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Jornal de Poesia
Soares Feitosa
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Habitação
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Nem
saberia dizer onde moro exatamente. Desconfio que
habito dentro de meus dentes.
Doutras vezes era a penugem dos
canários, e era ali,
naquelas sedas, penugem e cor, que eu me
mudava para minhas mãos, senão os
gatos, o dorso, viajava neles.
E se
um pássaro súbito: não pelo
avisto, pelo ouvido porém; (o som é que
é súbito) — e outra vez me mudava,
era
só ouvidos.
Para
os meus olhos, eles se
esbarraram – sobre todos os horizontes –
em
cima da beleza: clamassem os
dentes, clamassem as mãos, clamassem as
oiças, a pele também
clamasse — qual nada! — haveria de
engolfá-la só com os olhos — anos a fio
moro neles.
Um
dia morei sobre o peito de minhas mães,
branca e preta, as mães, (todas
verdadeiras) na mesma
medida, agora, assim, minha
banda-fêmea te
regaça:
desta vez “mulher”, sou tua
“mãe”. Pousa,
amor, te esbalda na cavilha deste
peito-pulso que pulso de
pulsar te estremece: teus dentes,
tua-inteira, toda-tua, tua cara,
teus cabelos, tua pele — tudo — e alma;
deixa-te cair neste infinito-agora.
Terminei de sair dos meus dentes, dos meus
olhos, das minhas
oiças também saí; habito agora
apenas esta minha mão; sou apenas
esta mão: nenhuma diferença entre todas as
coisas, um dia quis pegá-las, mordê-las;
mão, o calor de tuas
sedas.
E se dormires recobrirei respeitosamente a tua
nudez,
que é só tua
— pausadamente, pousa o
hálito na
cavilha deste peito largo:
dorme, amor, sossega,
da
tua nudez —
sossega — que da
aurora, vigilante eu tomo
conta.
Fortaleza, noite alta,
06.02.1999 |
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Poesia
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Maria Alice Vila Fabião
Navegam os meus olhos - a reboque o coração, que sempre teima em
deixar-se arrastar nestas viagens - através do desconhecido,
do que se oculta para além dos dentes.
A ferocidade!!! Como ir mais além na leitura, perante a ameaça de
sermos destroçados no simples acesso ao mais recôndito da habitação
do Ser?
Venho de ausências - onde, em vão, busco a ausência definitiva. Por
que não entrar, ultrapassar, então, autocida, essa barreira de
agressividade defensiva?
A partir daqui, SF, devia eu própria erguer todas as minhas
barreiras, regressar ao escaninho mais oculto de mim mesma e
silenciar - proteger-me, contra a força do vórtice que me arrasta,
rompendo-me, despedaçando-me, de aresta em aresta, paradoxalmente
suaves, todas, terrível e dolorosamente suaves,
todas!
Por que me tremeu o coração à vista dos dentes-garra, ameaçadores,
do Homem-fera, devorador - Lado 7, Talvez outro Salmo: "...cheguei
para tomar/ e tomei,/ com toda a ânsia, e tomei, / comi e comi; bebi
e bebi; gritei e gritei:pecado raiz /..../qu'eu sempre quis mais, de
jamais chegar: a GULA." ? Os dentes...
Quão mais perigoso, e doloroso, no entanto, este mergulhar abrupto
do outro-lado, na penugem dos canários, onde a metamorfose se
processa, na viagem pelos sentidos, de Homem-dentes, Homem-Homem, em
Mulher- Fêmea, Mulher-Mãe!!!
Dói mais, mas muito mais, ficar a saber, no ritmo acelerado dessa
viagem - já lhe disse quão importante para mim é o ritmo, dimensão
que envolve corpo e espírito, mas corpo também, ou sobretudo -, da
existência, algures, por trás dos dentes-garras, da indecisa
ambivalência da mão, da existência desse regaço materno e
maternal. Como dói saber que ele existe!
"Um dia morei sobre o peito
de minhas mães, branca e preta, as mães,
(todas verdadeiras)
na mesma medida, agora,
assim, minha
banda-fêmea te
regaça:
desta vez,
"mulher",
sou tua
"mãe"..."
