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O
ESTUPRO
Maria de Ajuda, filha do capataz da Fazenda N.S do Carmo, de propriedade de um deputado famoso, era menina ajeitada, como se diz por aquelas bandas. Corpinho arrumado, feições de moça rica, cabelo liso se esparramando sedoso por suas costas que terminavam numa bundinha empinada, começo de pernas encimadas por um par de coxas para homem nenhum botar defeito.
Maria da Ajuda era de tal modo sedutora que o próprio deputado já andara pensando em levá-la consigo numa das suas viagens à Europa, montar uma casa para D’Ajuda em Brasília, vesti-la em roupas de
griffe, perfumá-la “fabriqué em France”, enfim… aquele famoso banho de loja e fazer de Maria da Ajuda o seu auxílio permanente na Capital. Desistiu em atenção a Orozimbo, seu capataz de muitos anos, filho de Otoniel, capataz da fazenda quando o dono ainda era Coronel Xantipo, pai do deputado e quase tão ladrão quanto ele.
Mas sabe como as coisas são. Nem todos têm o mesmo respeito pelas filhas dos outros e, assim sendo, Julio César, metido a galã, cabra que as moças diziam ser parecido com Tony Ramos, pegou Maria da Ajuda num dia de cio e sumiu com ela no mundo.
Orozimbo ficou sabendo ter sido Julio César porque o rapaz nem se incomodou em fazer a coisa escondido. Escancarou.
- Vamos pegar esse corno safado !
Os douze seguiram o chamamento de Orozimbo e se danaram pelo mato, no rumo da Serra do Espinhaço. No cruzamento de um rio seco, Orozimbo viu que tudo já estava lascado.
- Vamos voltar que não tem mais jeito. Tá aqui no chão a marca de dois "joêio" e de um coque. Voltaram, mas não saía da cabeça de Orozimbo a idéia de ir à forra em Julio César do mal que ele causara à sua filha.
Um dia pegou. Junto com mais uns oito amarrou Julio César numa árvore e aí cada um deles vinha e dava um soco, um pontapé, uma paulada, uma lanhada de cipó, uma surra bem dada.
Foi quando o deputado apareceu no seu cavalo zaino e gritou de longe a ordem definitiva.
- Parem com isso. Nove dando num homem. Um homem a gente mata, mas não bate nele. Matem o homem mas não dêem nele.
E Julio César, já só com um fiozinho de voz:
- Matar, não, deputado… Assim como vai já não tá indo tão bem?
Chico
Anysio
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