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Gêmeas
eram as senhas das torres gêmeas
ou
O
homem limpo de coisas é a medida do homem
Guardo
no memorial dos olhos um velho trem, numa tarde de quase sol
posto, entre Senador Pompeu e Quixeramobim, Ceará, comigo dentro
dele. Éramos eu, minha mãe e tio (Adaucto), mais algumas
centenas de passageiros e outro quase tanto de bichos de vasta
fauna. Num ranger súbito, lá se estava o velho trem a se
espatifar lá embaixo, ali na curva: dez, os mortos.
Ah,
meu caro leitor, se você estivesse aqui agora, veria com seus
olhos o meu arribar de beiço, fazendo o gesto: "ali",
e, com as mãos, a virada do trem, pei-pei!
Contente-se pois com meu descrever canhestro e amplie tudo com sua
imaginação, por favor.
Uma
montanha de feridos, inclusive minha mãe, um galo de sangue na
testa, do tamanho de um limão, lá nela, tonta e zonza por quase
um mês. Eu, uns 16 anos, forte como um bicho bruto, ganhei apenas
umas boas pancadas nas costelas — para aprender a andar de trem!
—, mangofava o tio, Adaucto, que ganhara só uns arranhões,
dizendo que a cerveja o salvara, no que a irmã (minha mãe)
recriminou:
—
Foi
Nossa Senhora, meu irmão, quem nos salvou! — E, ligeira,
benzeu-se três vezes e três vezes beijou os escapulários
bentos. Também por três vezes, exigiu ouvir, bem alto, a voz do
filho (eu), dizendo que estava bem. Sim, estava.
—
Graças a Deus! — e três vezes se benzeu novamente
— ela disse, dissemos.
Desordem
plena no trem. E, em paralelo com o agora, como se o tempo fosse
um tempo-unitário — talvez até seja mesmo —, dois aviões
entupidos de trevor-suicidas: o ataque às torres gêmeas do nunca
mais.
Lições?
Eis o desafio: o que poderia haver de senhas comuns entre
transportes tão díspares e gentes tão distantes? Que julgados a
elaborar? Dentro ou fora dos autos, o quê?
Não,
não havia terroristas dentro do meu. Era apenas um velho trem pacífico,
da linha Sul, entre Crato e Fortaleza, correndo no mormaço da
tarde no longínquo ano de 1960. A eles — o trem daqui e os aviões
de lá —, comum foi-lhes a morte. Também comuns foram-lhes
coisas. Porque no trem daqui e nos aviões de lá, as pessoas
portavam e levavam coisas.
Já
lhe conto como eram as coisas nossas, dentro do trem, naquele
tempo. Havia os vagões de primeira e os vagões de segunda. Na
segunda classe, os bancos de pau rústico, de conforto nenhum. Na
primeira, poltronas estofadas e escamoteáveis de um jeito que botávamos
duas frente a frente, ótimas para conversar e olhar. Em ambos os
graus, de pobre ou de rico, janelas, amplas, fartas, cheias de
paisagem.
Um
dia, noutras viagens, um menino chegara a se assustar com a
estreitura dos vergalhões das pontes altas, ainda lá de longe,
à curva-precipício, de uma certeza de quase não...
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Por
que o senhor engenheiro não botou estas pedras
bem pra longe,
as longarinas e as traves
da ponte
— no olho, a trave —
não as afastou?
Riu-se
ele do susto:
—
Não vai bater,
foi o que ele disse,
malicioso, na ponta do lápis.
Não
consigo confiar
— o olho —
maldigo a régua
que poderia
ter chamado
bem pra pertinho
a paisagem, o cordeirinho,
para pousá-los
nos paus desta janela.
[O
trem e o cordeiro]
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O
problema não era o risco dos varões das pontes altas, calculadas
de correto como garantira o imaginário engenheiro-agrimensor. O
problema eram as coisas. Surrões de rapadura, sacos de farinha,
bodetes devidamente engaiolados em cestos de cipós trançados,
chamados grajaus. Porcos, ditos bacorotes, desde que não muito
taludos, à mesma embalagem. Malas, caixas, caixotes, sacos de
todo o gênero, achas de lenha, caibros, ripas, carvão. Baforadas
de cachimbos e cigarros de palha; cusparadas ingênuas dos
mascantes de fumo de rolo. Rezas, terços, cegos e cantorias.
Tudo, em suma, devidamente misturado com as gentes, porque aqui,
ou pelo menos lá, aquelas coisas eram uma coisa só: coisas &
gentes — nós.