Volto a "Balançando Devagarinho" - há sempre um regresso a
"Balançando Devagarinho".
A ambiguidade, "ambi-valência", de ", mulher," - vocativo+
auto-afirmação? Assim a leio, no meu capricho habitual de ler
o que quero, como quero.
SF, quero chegar ao fim, rápido - que me sinto arrastada pela
torrente, ondulada e frenética, desta psique/habitação hermafrodita:
"te esbalda na cavilha deste peito-pulso" - diz, homem. Que de mais
masculino que um peito-pulso, cavilha de peito largo, símbolo, no
homem, da força-protectora correspondente à suavidade-protectora de
um regaço de mãe?
Habito agora apenas esta
minha mão; sou
apenas esta mão: .... mão, o calor de tuas sedas.
....
E se dormires
recobrirei respeitosamente a
tua nudez...
que da aurora,
vigilante
eu tomo
conta.
Ula a ferocidade?
Entre o mais puro erotismo e a pureza mais pura, é onde você habita,
ondulante, no topo da vaga, na profundeza do sorvedouro, na quietura
da água límpida, turbilhão andrógino que nos arrasta, indefesos para
abismos ignorados.
É consigo ou comigo mesma que estou zangada? Deve ser comigo mesma,
SF — porque sempre é comigo mesma que me zango, com esta
incapacidade de resistir e dizer apenas: "Muito obrigada, SF, por
ter escrito mais um poema em que há todas as coisas de que
gosto...", calando a minha fúria pelo turbilhão em que me lançou,
arrancando-me à ausência voluntária; calando a minha fúria pela
incapacidade de racionalizar o que sinto no seu poema, em palavras
bem medidas, idas buscar a modernos e bem pensados compêndios de
crítica literária.
Assim...? Que dizer?
É nas profundezas de mim mesma que o sinto, o seu poema. O reino da
ausência de palavras. Após a minha tentativa frustrada de as
procurar, algumas horas depois de ter iniciado a busca, vários
telefonemas, duas visitas, um almoço, pelo meio, creio que só
no abismo do inconsciente de ambos haveria possibilidade de
comunicação.
Estenda o seu dedo: eu serei ET (lembra-se daquele simpático
alienígena, vindo, como eu, de outra galáxia?), e também eu
estenderei um dedo breve: um toque leve e as palavras serão
inúteis.
Assumindo as maneiras de cá, diria apenas: e se pusesse uma vírgula
a seguir a "pausadamente..."? Alargaria ainda mais a respiração
desse pausadamente... [Alícia, pronto, botei a vírgula.
SF]
Que, por agora, regresso, pausadamente, ao Nada, que "me deshabita".
Talvez uma viagem às origens: concerto no Instituto Cervantes:
Guitarra espanhola - Turina, Torroba, ... Por que não me deixar cair
num "infinito ontem"?
Um grande abraço - pelo Habitação!
Alicia
Lisboa 08.02.1999
Notas do JP: 1 -
A citação sobre Talvez outro salmo
2 - A citação sobre Balançando
devagarinho
3 - A citação "me deshabita" in El
Ausente, de Octavio Paz
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Maria do Socorro S. Maia <E-MaIl>
Poesia do
despadaçamento
Poesia do despedaçamento, feita sob a herança de Dioniso - o deus
duplamente nascido - e da dualidade fundamental que tal deus
promove: sátiro e bacante, masculino e feminino, beleza e fealdade,
crueldade e leveza, regaço e perdição. Esta é uma tragédia dos
tempos pré-pós-modernos.
O ato
amoroso é a habitação do humano. É dali que ele parte, sobrevive e
se oferece em sacrifício para apaziguar os deuses, numa época em que
milhares de humanos matam um deus a cada dia. O corpo despedaçado
pelos dentes das bacantes em mãos, dorso, cabelo, peito, pulso
e alma procura se restaurar no amor.
