.
|
Soares
Feitosa
|
|
Não é aqui
não |
| .
| Alguém gritou da
balaustrada:
— Não é aqui não! |
Era, era lá. |
Uma casa antiga, um batente
alto, era um
orquidário. |
Em tudo, uma paisagem
velha como soem
parecer essas
florestas onde as
orquídeas pendem e
os pássaros chegam em rota migratória. |
Não procurava
pássaros, nem
rotas, nem
migrantes, nem orquídeas; haviam-me dito: numa velha
casa, e sob uma
roupa breve, os
cabelos esquecidos porque os espelhos não eram
convocados, mesmo
assim, a beleza
que sempre —... eram os
olhos, isto, o olhar,
ali,
até. | | ..
Convocara, sim, as testemunhas e o
dedo porque — foi
dito entre os
soluços e os silêncios — nem saberíamos catalogá-las, de tantas, as
faltas, minhas, mais do que as naus do catálogo
dos aqueus, muito
mais. |
Suave como o entardecer,
houvera um
tempo, e agora,
ali, distante, a ela, eu disse [as mãos estavam
frias]: | | .
Não vou-te levar sozinha em
viagem
ilha. |
Lá, deserta das outras, te
tomarias
de ilha e tédio. |
|
Única maldição:
sozinha! | | .
Aqui também — ela disse
— esse velho à
balaustrada, ele
grita o tempo todo:
"Não é aqui não!"— |
| Ilha por ilha. |
| Imaginas que o mandei gritar —
contra ti? |
| Ilha...?! | | .
|
É no convívio dos
espelhos, mulher,
mulheres, que te
queres bendita:
o passo da graça, nem
que seja
à maneira de
desembrulhar teus mortos. |
|
Haverias de te
esquecer de ti
porque das outras, o
Poderoso não falava a
sério, acho que não: |
|
Parirás sob o
medo!
Multiplicados sejam os sofrimentos que não
são.
Verdadeiros: o
tempo-espera, o tempo-só. |
|
O resto, tudo
volúpia! |
| Volúpia maior:a invasão da
pélvis,os humores —e líquidoem bolsa rasgada,uma respiração
ofegante, como se todos os deusesde tuas narinas respirassem,
—aonde vais nessa fúria? |
|
O suor do meu rosto,
sim, resigno-me! |
Não posso fugir sem um
espelho! (Ela
disse) | |
|
Sagrar os espelhos, entre todas as mulheres,
dia e noite,
espelhos, a tua
sina. | |
Sim, agora respiras, vê, o espelho
embaçou-se! Vamos, eu já te levo, só a
ti! | |
(Mulher:
todas,
e a ti,
e por ti,
esta
espada!) | |
Eu te trouxe meias
pretas. Calça-as. Está frio, está noite. Lá. | |
Agora,
gostaria de saber:
A quem o velho
grita? | |
E, se quiseres deixar
avisado, toma o
giz, escreve, deixa-o à porta da geladeira:
— Fui
eu! | | .
|
Fortaleza, tarde de seca, 15 de
maio de
1998
| |
Erorci Santana
Faz algumas noites que ando ensaiando escrever-te uma carta,
gesto adiado pelo enredo dos pequenos negócios cotidianos e
pela inclinação para a vagareza - não direi preguiça, não,
senão aquela indolência macunaímica de deixar-se ficar sob o
ardente sol dos trópicos, agora esse um glorioso meio esquivo
e deslembrado, a ponto de ter deixado que se instaurasse em
São Paulo uma paisagem siberiana. De modo que a biológica
forma queda-se enregelante nesse julho "nublado e frio, que
senta a bunda no rio" como assinalou Mário de Andrade. Será
que faz tanto frio assim aí no
Siarah?
Pois bom. Recebi e li os dois belos poemas, atléticos e
resfolegantes As
Carnaubeiras de Catuana, homenagem comovente e competente
a Octavio Paz - que só li em artigos e poemas esparsos,
inequívoco indício e denúncia de lacuna cultural, agravados
pelo fato de sequer tê-lo na estante. Mas lerei por imperioso,
que monumental ele o é.
E li também Não é aqui não, poema em que a grandeza se sente
no cerne do enigma, e que, como qualquer poema seu tem o
condão de irromper de maneira abrupta na vida da gente, como
aquele canto surpreendente das sariemas, cuja forma sonora nem
de longe faz supor emitida por bicho de pena, mais lembrando o
ladrir dos cães em perseguição à caça. Em seu canto há algo de
urgência e premência, de movimento rápido, intrépido,
ziguezagueante, imprevisível: a algaravia que se abate sobre o
silêncio, a flecha ou projétil súbito que instaura a desordem
dilacerante na ordem simétrica, cíclica e circular da carne. É
tudo muito intempestivo e bonito. É uma canção travessa e
irrefutável para combater o sono dos mortos. Mas o que há de
mais admirável é que ela não parece intencional. Anuncia-se
como o inferno adrede, um sonho - e como sonho, involuntário.
Entra-se forçosamente no seu poema, à revelia e sem ser
convidado, quer dizer: existe porque existe. Como disse
Angelus Silesius, "floresce porque floresce". Principia com
motes absurdos e inesperados, na contramão de toda expectativa
e se desenvolve com requebros e soluções inusitadas. É
esteticamente novo, original pelas cisões do pensamento e pelo
desdizer mais que dizer. Fica anotado.
