A GRANDE CHANCE

         

         O mundo está cheio de gente de talento esperando uma oportunidade. A grande chance que tanta gente espera e procura às vezes chega, às vezes não. Há um sem número de gente de talento para a arte dramática, a pintura, o esporte, a arquitetura, a decoração, enfim, para uma série de profissões – de um certo modo ligadas ao talento inato, esperando a chegada da sua grande chance.

         Garrincha, que nos deu uma copa, ganhando-a sozinho (a de 62, no Chile) e outra com ajuda dos colegas (a de 58), só veio a ter sua grande chance porque Nilton Santos, em 1954 foi à Diretoria do Botafogo e deu um ultimato:

         - Ou contrata hoje ou eu vou para o clube que ele for, porque hoje foi a última vez que eu joguei contra ele.

         Referia-se ao treino onde Garrincha “acabou” com o nosso maior lateral de todos os tempos. E olhem que isto aconteceu quando Mané Garrincha já ia para os 25 anos !

         Eu fiquei nove meses (de janeiro a setembro) indo de segunda a sexta feira para a Rua Primeiro de Março, 123. Ali ficava a Rádio Guanabara. Eu chegava lá às sete e meia da noite e saia às dez e meia, esperando ser atendido pelo Diretor que, afinal me recebeu e me mandou fazer um Rádio-Baile com piadas, o que eu fiz e me deu um emprego. Trabalhei dois meses nesta rádio até que ela foi vendida e o meu emprego acabou. Voltei a ela sete meses depois através de um teste, mas aí ela já estava na Rua Treze de Maio, já era outro padrão.

         Um dia, numa gravadora, havia um disco do Ciro Monteiro (acho que era o Ciro) a ser gravado. A gravação seria com regional e o rapaz do cavaquinho faltou.

         - Sem cavaquinho não se pode gravar. Vamos cancelar.

         Então alguém da fábrica de discos teve uma idéia e a expôs aos demais:

         - Por que não experimentam este rapaz que está há um ano vindo aqui e ninguém o escuta. Pode ser que ele possa quebrar o galho.

         Concordaram e chamaram o rapaz.

         - Toca uma coisa aí.

         Ele tocou “Tico-Tico no Fubá” e todos ficaram de queixo caído. Mas era pouco para o rapaz.

         - Agora vou tocar um chorinho meu.

         E tocou “Brasileirinho”. Era Waldyr Azevêdo que, naquele mesmo dia, gravou seu primeiro LP e um mês depois já era o maior sucesso do país.

         Pergunto: e se o cara do cavaquinho não tivesse faltado ?

Chico Anysio

 

 

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