"Sempre o mesmo acerca do mesmo", advertia o grande Eudoro de Sousa,
quando se tratava da tragédia. Gestada em tempos imemoriais para
purificar o homem da hamartia ( pecado original forjado no deicídio
original - morte da divindade representada pela subida do homem do
estado de natureza para o estado de cultura ). E SF canta com sua
pena-dentada a tragédia desta busca do desejo que não objeta em
nenhum lugar. Que passeia pelos fragmentos do corpo da palavra
com horror e amor. Que despreza a distinção masculino x
feminino - porque sabe que no ato amoroso esta dualidade se
desfaz.
Os
olhos se detêm na complementariedade deste horizonte que
encandeia. "Pelo ouvido porém" se apresenta o canto e SF se faz
sereia. O homem ainda tem pelo menos a possibilidade de se deixar
atravessar pelo canto da sereia. Canto que o desvia da
ferocidade do narcisimo e o conduz para o mar do amor. Mar onde o
eu, este tirano, "como corpo morto, cai". Mar onde o eu se
desfaz no outro, reinaugurando eternamente a vida. Mar que se
confunde com o sertão, onde habitam as deusas mães, generosas
nutrizes, que, vigilantes, sempre tomam conta da aurora da
criação.
Maria Maia
10/02/99
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do poema
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O GUARDADOR DAS AURORAS ——— Lau
Siqueira - EMail
Lanço meu olhar
canibal sobre sua "Habitação", caro amigo, querendo suprir as
ausências nutricionais da minha alma com versos hermanos de
Femina
e Salomão.
Versos que habitam o espetáculo portentoso de medir cada palmo,
palmilhar cada metro... rosnar e surpreender os próprios
sentidos.
Lembro Rilke,
Pessoa... não, não! Lembro as Odisséias, as Ilíadas - novamente,
como em Salomão. Qual nada... sinto-me mergulhar no
desconhecido. Diante da vigilância da aurora, sinto-me ainda
prosseguir em silêncio após o último verso.
"Habitação" - esse
poema dito entre os dentes começa e termina na expressão mais
profunda do seu tear poético que, guardado por 50 anos, teve tempo
suficiente de burilar-se para conduzir a obra e o artista da palavra
que você é, no rumo do eterno.
Isso é um segredo
que só a poesia revela quando encontrada nas suas cavernas, em
escaramuças intelectuais e sensitivas das mais distantes. E você
encontrou-a, caro poeta!
Desvendou mais uma
vez o segredo, revelando a poesia em versos pincelados com avidez de
pássaro e com a plasticidade de todos os descansos da
retina.
Cumprir sua
"morada" é partilhar com as caravanas de anjos e duendes perfilados
num horizonte que nos revela todos os orientes e ocidentes. Mas, ao
mesmo tempo, se faz universal demais para ser medido, tocado,
urdido... a beleza desse seu novo filho comove por sucção, ao que
parece. Sou imediatamente absorvido. Feliz pelo gozo estético. E
diante da beleza, meu caro Chico, apenas respiro fundo. Recebo
(faço questão) todos os seus átomos e todas as alegorias
que me permitem sonhar e cavalgar nessa égua chamada distância para
torná-la, a cada instante o meu próprio habitat.
Grande Abraço do seu amigo
Lau Siqueira
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|
MIGUEL SANCHES NETO" <EMail>
Prezado Soares Feitosa
Belo poema. Os temas da habitação e do
envolvimento erótico receberam um interessante contorno poético. E
você escreve sem pagar aluguel aos que se julgam donos das
habitações literárias. E isso é bonito, é necessário.
Forte abraço do
Miguel Sanches
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| Silvana Rossi <EMail>
Meu Deus, fiquei quase sem
respirar durante a leitura. Me sinto pequena diante da força que
estas palavras expressam, não sei se estou preparada para sentir
tanto. Abraço
Silvana
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| Stela Fonseca <EMail>
Feitosa, poeta amigo, meu amor (permita-me a
ênfase).
