequenino ouvia quando fazia
asneiras. “Estúpido que
nem uma galinha!” Na
verdade, as
galinhas de
há sessenta
anos, como as que temos hoje,
não sabiam
apreciar pérolas.
Não sabiam
que as pérolas eram um composto de carbonato de
cálcio, cálcio
que lhes seria muito
útil para
melhorarem a sua
postura. Não
sei se
as galinhas de hoje
ainda comem
camarinhas, mas pérolas,
naturais ou
de cultura, tenho a certeza que não as comem. Continuam estúpidas!
As galinhas!
Fernando
Santos
3/4/2001
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