Comentários para SF
Índige
Geral do Autor | Página
Principal
| |
| Nelly Novaes
Coelho
Meu caro e sempre lembrado poeta Soares
Feitosa:
Há tempos que estou para te esrever, comovida e agradecida
pela lembrança amiga de me mandar a homenagem ao Mestre Octavio
Paz, com seu "Dios insaciable que mi insomnio alimenta..."
e tua caminhada pela Rodovia Catuana e teu olhar que
transfigurou metaforicamente as carnaubeiras... e que
interroga o "Senhor Engenheiro" que nos oculta o mistério de
Sua presença e criação... Chorei como uma criança, quando ao
abrir o Estadão na manhã do dia 20 de abril, li na primeira
página a morte da Grande Presença de Octavio Paz... mas teu
poema tem razão:
— ¿Dom Octavio Paz?
— ¡Presente!
Criou para nós um universo tão rico, amor, paixões,
inteligência, generosidade, interrogações vitais... que nos
fez a todos seus habitantes...Fisicamente, ele se foi, mas o
universo que ele criou para nós continua aí, cada vez mais
aberto a novas descobertas. Octavio Paz foi um dos meus
primeiros mestres-guias, a ajudar-me a encontrar meus próprios
caminhos no mundo da literatura, sondado em suas
profundezas.
Ainda não mergulhei fundo no teu poema final "Não é aqui não".
Emocionou-me; é denso e vibrante de paixão, como tudo o que
escreves.
Comentários para SF
Índige
Geral do Autor | Página
Principal
| |
| Regina Souza Vieira
Um eu lírico voltado para o que está distante, para o que
existiu quando “houvera/ um tempo”, quando houvera um
entardecer , quando houvera “o olhar /ali, /até.”, um lampejo
de luz testemunha daquele momento que, de fato,
acontecera. Um momento talvez único, concreto,
“Verdadeiro(s) : o tempo-espera, o tempo-só” pois “O resto,
tudo volúpia!”
Ah, quantas alusões e intromissões no imaginário, na
sensibilidade que vão transpondo em versos uma ânsia que
ultrapassa o trajeto normal dos acontecimentos: “aonde vais
nessa fúria?”
Só o poeta Soares Feitosa, tão impetuoso quanto o seu eu
lírico talvez responda a esta pergunta que só acrescenta ao
questionamento uma dose a mais de mistério.
Mistério que o eu lírico enfatiza como sendo
particularmente seu: “- Fui eu!’
|
| Regina Souza Vieira
Delicio-me com a leveza do AS
CARNAUBEIRAS DE CATUANA. Nas entrelinhas da elegia a
Octavio Paz a força vital do poeta, a terra, o embrião da
memória que não se extingue. O poema
seguinte, NÃO É AQUI NÃO traz-me à lembrança o canto americano
universal de Whitman, a linguagem como substância de oração.
Belo poema, belos poemas. Poeta de mão cheia. Parabéns, Ceará.
Parabéns Brasil.
Comentários para SF
Índige
Geral do Autor | Página
Principal
| |
| Marigê Quirino Marchini
Tudo nesses poemas é novo: a sintaxe, a semântica.
Inalterável, porém, o místicos poético que eles criam. Uma
delícia de imagens sacrossantas, a sua contemplação da vida
(As
Carnaubeiras), através da morte do grande Octavio
Paz. Poeta que você nos traz presente em seu "Dios
insaciable". Um componente de duas poéticas, a sua e a dele,
numa conjunção planetária de grande força.
E, no espelho da natureza, das idades, dos desencantos e
encantos do "Não é aqui não", vemos bem fundo nos nossos olhos
que ali se interrogam, o Tempo. Tempo verde de um orquidário.
Imenso.
Comentários para SF
Índige
Geral do Autor | Página
Principal
| |
Sonia A. Dias Email
Voltei...
.... fiquei longe
muito tempo, num pensamento transbordante da imagem de NÃO É
AQUI NÃO! Estou aqui, donde nunca sai verdadeiramente. Da
balaustrada, grito em alto e bom som, É AQUI SIM
!
É aqui que
contemplo meu amigo, que te escrevo, que te chamo para
"papear" . É daqui que sai meus bons sentimentos, as coisas
boas que ainda me prendem a está vida meio má. Estou muito
feliz que você esteja por aí, e que Não é Aqui Não continue
tão presente para mim...
" Sim, agora
respiras, vê, o espelho embaçou-se!
Vamos, eu já te levo, só a ti!
"
E eu me fico
aguardando que o espelho não minta para mim ou me diga: Não!
Não é aqui Não!
1
MegaHiperBeijoSoaresFeitoza
Sonia
A.Dias
Comentários para SF
Índige
Geral do Autor | Página
Principal
| |
| João de
Deus Souto Filho
Subject: Comentário
sobre Não é aqui não
Date: Fri, 21 Jul
2000 16:21:20 -0300 From: Email
Poeta, Fui
apanhado de surpresa, nesta manhã de sábado, pela força, pelo
vigor desconcertante deste maravilhoso "Não é aqui não". Digo
desconcertante porque, já na abertura, o poeta "desmonta" o
leitor ao negar a possibilidade do encontro, e faz dessa
negativa o elemento de aproximação, que constrói, através de
relembramentos, o forte elo de ligação entre os elementos
chaves da "narrativa". Verdadeiramente, encontramos nesta
densa e enigmática construção literária o dedo mágico do poeta
que nos apresenta inovações de várias ordens, desde o campo
semântico até os aspectos estruturais. Mas o que importa mesmo
é a capacidade que o poema tem de nos tocar fundo, de nos
transformar até, por infinitos segundos, naquele que "não
procurava pássaros, nem rotas, nem mirantes ...", de nos fazer
cúmplices de quem busca "um olhar" que jamais se desgastará
pelo tempo; talvez, a própria fonte da
juventude.
Comentários para SF
Índige
Geral do Autor | Página
Principal
| |
|