Depois de PSI a
Penúltima que me deixou mais de uma semana em estado de êxtase,
nadando, vivendo e gestando entre as palavras e o cheiro da
imburana, eu não poderia supor que outro poema seu, ou de qualquer
outro poeta, tocase tão profundamente minh’alma. Enganei-me, Você
não é apenas poeta é um mago, um iluminado, um enviado do reino das
palavras do qual pouquíssimos descendem . Um reino tão especial e
inacessível que nem os iluminados que o representam, sabem que ele
existe. Penso que, por segundos, as palavras-luz do reino habitam o
iluminado e se fazem em algo que transcende o poema.
Fiquei cerca de
duas horas ( e continuo) sorvendo cada palavra (rica em
siginificados... que dom você tem amigo!) da sua HABITAÇÃO, cada
som, cada mistério, cada símbolo, cada sensação. Deixei-me envolver
pelo invisível e transcendente porque, meu poeta, a análise da sua
Habitação como obra poética, a mais bela que já li, cabe a outros
iluminados. A mim basta deixar-me encantar, deixar-me tomar inteira
pela força, grandiosidade e beleza desse indizível encontro entre o
Amor e o Amor, parido pelo homem que guarda auroras.
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| Mirna Gleich <EMail>
SF, teu poema tem
um movimento que mescla o suave com o sensual, num
verdadeiro bailado de energia e doçura. Além do mais: que
gostoso esse sentir maior! E poder/saber expressá-lo com tal serena
melodia. O poema habitará no esconderijo de meus guardados
especiais. Mirna Gleich Pinsky
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Carmen Beltrão" <EMail>
SF, Desconfio que sabes bem onde moras, dentro de
teus dentes, nos canários, regaço-mãe, cavilha funda, ou mãos
profundas que averiguam a noite que deita sobre o teu amor inerme
(nem tanto porque vigias o portal de seus sonhos)....
Bem, como eu ia dizendo, desconfio que sabes que habitas em
todo e nenhum lugar, a não ser nesse cometa-pensamento que te rasga
o céu flamejante da poesia....que, curioso, vem através de tuas
mãos,aconchego carinhoso que transborda o teu amor, trazida no dorso
dos teus pássaros-viagens, forjada no teu peito infante e homem sob
o adubo generoso do regaço materno que um dia
incorporaste....
É, meu amigo, desconfio que desconfias que de par com a
poesia, voa, irremediável, tua alma.... Melhor para todos nós, que
de lambuja, sorvemos o encanto que te liberta.
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| Ligia Neves <EMail>
Soares,
Incrível ! Como comentas tão bem da mulher e protege-a de suas
inseguranças, contudo desta vez surpreendeu-me ao
descrever os animais com tanta imaginação e criatividade
espontânea. Parabéns.
A habitação conjuga-se no tempo de estarmos diante da
mãe-mulher e conscientizarmos do que é necessário de um
respeito formal. abraço, Ligia
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do poema
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| Glaucia Lemos 7
Habitação tem, no seu
delicado lirismo, um sabor doirado de uma coisa que há muito tempo
não me tenho concedido colher da vida. Ou não tenho
sabido colhê-lo, se o ncontro. O gosto de quem conheceu as
muitas moradas dos sentidos ao longo das pequenas/grandes alegrias
prazerosas; do suave ao tato, do enternecedor à audição, do
deslumbrante à visão, até o achado definitivo daquele
pouso-alumbramento-por-inteiro, aquele único que só quando se
merece a graça de alcançá-lo, se reconhece. Aquele que
esperamos - ou que nos espera - sem que mera premonição nos
adiante onde , em que morada, em que sítio, em que local, em que
olhar, em que corpo, em que alma, o encontraremos. Repousa na
clavilha do meu peito. Na doação desse peito, na entrega desse
eu-tua, define-se a habitação que em oferecer
repouso está a recebê-lo e em se fazer doação, aprofunda sua
âncora. Ouço sempre uma canção da MPB, não sei o autor, na
qual, sem rodeios, com a simplicidade sábia dos simples, se repete o
que todos sentem, mas poucos disso se apercebem: Não se pode ser
feliz se não for por amor. Se não se logra o encontro com esse
porto definitivo - ou que definitivo não seja - do qual se possa
dizer:aqui é o meu lugar. Mesmo que o diga sem a refinada
sensibilidade do autor de Habitação.
