ERA UMA VEZ NO RECIFE

     

 

 

            Eu comecei cedo a trabalhar no rádio, num tempo em que eu ainda estudava e tinha, portanto, minhas obrigações escolares a cumprir. Isto me obrigava a escrever seis programas semanais, além de ser locutor, narrador, rádio-ator, enfim… essas tantas, as minhas obrigações, me impediam de “inventar” um tempo para ir ao Ministério do Trabalho cuidar da minha carteira profissional.

            Por uns três anos (primeira na Guanabara e depois já na Mayrink Veiga) eu consegui driblar o homem do Departamento do Pessoal, que vinha pelo menos duas vezes por semana com a mesma reclamação:

            - Anysio, sua carteira profissional.

            - Esta semana eu estou em provas, Sr. Varela, mas na próxima o senhor pode ficar descansado que…

            Era uma época em que ninguém podia ficar descansado. A diminuição do dinheiro na Mayrink a obrigou a diminuir o elenco e, de uma hora para outra, eu escrevia treze programas semanais, atuava em todos e estudava.

            Um dia o Sr. Varela não agüentou mais minhas transferências e, sem briga ou aborrecimento, me deu o bilhete azul. Eram três e quinze da tarde. Às três e meia eu já estava empregado. Ronaldo Lupo, com quem me encontrei no saguão, com um telefonema para o Sr. Arnaldo Pinto, no Recife, me colocou na Rádio Clube de Pernambuco, a gloriosa Pioneira da Avenida Cruz Cabugá, no Recife.

            Era um contrato de três anos e eu estava, numa terça-feira, escrevendo o meu programa de estréia que aconteceria na sexta quando o Luiz Maranhão, diretor do rádio-teatro, entrou na sala e me pediu para fazer um papel (uma pontinha de um capítulo só) na novela “Três Vidas” do Amaral Gurgel.

            - Está aqui o papel. Não precisa nem ensaiar. Na hora o contra-regra vem lhe buscar.

            - OK. Eu faço.

            Era um monólogo, onde um homem contava a uma mulher, em pleno Times Square de New York, uma aventura que lhe acontecera. O contra-regra me chamou, eu fui e entrei no estúdio onde não conhecia ninguém e ninguém me conhecia. Estava no intervalo comercial. Eu disse um “alô”geral, em cumprimento e recebi de volta um gemido total. A cena abria com o meu monólogo, e a mulher para quem eu contava o caso era desse tipo de atriz que gostava de falar uma coisinha nos vazios.

            - Você nem imagina o que me aconteceu.

            - Sim…(Ela falou sem estar escrito)

            Ao perceber isto eu já fui deixando os brancos para os murmúrios que ela adorava. Até que cheguei ao final do monólogo:

            - … devolvi a carteira a ele na casa dele e imagine que ele me deu, de presente, dois mil dólares !

            E ela, pernambucana de Casa Forte, nordestina da gota, cachorra da mulesta, vivendo o papel de uma americana, em Times Square:

            - Arre, égua !

            Saí do estúdio mijado. Era o único modo de segurar o riso. 

 

                                   

                                                                                                        Chico Anysio

 

 

 

 

Desenho:      RPires