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Quadro à oleo de Phillip Hallawell |
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O
FIM DO MUNDO
No século XVI da era cristã, o francês Michel de Nostredame, mais conhecido como Nostradamus, previu, em suas famosas Centúrias, que o mundo não emplacaria o ano 2000. Tudo viraria poeira a poucos instantes do ano-novo. O tempo refugaria os paus da porteira do terceiro milênio, que nem burro quando empaca... seria o fim de tudo! Desde menino, no tempo das estórias da besteira, contadas pelo avô do amigo DIM, ouvia falar disto e tinha medo: este tal de Nostradamus era o diabo! o bicho acertava tudo, e toda vez que se confirmava mais uma das suas previsões, o meu medo aumentava até virar pavor. Para piorar a situação, vinha o Apocalipse com seus cavaleiros alados, suas espadas de fogo, suas sete trombetas etc. Isto sem falar do imaginário popular com seu mar de fogo e suas mulas-sem-cabeça... Não havia uma tábua de salvação para o mundo, tudo viraria beiju-de-caco, pois assim estava escrito nas profecias, nas Sagradas Escrituras, nas pichações dos loucos nos muros, como dizia o profeta Raul Seixas, de saudosa memória, no que era asseverado pelo poeta Zé Limeira.Foi assim que cresci, ouvindo estas histórias do fim de mundo, bolas de fogo, o diabo-a-quatro! Fiquei adulto, e o mesmo cantochão. Envelheci, e a mesma ladainha. Era natural, pois, que eu e toda a minha geração estivéssemos apreensivos com a chegada do ano-bom. Pelo Natal, nossa angústia já era coletiva e havia um desassossego no ar. As pessoas andavam apressadas sem se notarem, sem se falarem, como se fossem teleguiadas. Só se ouvia o suspiro uníssono da multidão, como se carregasse um monstruoso fardo. Os famosos Paus-de-arara (caminhões improvisados com rústicos assentos e tosca lona pela carroçaria para transporte dos romeiros que vinham da roça) não apareceram, como nos anos anteriores, para a Missa do galo. A bem da verdade, não se viu nenhum deles pela rua. Aqui e ali, uma camioneta assim paramentada: uns gatos pingados! contava-se nos dedos de uma única mão! Pelo visto, o povo do Guriú, Tatajuba, Torta, Papagaio, Amarelas, Jericoacoara etc. tinha a pulga atrás da orelha, e com razão! Veio o fim do ano, e, na televisão, a todo instante, era mostrada uma reportagem na caixa-pregos, onde o povo da região se preparava para o juízo final, martirizando-se com instrumentos de tortura e cantando medonhas ladainhas. O bendito era cantado entre golfadas de sangue dos supliciados. As palavras saíam mutiladas, e, vendo-se aquela autoflagelação, as costas abertas por chicotes de navalhas, julgava-se que o deus deles era um deus tenebroso e sanguinário. E aquilo tudo ainda mais nos metia medo. O que se podia esperar de um deus assim? Boa coisa não poderia ser! Foi neste clima de suspense e terror que entramos no fatídico 31 de dezembro de 1999. Os rádios berravam anunciando o fim do mundo! As TVs mostravam o fim do mundo! Os jornais traziam em letras garrafais o fim do mundo. As pessoas ouviam, viam e liam o fim do mundo a todo instante e em toda parte.. O noticiário da noite foi incisivo: "Não sobrará pedra sobre pedra". Nessa altura, o meu medo já não era mais medo, não havia palavras para descrever a contento o que eu sentia. Pensei até em suicídio, só para não ver o fim do mundo; mas, felizmente, desisti de tal idéia. Aterrorizado, fui consultar o relógio. Era perto da meia-noite e eu não queria morrer na solidão da minha casa; por isso, saí apressado pelas ruas, procurando alguém para compartilharmos juntos a nossa desgraça; mas a cidade estava deserta e as portas cerradas. A tempo, lembrei-me de Bom Jesus dos Navegantes, nosso Padroeiro, e rumei para a Igreja Matriz. Isto! Se era para morrer, morreria pelo menos num lugar sagrado. Esse ato, quem sabe, não me abriria as portas do céu, apesar das cargas de pecado que eu carregava às costas! Apertei o passo para não perder a hora e quando virei na esquina da Dr. João Thomé, só vi foi aquela multidão comprimida no