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| Luiz Nogueira Barros <EMail>
Nunca ouvi dizer que poeta morasse em lugar nenhum, que são
todos uns loucos-andarilhos. Conheci um, Christiano Fernandes, que
improvisava a tenda numa sombra. E agora esse outro louco, o Soares
Feitosa, vem com essa história de
habitar. E depois com essa outra história de respeitar e
cobrir a nudez da amada, e tomar conta da vigilante aurora. Por amor
inventam tudo. Até descobrem um lado feminino, contanto que agradem
à amada. Uns ladinos conquistadores, esses
poetas. Com plumas e curvas criam abismos, ninhos, para o
amor.E agora esse outro poeta louco que tanto amo, o Soares Feitosa,
resolvendo aninhar-se como se não fosse o maior dos andarilhos e
amantes que conheço, e bom cabrito do Siarah... Luiz
Nogueira
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| Bárbara Jô <EMail>
Estava passando pelo JP e fui ler Habitação. Pensei já tê-lo
lido, mas não sei porque me pareceu tão novo... tão profundo como os
mares nunca dantes (com o perdão do lugar comum - confuso?). Bem,
fui lendo-lendo e de ir-indo tanto fui gostando.
"clamassem os dentes,
clamassem as mãos, clamassem as oiças,
a pele também clamasse — qual nada! —
haveria de engolfá-la só com os olhos —
anos a fio moro
neles." Identifiquei-me em cada
linha, cada palavra e inda mais nos olhos que anos a fio também moro
neles. e não precisam reformas! E cheguei ao trecho (porque
cargas d'água todos teu poemas dizem coisas????). O
trecho:
"desta vez
“mulher”, sou tua
“mãe”.
Pousa, amor, te esbalda na
cavilha deste peito-pulso que pulso de
pulsar te estremece: teus dentes,
tua-inteira, toda-tua, tua cara, teus
cabelos, tua pele — tudo — e alma;
deixa-te cair neste infinito-agora.
" Fiquei zonza. Que tens de
bruxo?
"E se dormires
recobrirei respeitosamente a tua nudez,
que é só tua — pausadamente,
pousa o hálito
na cavilha deste peito largo:
dorme, amor,
sossega,
da tua
nudez — sossega — que da
aurora, vigilante
eu tomo conta." Sinto
falta do tempo futuro — do dia que virá, do Menino, de
Ésquilo — será que ainda virá? Preciso sossegar minha nudez,
preciso entregar minha alma, SF, sem medo, nas mãos que a
saberão vigiar.
Sei que sinto saudades de mim. Babi
[Do Menino, de Ésquilo: referências a Salomão]
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| João de Deus Souto Filho <EMail>
O Habitar desta
poesia, que é carne, que é sangue pulsante, ocupa todos
os
pontos cardeais, ultrapassa terceiras intenções, avança e se
nutre das vísceras do poeta, que bota para fora a heureca de todos
nós, viajantes, que teimamos em ir e vir por entre sonhos e
parlendas. O Habitar desta poesia não pede licença, invade alma e
mostra a cara do poeta, as linhas da sua mão que nele se transmutam,
e volta a ele, e volta à mão, que se faz mãe sem medo, que afaga o
seu rebento no seio materno, que canta o seu rebento como canário. O
Habitar desta poesia é a mulher que se apresenta em cada um de nós,
que nos habita, seja como a mãe de outras eras, seja como a virgem
que se banha nas nossas lagoas (quantas lagoas temos em nós ?).
O Habitar desta poesia merece a reverência
do poeta. Um grande abraço.
Página de João de Deus Souto Filho
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do poema
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| Iuri Dantas
<EMail>
Meu caro
SF:
Antes de deitar a mão com os
comentários a respeito de Habitação, pergunto-lhe algo que aflige a
toda minha geração de recém-formados e ainda estudantes em
comunicação: Será mesmo o diploma uma tortura necessária? Você que
sentiu toda a comunicação brotar do cotidiano ao invés dos livros de
Umberto Eco deve ter a resposta. Aguardo por aqui.
