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O
PAÍS DOS MEUS SONHOS
Andando há 40 anos por este país, catando dinheiro para
levar pra casa, eu aprendi a acreditar. Acreditar na terra, no
homem, na chuva, na benção, na semente, no fruto, no coração,
na mente… na inteligência. Aprendi, com o meu povo, que
quando uma coisa está muito séria, o melhor que se faz é
brincar com ela. E, naquelas tardes terríveis, sozinho num
quarto de hotel, esperando a hora do show, eu comecei a desenhar
o pais dos meus sonhos. Um país onde cada lavrador tenha um par
de bois para puxar seu arado e que de tarde, ao voltar para
casa, encontre um par de filhos o esperando e à noite quando
for dormir, tenha um par de pernas para amar; no país dos meus
sonhos, todo pobre vai comer, todo hospital terá remédios,
todo aluno terá colégio, todo professor ganhará um salário
decente e todo policial apenas prenderá os bandidos, em vez de
os ajudar a matar e a roubar; no país dos meus sonhos todo cego
vai ver, todo surdo vai ouvir e todo mudo vai ver e ouvir coisas
tão lindas que nem será preciso dizer nada; no país dos meus
sonhos a integração do homem com a natureza será tanta que eu
chego a imaginar uma árvore dizendo a um homem: “Você me
tratou tão bem, foi tão legal comigo, que eu gostaria de me
transformar na mesa da sua casa, nas cadeiras onde sua família
sentará, no berço do seu filho”. No país dos meus sonhos, o
homem branco, afinal, vai descobrir que o coração do negro é
do tamanho do seu e o sangue da mesma cor. O país dos meus
sonhos um dia será verdade. E ele será tão feliz que nem vai
precisar de mim para fazer rir um pouco. Não faz mal. Eu perco
o emprego, mas não perco o meu sonho. Boa noite.
Chico
Anysio
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