Claro
que aquilo tudo não era permitido. O passageiro, da primeira ou
da segunda classes, deveria pelas normas da companhia de trens,
despachar a bagagem. Contudo, por não confiar no
"despacho", nem querer pagar nada quando o peso
excedesse o limite permitido, ou ainda para desembarcar bem rápido,
sem os atropelos de esperar bagagens quase sempre extraviadas,
ninguém despachava (nem pagava!) coisa alguma. Sob um consenso
mudo, ainda que pesasse em desconforto contra todos, ninguém
reclamava. Nem mesmo os fiscais do trem diziam nada, eles também
gente dali mesmo, compadres, comadres.
No
trem da primeira classe não se chegava a ponto de embarcar
bacorinhos, bodes e cordeiros. Mas as malas, as caixas, os
embrulhos, os pacotes, tal qual na banda pobre do trem, lá
estavam, em toda parte, no piso, por entre os bancos, em cima dos
bancos, debaixo dos bancos. Até mesmo os cabides, próprios para
um chapéu ou uma toalha, entupiam-nos com rapaduras, queijos de
coalho, garrafas de manteiga-da-terra, fardos de carne-seca,
atilhos de avoantes, cestas de ovos e alfenins.
E
o trem no mundo! Janelas!
Quando,
senão quando, nessas mínimas traições do destino, o trem a se
desmanchar ao abismo. Lembro, sim — eu estava lá, dentro dele!
— o bicho-trem girando, virando, louco, manco, torto, virado,
morto. Retorcido. No durante, um instante só, de jamais apagar,
eu vi uma quartinha. Sabe o leitor distinto o que é uma
quartinha? Pois já lhe conto, com sua licença:
Ora,
a sede, porque afinal, somos da Seca! Naquele tempo não havia
essa idéia de vender água. Parecia-nos bíblica a obrigação de
dar, gratuita, a água de beber, de modo que soaria blasfemo
cobrar dinheiro por um copo d'água. Logo, se não havia água
para comprar, quem não levasse a sua, é óbvio, ficaria com
sede. Daí a quartinha. Dita noutros cantos lusófonos moringa,
bilha, bulhão, aqui é quartinha. De barro cozido, vermelha,
algumas com enfeites coloridos, outras com o sinal do oleiro ou
arabescos de santidade. Arte!, e cheias d'água, uns quatro
litros. Pesadas!
Então,
por detrás de cada poltrona, tanto nos vagões da segunda como
nos da primeira, a prosaica quartinha, ali, de plantão, e um
caneco de alumínio, de uso múltiplo (para todos!) a lhe tampar a
boca.
Primeiro,
foi a chuva de canecos, com seus sons de chocalho. Como se os
buscassem, desesperadas por terem sido destampadas assim de
surpresa — eu vi, conto que vi, eu estava lá! — uma multidão
de quartinhas aos emboléus, voando atrás dos respectivos
canecos, a se espatifarem rijas na cabeça dos viventes. As malas,
as caixas, os caixotes e os caixões, como se subitamente
enlouquecidos, voando, caindo, ferindo, matando. Os animais de
asas, também os de quatro pés, súbitos papagaios, galinhas,
araras, perus, pebas e teiús, em fuga por entre os moribundos. Ah
desassossego! Bodes, carneiros, porcos, ovos, farinhas, bolos de
feira e muita água a espoucar das quartinhas.
Contamos
os mortos, dez, e socorremos os vivos, muitos. Ninguém esmagado.
Os mortos e os feridos foram-no sob a grossa pancadaria dos OVPIs,
objetos voadores perfeitamente identificados: coisas.
Depois,
me mudei do velho trem para os aviões de carreira. Porcos, patos,
bodes, perus, não, nunca os vi na cabine de um avião. Contudo,
um gato maracajá conto que vi. Era um militar que retornava da
selva numa época em que nem se pensava em proteger bicho feroz.
Trazia de lembrança ao filho pequeno aquele filhote de fera.
Solto. Era novinho, mas taludo o suficiente para uma boa unhada.
Manso, todavia. Ninguém lhe opôs um pio: o dono do gato, fardado
de oficial, jovem e garbo. Por cima, os tempos eram de chumbo.
Pecado
meu, sou doido por gatos. Entre a repugnância do gesto em si —
trazer um bicho selvagem ali entre os passageiros — e a beleza
mesma do gato, desempatei pró fera. Acarinhei-o como se fosse a
uma criança pequena. [E se fosse uma serpente...? E... se a farda
do oficial fosse falsa?]
