DONA MARIA DA CRUZ CABUGÁ

       

 

         Quando eu trabalhei na Rádio Clube de Pernambuco, a gloriosa “Pioneira” de Arnaldo Moreira Pinto, tive oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas, como a Dona Maria, que tinha uma biboca na Avenida Cruz Cabugá, defronte ao prédio da emissora.

         A biboca da Dona Maria era muito freqüentada pelo pessoal da rádio, porque a cachaça que ela servia era “de cabeça”, cachaça vinda de um engenho, da melhor qualidade.

         Nordestino gosta de uma bicada. Haja vista que quando se vai tomar um banho de cachoeira, por exemplo, leva-se uma aguardente para tomar antes do banho. Mas cada um leva a sua garrafa, porque o que se entorna é uma coisa gloriosa.

         Dona Maria, portuguesa vinda do Vizeu para o Recife, sem passagem por Lisboa ou pelo Rio de Janeiro, mulher daquelas de pano negro na cabeça e negro também no vestido de uma viuvez acontecida há 30 anos passados, nada mudara desde sua chegada.

         O pessoal da rádio, então, resolveu fazer uma gozação diária e sistemática com D. Maria. Ia um à sua biboca e pedia dois cruzeiros de cachaça. D. Maria servia, o cara olhava…

         - Dois cruzeiros é só isso ?

         Dona Maria tomava o copo da mão do freguês e…

         - Não quer, não ? A casa aceita.

         E ela bebia a dose.

         Dez minutos depois vinha outro, pedia três cruzeiros e, após ser servido…

         - Três cruzeiros só esse tiquinho ?

         - Não quer, não ? A casa aceita.

         E virava o copo.

         Isto acontecia seis, sete vezes. Lá pelas cinco da tarde, chegava um à biboca. Dona Maria, lá no fundo, na sua cadeira de balanço, ouvindo o rádio. Daqui do balcão o freguês fazia a pergunta:

         - D. Maria, tem cachaça ?

         E ela, bêbada e incapaz de levantar, respondia invariavelmente:

         - Cachaça, tem. Só não tem quem sirva.

Chico Anysio

 

 

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