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O
ASCENSORISTA
Em cada emissora onde eu trabalhei havia uma figurinha
especial, a quem chamávamos, naquele tempo, de “figurinha difícil”.
Esta figura difícil da Record era o “Seu Santana”, o
ascensorista do elevador que servia à direção, porque para os
artistas era vetado. A não ser que estivéssemos indo falar com
o Alfredo de Carvalho, o Paulinho, o Tuta…um dos donos.
Seu Santana, natural de Bebedouro, terra da laranja, já
devia andar na casa dos 75 anos, mas o Paulinho Machado de
Carvalho, proprietário de um coração derretido, despedia
funcionários o menos que podia. Gente menos útil que Seu
Santana continuava na Record, por que o mandar embora ?
O elevador, por ser tão exclusivo (ou semi-exclusivo)
tinha pouco movimento, o que dava ao Seu Santana a possibilidade
de, durante o trabalho, fazer a coisa que mais gostava: ler. É
verdade que ele não lia Dostoiewsky nem Balzac, mas aqueles
livrinhos vendidos em bancas de jornal, geralmente livros de “far-west”.
Roberto Silveira foi quem teve a idéia. Descobrindo que
Seu Santana era chegado a uma biritazinha, o Roberto usava uma
daquelas garrafinhas de se levar uísque no bolso, enchia de
pinga e aí formava-se a fila.
O primeiro ia, oferecia um golezinho ao Seu Santana e,
enquanto ele bebia não um, mas dois, arrancava uma página do
livro. Daí a alguns minutos ia o outro, com a mesma garrafinha
e oferecia um golezinho. Enquanto Seu Santana bebia os seus dois
goles, outra página, um pouco mais da frente, era arrancada.
Esta manobra se repetia até a cachaça da garrafinha acabar. Já
não mais se precisava dela, porque Seu Santana mal se agüentava
sentado naquele banquinho mínimo dos ascensoristas.
Então vinha o desfecho.
Isto era repetido todos os dias somente para que, já à
noitinha, o último filho da puta da fila chegasse a ele com a
pergunta:
- E então, Seu Santana ? O livro é bom ?
E ele respondia, diariamente, a mesma coisa:
- Bom, ele é, mas é um bocadinho "sarteado".
Filho da puta é filho da puta em qualquer situação
Chico
Anysio
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