Fernandos Santos

                                    

                  

                          

     

AS CAMARINHAS

 

Tinha mais ou menos seis anos. Com a minha mãe percorria os medos (médões ou dunas) que se sobrepunham  à  praia  do  Monte  Clérigo. Adorava apanhar camarinhas. Redondinhas, leitosas e  às  vezes  com uma cor rosada. Muitas pessoas, na época em  que  estavam  maduras, deslocavam-se àqueles montes de areia para colherem aqueles  saborosos e delicados frutos. Abundavam ali as camarinhas  silvestres!  Algumas pessoas iam apanhando e comendo, outras colhiam-nas para fazer doce e geleia e, outras ainda, diziam, que  as  davam  às  galinhas.  Porque razão davam um fruto tão saboroso e delicado  às  galinhas eu,  criança ainda, não conseguia entender. Talvez  fosse  por  isso, que  um  dia, estando sozinho em casa, encontrei numa gaveta um colar de pérolas que a minha irmã tinha começado a enfiar numa  linha  de pesca   e  depressa associei as  pérolas  às  camarinhas.  Peguei   então  uma  mão cheia delas e atirei-as às galinhas.  Os  bicharocos  debicaram   uma  ou outra mas  não  comeram  nenhuma.  Hoje,  decorridos  quase  sessenta anos, recordei este episódio!  Recordei e dei  comigo  a  pensar  naquela frase que desde pequenino ouvia quando fazia asneiras. “Estúpido  que nem  uma   galinha!”  Na   verdade,  as  galinhas  de    sessenta  anos, como as que temos hoje,   não   sabiam  apreciar  pérolas.  Não  sabiam que as pérolas eram  um  composto de carbonato de  cálcio,  cálcio  que lhes seria muito  útil  para  melhorarem a  sua  postura.  Não  sei  se  as galinhas de hoje  ainda  comem  camarinhas, mas pérolas,  naturais  ou de cultura, tenho a certeza que não as comem. Continuam estúpidas!

As galinhas!

 

                                   Fernando Santos

                                     3/4/2001