Quanto à poesia, bem, todo poeta
precisa de um conflito. O de querer se encontrar, tanto no macro
deste universo que habitamos, quanto no micro de toda a carne que
envolve este espírito inquieto, me parece ser a batalha travada em
Habitação.
Decerto que o verso precisa
cantar por si só. E consigo ver isso. Cada frase desperta de nossa
inconsciência. Cada palavra é recortada de um corolário de dúvidas
que "habita" o questionamento que lhe é
intrínseco.
Interrompo a rotina de meu
dia para apreciar esta jóia. Muito há o que se discutir e tentar
descobrir nas entrelinhas de que se utiliza. O questionamento de
saber até que ponto uma palavra é ou não metafórica me persegue
durante toda a leitura do poema. A cada verso o debate entre lógica
e a poesia em essência permanece e se aprofunda à medida que o tempo
corre e os olhos param em algum vocábulo
específico.
Dentes
Mãos
Grande parte de minha influência vem de Mário Quintana, o velho
bagual de Alegrete, e todo o surrealismo de encontrar moedinhas
perdidas e descobrir a poesia em trechos de notícia ainda me
acompanha. Mas o seu escrever me aparece como uma busca inconsciente
pela insatisfação e a dúvida.
Não será neste espaço e nem
mesmo na conjuntura "tempo" em que me encontro agora que conseguirei
explicar a profundidade de tal grafia em minha alma. Uma pausa
profícua. Preciso refletir e deixar meus pensamentos ao sabor da
brisa de novas considerações. Permanecerei em contato, mas volto a
esse assunto daqui a algum tempo.
Por ora interrompo. Um grande
abraço e um brinde às histórias que ainda não foram
escritas.
Iuri
Dantas
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Joaquim Alves
<mailto:%20allegro@esoterica.pt>
Simplesmente
fabuloso. No sentido de nos deixar extasiados, com olhos nos
tijolos, na areia, na pedra. A primeira vez que o li, fiquei mudo.
E, não sei porquê, deu-me uma grande vontade de escrever. POEMAS,
claro!
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| Ernâni Getirana <EMail>
E depois dizem que as palavras são para ser... ditas. Pode ser. Mas,
certamente, para ser ditas do modo que a vida é feita e parida.
EMPATIA PURA. É o que esse poema provoca na gente. A capacidade que
SF tem de burilar as palavras sem arranhar-lhes as entranhas, mas,
ao contrário, presenvando a docilidade de cada uma delas, com seu
travo próprio, sua maciez específica, sua casa-idéia metafórica,
isso é o que é. Elas, as palavras, essas bichinhas
arrebanhadas por SF, nesse jeito todo seu de nordestinizá-las,
alinhavando-as com benzeduras, coisas do agrado do polígono, (
secamente e ainda belo ) lugar-alfabético onde o poema de SF ganha
vôo usando as correntes ascendentes da sensibilidade. HABITAÇÃO:
Homem-tatu, caracol, metalinguagem esgueirando-se por entre as
frestas da poesia, ela também, casa dos deuses e, na verdade, casa
de qualquer homem que ousa debruçar-se sobre si mesmo nessa
casa-planeta que habitamos todos nós, filhos da palavra, habitação
da esperança.
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| Ruth de Paula" <mailto:%20ruth@ivia.com.br>
Vejo que o poeta se coloca no poema por inteiro, (ou é o poema que
se coloca por inteiro no poeta?) todos os seus sentidos estão
juntinhos ali, embora ele os coloque esquartejados; nem sei se
'esquartejados' caberia para decifrar a profunda organização dos
seus sentidos naquele momento. De fato, um momento de calmaria, tipo
depois que os lobos têm a garantia da presa e ficam com ela entre os
dentes sem se preocupar com as surpresas do tempo. Esses momentos
nos dão um misto de fragilidade e força. No primeiro, nossos corpos
são um não sei o que que pode ter só olhos ou só bocas, ou até
mesmo morar entre os proprios dentes!