pátio da igreja. Todos os viventes do mundo, de menino de colo a velhos senis, estavam naquele mar de gente. Acho que toda a humanidade pensou como eu e ali estava. Consultei o relógio da torre: faltavam cinco minutos para o fim de tudo. Os ponteiros eram espadas ameaçadoras que se cruzavam sobre nós, e o pêndulo, um machado que em seu curso, toda vez, ia decepando com seu fio o fio da nossa esperança na "sucessividade dos segundos", como dizia Augusto dos Anjos. Faltando um minuto para o desespero, uma nuvem ameaçadora cobriu toda a cidade, não se sabe como; fez-se do nada, de repente! Isto gerou o pânico geral, e antes da contagem regressiva para o impossível 2000, como estava previsto, Deus ordenou que seus cavaleiros de fogo saíssem de dentro da nuvem, onde estavam postados como guerreiros para a batalha e destruíssem tudo. Soaram as trombetas do Apocalipse, e três bombas foram lançadas sobre o templo. O fogo irrompeu na torre da igreja e rapidamente alastrou-se por toda a cidade, das Barreiras à Olinda; dos Apossados aos Coqueiros, devorando tudo com uma fúria jamais vista. As labaredas pareciam ter vida e vontade próprias. Entravam numa rua, saíam noutra, dobravam esquinas e invadiam as casas, sem cerimônia, reduzindo tudo a um montão de cinza. Às vezes, o mar de fogo canalizava-se por uma rua mais estreita e arrastava tudo atrás de si: vigas e portas eram arrancadas com violência, veículos eram suspensos no ar como brinquedos, pessoas voavam no turbilhão e se sumiam na voragem. Sob o terror das chamas, chorava menino, chorava homem, chorava mulher. No desespero do fim, inimigos de sangue a fogo se falavam, dando fim a longos litígios. Dívidas impagáveis eram perdoadas. Velhas rixas eram esquecidas. Traições insondáveis eram confessadas... e perdoadas! Tudo isto para que as portas do céu se abrissem. Perdiam uma vida, mas não queriam perder a outra. Sabiam morrer assim os que viver não souberam, como diria o poeta! Em menos de um minuto, tudo foi destruído. Não restou pedra sobre pedra, como estava escrito há dois mil anos, e não sobrou um único vivente para contar a estória e repovoar o mundo, pois Deus, cansado de tentar consertá-lo, resolveu descansar dele de uma vez por todas. Também não teria mais jeito! Isto, leitores, é o que poderia ter acontecido na passagem para o ano 2000, como era anunciado por tudo e por todos; mas assim não foi, graças a Deus, que é bom e misericordioso e continua tentando consertar tudo isto aqui, apesar de tudo! Eta mundinho cão! O l999 (ou seria 1,99) entregou o comando ao 2000 sem grandes atropelos, salvo os de sempre, de conhecimento geral. O que de fato aconteceu por aqui foi o temporal na noite do dia três de janeiro (três dias após o fim do mundo) quando um raio caiu na torre da Igreja Matriz, danificando a estrutura e o relógio da mesma. Só isso! Mas já pensou se tal fato tivesse acontecido na noite do fim do mundo! Até hoje grande parte do mulherio ainda carregava as marcas de pneu pelas costas, por conta das traições anunciadas. Graças a Deus também isto não se deu. Seria muito divórcio! Seria divórcio demais! Seria divórcio como o diabo! Por falar em traição, lembrei-me de um amigo (não digo o nome para não dar confusão, como dizia o Gerardo Brito nos tempos dos Sonoros Pinto Martins) que diz que, num triângulo amoroso, o mais corno de todos não é o marido e sim o amante, pois aquele tem sempre a senhora dele a tempo e a hora e vive com ela aos beijos e abraços, além de outras ostensivas carícias, enquanto este só a tem por breves e desesperadores momentos, como um ladrão! Ufa! Como escapamos por pouco, até outro fim do mundo. Só espero que ele seja tão bom como este que não houve e que se dê na companhia dos mesmos amigos deste: Ana Maria, Rômulo, Antônio Manoel, Roberto Pires, Aninha, Dr. Rogério, Dr. Gladstone, Dr. Meireles, Valdecinho, Dr. José Maria, Dra. Sônia, Antônio Filho, Zé Maria, Betinha, Valdete, Dito, Mudo, Maria, Érica... enfim, toda a mundiça de sempre!
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