UM AMIGO DE FÉ

 

          

   

 

         Quando o Carlos Manga, na Excelsior, me deportou para São Paulo, para que eu trabalhasse numa emissora que tinha um único estúdio e duas câmeras, talvez pensasse que estava decretando a minha morte; o negócio é que, ao mesmo tempo, ele me deu o direito de escolher um diretor e eu escolhi Daniel Filho. O Manga riu muito ao saber que meu escolhido era o Daniel e disse uma frase ao telefone que eu de longe escutei:

         - Vai no primeiro avião.

         O Daniel foi, e o Edson Leite, diretor geral da Excelsior, resolveu nos ajudar. Alugou um equipamento de externas, uma unidade móvel e o Daniel e eu, com a ajuda do Irvando Luiz e do Marcos Cesar, escrevemos programas a serem gravados em externa. Tudo in loco. Uns oficina era gravado numa oficina, (essa frase está meio truncada, meu primo) um colégio num colégio real… e um dia combinamos com a direção e o treinador e foi escrito um programa para ser gravado na concentração do Santos.

         Quando, na terça-feira, o caminhão de externa e o ônibus com os atores chegaram à Vila Belmiro, às 7.30 da manhã, o porteiro nos informou que, como o jogo de quinta era considerado fácil, o Lula (o técnico) havia cancelado a concentração. Eu, imediatamente, fui à casa do Pelé, de quem durante muito tempo fui vizinho. Dona Celeste me atendeu sempre gentil e, ao saber do caso, sugeriu que eu o acordasse. Fui ao quarto do rei e…

         - Pelé…Pelé…

         Ele acordou num pulo e tomou um susto ao me ver.

         - Que aconteceu ?

         Eu contei o caso e ele, sem titubear:

         - Me espera aí. Eu vou tomar um banho e vou acordar os jogadores e mandar todos eles pra Vila. Eu sei onde eles moram.

         15 minutos depois ele saiu, e eu voltei para o estádio. Daniel já começou a posicionar as câmeras e preparar tudo para filmagem. Meia hora depois começaram a chegar os craques do Santos: Orlando Peçanha, Rildo, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pepe, Zito… Ao meio-dia chegou o Pelé. De táxi.

         - Mandei um cara com o meu carro a São Paulo buscar o Gilmar e o Mauro. A que horas eu posso chegar ?

         Daniel disse que ele poderia chegar apenas à noite, pois a cena dele era a última.

         O programa terminava com o Pelé e eu trocando cabeçadas e eu sugeri que eles me levantassem e saíssem comigo, como se me fosse jogar na piscina. O Pelé com a camisa do Santos e eu com a do Palmeiras.

         Tudo bem. Eles me levantaram… o Daniel gritou: “Corta”. O programa acabou. Pelé chegou para o Daniel e pediu:

         - Por favor, não põe no ar esta cena da gente levantando o Chico.

         - Por quê ?

         - Eu manjo esse safado. Ele vai dizer que isto é o Santos reconhecendo a superioridade do Palmeiras.

         Nem pude reclamar, porque era exatamente isso que eu iria dizer.

         Por causa dessas coisinhas é que igual ao Pelé… ninguém. Ou “nadie”- como diria o Maradona. 

 

                                                                                                       Chico Anysio

 

 

 

 

Desenho:      RPires