Levitamos, é bem verdade e talvez seja essa a suposta fragilidade.
Suposta afirmo, posto que tambem nessas horas somos um amontoado só,
nossos sentidos de tão unidos se confundem, o que é olho
"sente" o gosto da pele do outro, enquanto que a boca pode silenciar
e "ouve"; o ouvido, de ser tão sensorial, fala; e as mãos, de tanto
sentirem, vêem a alma sobre o corpo nu. Transcendemos!
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do poema
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Souza Santos <EMail>
Caro Feitosa, Pq. era carnaval, e já estava cheio
de V. Rao e das teorias evolutivas do jurisdice, abri o bichinho
p´ra arejar um pouco o espaço pensante, pimplou e vi que tinha uma
mensagem, fui lá, era vc. me dizendo ser agora proprietário,
latifundiário, locador e dono do BNH. - Moço, que poemaço!
Aposto que foi desses que saiu assim de rompante. Sentou,
quando viu ´tava feito, que ninguém amadurece um texto desses assim
no peito, se não papoca.
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do poema
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| Eloí Elisabet Bocheco <EMmail>
Esse poema
é puro espanto. O que verte de água desse seu texto! Quem vem beber,
volta; ou de saudade da água fresquinha, ou de ânsia de
decifração.
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| Iosito Aguiar <EMail>
HABITAÇÃO de Soares Feitosa
Pois é, meu
coroné, como se diz lá no Alto Sertão baiano de onde venho: “Quano
chega o tempo de fuloramento, o mió mermo é pará, ficá oiano as
fulô, sentino os cheiros e deixano aquela beleza toda abarcá o
coração da gente, o isprito e os pensamento. Num carece ispricá nada
não. É só ficá no senti”.
A habitação
do poeta fica num sítio de 5ª dimensão, a que só os deuses e uns
poucos eleitos têm acesso.
Então o
poeta é uma espécie de Deus?
Home, se
desde que Linos inventou as letras a poesia vem resistindo, por
alguma razão é, não é? O poeta é um mago tão porreta que até em
mulher pode se transformar. Em verdade, a mulher sempre fez parte da
natureza do homem. Sempre esteve dentro dele. A maioria dos homens
não sabem disso. Os poetas o sabem. Daí dá prá entender o
obnubilamento da dona Maria Alice Vila Fabião. Ela viu-se
surpreendida por uma faceta quase desconhecida do poeta, que desnuda
o grande segredo da mulher, O segredo da geração.
O poeta
gerou. E daí?
O cumpade
Roseno tem razão quando diz ter sido muito bom, o poeta ter-se
voltado para os versos depois dos 50. O intelectualismo – esse
estrupício do “Scholar” – felizmente não teve tempo, nem chance de
contaminar a cacimba de 5ª dimensão onde bebe o poeta. Assim, no
caldeirão daquela cacimba, vêmo-lo misturar elementos variadíssimos,
que resultam numa poesia desconcertante para a pessoa
comum.
Como
definir aquela poesia?
Antônio
Massa tocou o cerne da coisa quando falou de Salomão.
É isso. O
infinito não existe na nossa realidade porque ao homem (comum) não
foi concedido tempo suficiente para contar a eternidade. Mas aos
poetas, aos iluminados e aos JIVAS (homem perfeito após a
evolução pelas sete rondas de vida), com acesso à 5ª dimensão foram
permitido compreensão e domínio do infinito. Então, se se é poeta
não é preciso ficar em silêncio ante o calidoscópio de emoções que o
poema HABITAÇÃO desperta. Ocorre-me revelar um tete-a-tete que tive
com as musas Erato (da poesia lírica) e Calíope (da poesia heróica).