Voltemos
ao trem, por favor. Em poucos minutos, uns caminhões de carregar
pedras que trabalhavam no trecho, muitos, encostaram e subimos
neles em direção à cidade, Quixeramobim, uns 10 quilômetros, não
mais. A cidade esperava-nos. Puxavam-nos à hospitalidade. Os
mortos, devidamente encaminhados em rezas; os doentes ao modesto
hospital; os demais, às casas da cidade. Tocou-nos uma casa de
negros. Não, não eram ricos. Gente modesta, não lhes guardo os
nomes — afinal, eu era apenas um adolescente —, e a quem
poderia perguntar, mãe e tio, cum
Christo sunt.
Um
parêntese sobre as "coisas": basta proibir que os
viajantes de avião levem coisas. Nenhuma bolsa, nem maleta, nem
frasqueira, nem estojos de barbear. Nada! De mãos abanando. Nem
livros, que dentro de livros cabem lâminas, revólveres,
pistolas. O homem limpo de coisas é a medida do homem.
Quem
viaja de avião sabe o transtorno do monte de pacotes, maletas,
berimbaus, embrulhos que muitos carregam. É o sufoco de acomodá-los
nos gavetões, sem caber, que atrasa o embarque ou desembarque. Se
o trem meu e o avião dos americanos viajassem sem
"coisas", não teríamos morrido tantos. Volto, agora,
aos negros.
Qualquer
descrição que tente fazer daquela hospitalidade será pura blasfêmia.
A água para lavar os pés, as mãos, o rosto, que esse negócio
de banho à-toa não é coisa com que se gaste água assim sem
mais nem menos. As redes e os lençóis, modestos mas limpos. E o
riso amplo. Alvar!
Desconfio
que foi ali, naquela casa de negros, que me dei conta que os
livros, muitos, de Agassiz a Sílvio Romero, estavam completamente
errados. O Homem é único. Isonômico. Árabe, judeu, nórdico,
nordestino, negro, mulher, tanto faz: Homem. A isonomia absoluta.
Não é apenas uma isonomia-perante-a-lei; é ela pura, total, sem
adjetivos: à face do Homem!
No
dia seguinte, depois do café com tapioca, ali, quentinha, feita
pela dona da casa e filhas; o pai a nos animar em boa palestra —
e palestra de nordestinos obviamente passa pelas chuvas vindoiras
— fomos todos levados à praça da cidade. Lá, uma placa de
loja que já não lembro o que vendia. Guardo-a no memorial dos
olhos: um nome incomum nesta selva de Silvas, Oliveiras,
Franciscos, Raimundos — era Skeff.
Se
ele, o dono da loja, é judeu, se é árabe? Peço até que ninguém
nunca me conte. Tanto faz! Se é ele parente do Bin Laden, primo
do Saddan, sobrinho do Ariel? Cunhado do Sharon? Pois o tal Skeff,
que não lhe sei o primeiro nome, junto com os cidadãos daquela pólis
grega implantada no sertão, partilhavam, ali, àqueles aflitos,
aquela mesma sofreguidão de servir, dos negros, da noite
bem-dormida — eu, a mãe, o tio. Era a única possível... a
face de Deus ... no... Outro. Qualquer um, Deus, e todos ao mesmo
tempo, Deus!, incluso o Não-Acreditado.
Ah,
ia esquecendo: os livros e as revistas do avião já estarão lá
dentro. Escrevo uma ficção (Salomão) em que um prisioneiro do
Carandiru (em cima de fatos reais) funda uma Biblioteca a ser
inaugurada na noite do Século Cem, de Ésquilo.
Os livros do senhor Bibliotecário Djalma, meu caro Skeff, esperam
por ti — sob todos os nomes e raças que possas ter,
porque Todos é o
meu nome, porque Todas
é a minha raça —
na noite súbita do Século Cem, de Ésquilo!
Fortaleza,
Ceará, Brasil,
Soares
Feitosa
5º
dia após a queda das torres gêmeas
jpoesia@secrel.com.br
____________
Soares
Feitosa
Rua
Canuto de Aguiar, 1055 / 600
60160-120
- Fortaleza, CE
Este
ensaio constitui o 9º capítulo do livro (em andamento na WWW)
O
círculo hermenêutico periférico
http://www.secrel.com.br/tributos/jfsoares001.html
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