Soares Feitosa


Femina
 
      Não lavei os seios 
    pois tinham o calor 
      da tua mão. 
       Não lavei as mãos
    pois tinham os sons 
       do teu corpo.
       Não lavei o corpo
    pois tinha os rastros
       dos teus gestos;
    tinha também, o meu corpo,
       a sagrada profanação
    do teu olhar
       que não lavei.
      Nem aqueles lençóis,
    não os lavei,
      nem os espelhos,
    que continuam
      onde sempre estiveram:
    porque eles nos viram
      cúmplices, e a paixão,
    no paraíso, 
      parece que era.
      Lavei, sim, 
    lavei e perfumei
      a alma,  em jasmim,
    que é tua, só tua,
      para te esperar
    como se nunca tivesses ido
      a nenhum lugar:
    donde apaguei
      todas as ausências
    que apaguei 
       ao teu olhar.
       
       

      Salvador, madrugada alta, 6.10.95


      (Este poemeto, no modo mulher, é uma variante -
      e homenagem -  poema Lembranças,