Elas me contaram que da união entre Urano e Gáia nasceram os
titãs e as titanides, seres divinos e portadores de forças
elementais. E que de todos os titãs, o mais importante para o
desenvolvimento do mundo foi Cronos, o mais jovem de todos, o senhor
do tempo e que engendrou os Olimpianos que, como você deve saber,
são os deuses, os poetas e os Jivas. Por desentendimentos que só a
divindade explica, Cronos matou seu pai Urano, encarcerou os irmãos
todos nas trevas infernais mas deu prosseguimento às obras paternas.
Gáia se indispôs com ele e predisse sua morte por um de seus filhos.
O maluco, então, passou a comer a própria prole. Réa, sua mulher, e
que estava de novo grávida, procurou a sogra e pediu proteção para
salvar o filho que estava por nascer. Gáia escondeu-a na ilha de
Creta onde teve Zeus, que cresceu sob a proteção da mãe e da avó.
Zeus destronou Cronos, obrigando-o a devolver todos os seus irmãos
que ele havia devorado.
Como todo
Deus, Zeus cometeu atos imprudentes e impulsivos. Era um insaciável.
Casou-se muitas vêzes, inclusive, com sua irmã Demeter, que lhe deu
uma filha de nome Perséfone e que possui a lenda mais bela e
comovente de todo o panteão helênico.
Mas, eu
queria mesmo era falar um pouquinho de Diônisos, outro filho de Zeus
com Semele e tão querido do véio Gerardo.
Ele personifica os potenciais da videira e do vinho. Sua mãe,
Semele, foi a grande amada de Zeus e, por isso mesmo, vítima da
perseguição e fofocas das irmãs. É... lá entre os deuses também
havia disso. Por causa dessa fofocagem, Zeus teve de aparecer em
todo seu esplendor para Semele. Ela não aguentou o impacto e morreu,
estando grávida de Diônisos. Para salvar a criança que ainda não
havia nascido, Zeus a tomou e costurou na própria coxa até que se
desenvolvesse e pudesse nascer.
Diônisos
nasceu e foi criado escondido, embora sempre perseguido por sua tia
Hera, que o enloqueceu quando adulto. O coitado girou, girou e foi
bater com os costados na Frígia onde foi acolhido por Cibele (a mãe
dos deuses) que o curou e purificou, para que ele pudesse viver sua
glória divina.
Diônisos
andava sempre com o “Kantharos” na mão e esse era o seu emblema. Era
um mulherengo arretado e até dizem que, é pela ligação com Diônisos
que os poetas tanto apreciam um copo, música de corda e sôpro e,
sobretudo, um rabo de saia.
O segredo
dos dentes que rasgam e esmagam para alimentar-nos, a maciez
da penugem dos pássaros, a perfeição da curva do dorso do gato; a
capacidade de ver e escutar e, fundamentalmente, de saber. Saber!!!
É isso, meu coroné! Ponto, oras...
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| Se bem nem conheço o todo de
tudo que você escreveu, caro amigo, já esta tua HABITAÇÃO me
bastaria para que eu soubesse quem tu és. Estou cheio de segundas
pessoas para dizer direito aquilo que sei sobre o que nem sei, mas
sinto. O poema-víscera habita mundi. Meandros de nós todos,
apocalipse do uno, genesis do si mesmo, reverbero de espelhos
espalhados no tosco dos olhares, minimalização maximizada do
encontro da palavra e da imagem num quadro de
Dali.
Penso que ler esse poema náo
o é. É um poema de se ver, palpável, sentido no colo e acalentado...
é um poema-ser, com suas caras, lágrimas, bocas, intestinos,
rebinbocando na parafuseta do juizo mais do que perfeito. E tu
sofres, poeta, na feitura, no arremate, no afino, no jorro... Um
poema desses não foi pensado, foi expulso, vomitado de orgasmo
pleno, daqueles que doem nos ovos.
VITO CESAR FONTANA
<EMail>
(055-081)
9765565
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| Daniela <EMail>
Muito melodiosa, cheia de
ternura e calmaria. Como se contasse a história de um mundo onde
tudo se transforma, sem contemplação da perda, mas o deslumbre da
eterna mutação, algo tão inerente ao nosso universo... embora não
olhemos sempre por esse prisma.
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