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Herói do Cotidiano
“O Desfile”
Tenho
a honra de trabalhar na Escola de 1° Grau General Antônio da Silva
Campos. Na verdade, eu e minha mulher, Aninha, dirigimos o Curso de
Computação junto àquela Escola. E foi com certa tristeza que disse a
ela, professora de Língua Portuguesa das 5ª Séries, que não queria
desfilar junto com a Escola naquele 7 de Setembro. Isto por que nunca
gostei muito de desfiles. Gosto mesmo é de ficar bem escondidinho. Aninha
não se deu por satisfeita e insistiu no convite. Afinal, tratava-se de
uma Escola de Referência Nacional! E mais que eu poderia desfilar em
destaque com o Curso de Informática, insistia ela. Fui taxativo: Desfilar
- Não! Entretanto estava disposto a ajudar em tudo que fosse possível
para que a Escola brilhasse no desfile. E foi neste clima que saí com ela
à cata de uma charrete para o tal desfile, pois soubemos que a viúva do
finado Pedro Paterno tinha uma. Na verdade, ela enfeitaria um dos
pelotões.
Fomos
parar na residência da Sra. Paterno, lá na Flamenga, e ela, digna, nos
recebeu muito bem e nos emprestou o que buscávamos. Conversando com ela a
respeito da charrete, soubemos que a mesma pertencera ao antigo dono da
Cocesa, o Edmundo Rodrigues, meu velho amigo e colega radioamador. Acabei
lembrando-me do dia em que o amigo a comprara na Apiguana, loja de outro
grande amigo, o Lavaneri Vanderlei, pois estávamos junto naquele dia em
Fortaleza. Bem, a charrete precisava de pintura e de uns pequenos reparos
nos apetrechos que a acoplava ao cavalo. Resolvi que faríamos isto no fim
de semana com a ajuda do aluno Francisco Alves - Quico -. Fizemos o que
tinha de ser feito. Só não foi muito fácil arranjar um cavalo, mas o
“Seu Nilo” nos emprestou um belo burro quase branco (havia exigência
de cor do eqüino). Ele nos asseverou que o animal era muito manso!
Entretanto, pedi a ele que nos acompanhasse no dia do desfile, por segurança,
caso o burro resolvesse se assustar com os fogos... enfim, nos arranjamos
com o possível, pois quem não tem cão...
O
dia do desfile - 7 de Setembro de 1999 - amanheceu lindo. O sol brilhava,
e Aninha, já com a farda da Escola, me ofereceu uma camisa impressa com o
Diploma de Escola de Referência Nacional, que vesti orgulhosamente.
Pendurou no meu ombro a máquina de retrato, presente de aniversário que
ela me deu em 1997 e ordenou: - Já que não quer desfilar, faça-me o
favor de fotografar o meu pelotão, que sairá com a charrete, levando o
“Garoto Estudantil 1999, a Rainha, o Principezinho e a Princesa da
Escola. Saímos e fomos para a concentração, perto do Colégio São José
e lá ficamos aguardando a hora do General Campos desfilar.
Foi
lá que o burro resolveu aprontar sua primeira traquinagem! Olhei para a
Rainha da Escola que, aliás, estava linda dentro da charrete juntamente
com seus colegas de desfile, não menos belos, e percebi que a moça se
abanava com um leque e fazia uma munganga esquisita. Perguntei a
Maiqueline, este era o nome dela, o que se passava. - Professor, o
malvado deste burro emite gazes fedorentos o tempo todo, e estamos
exatamente aqui atrás... Veja se pode fazer algo.
Com
seiscentos mil diabos! que pode fazer um modesto professor das Ciências
da Computação
para dar jeito num burro peidorreiro? Respondi. Infelizmente não havia
jeito, e o desfile teria que ser feito no meio daquela peidorrada
desenfreada do burrico, já apelidado de burrico peidão. O pior é que as
coisas não ficaram por aí. O traquina do burro, mesmo antes do desfile
começar, aprontou outra: assustou-se quando uma das peças de couro que o
atrelava à charrete arrebentou. Por isso, zangou-se e resolveu a pular e
a dar coices, tudo isto sob os olhos arregalados do Diretor Júnior que,
desesperado, procurava contornar a situação. Naquele momento, percebi
que o seu Nilo, sozinho, não conseguiria segurar o burro assustado, que
ameaçava pular sobre o povo ali presente. Saltei para perto do animal
enfurecido e também o agarrei pelas as rédeas. Com muita dificuldade
conseguimos acalmar e segurar o bicho, que pulava e "soprava" sem parar.
Passada
a emergência, senti a mão do diretor Júnior sobre os meus ombros e ouvi
sua voz preocupada me dizendo: - Professor Roberto, não me saia de perto
deste burro nem um único minuto até o fim deste desfile! Pronto! com tal
ordem, estava automaticamente intimado a desfilar agarrado nas orelhas de
um burro peidão... Ora, para quem poderia ter desfilado como destaque do
Curso de Computação, ficava muito estranho desfilar ali, humildemente,
levando o Burrico Ventador junto com seu dono morto de encabulado com os
ventos do animal. Que parecia ter comido carniça, tal era o mau cheiro
dos gases.
Vocês
precisavam ver a cara de surpresa que o Prefeito Sérgio Aguiar fez quando
me viu passar em frente ao palanque das autoridades, puxando nosso
personagem ventador que, aliás, até foi tema dos nossos cartunistas, Cláudio
e George, sabedores que foram das traquinagens do artista. Mas não ficou
só aí, não, pois o ingrato do burro resolveu, em frente ao palanque das
autoridades, eliminar o que havia comido e lhe feito mal: Foi uma
risada geral! Parece que tinha, realmente, o intestino estragado
pela comida do dia anterior àquele inesquecível dia da Pátria, no qual,
pela primeira vez, eu desfilava de peito estufado; orgulhoso de representar
ali, na frente de nosso povo, a Escola General Campos, apesar de estar
puxando um burro peidão pelas orelhas.
( In "Crônicas de
Uma Vida" - Pag.:51)
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