SEU FULANO DA RÁDIO CLUBE

  

         Não me lembro do nome dele. Parece que era Manoel. O fato é que Seu Manoel – vamos chamá-lo assim – era pessoa da total confiança de Arnaldo Pinto, proprietário da Rádio Clube de Pernambuco, onde trabalhava, ao que parece, desde a fundação da rádio que foi a primeiro emissora e entrar no ar no Brasil, o que lhe valia o slogan de: “A Pioneira”.

         Seu Manoel não tinha horário. Nunca cheguei à estação, fosse à hora que fosse que não o encontrasse junto à porta de entrada.

         Não era porteiro, apenas. Ele era tudo, na rádio. Qualquer serviço extra, manual, Seu Manoel executava, sem haver a necessidade de se chamar um especialista.

         Um dia, quando eu fazia a programação da tarde como locutor, eu sempre pedia ao operador para não passar o som porque, enquanto a música tocava, no silêncio eu ia escrevendo as piadas que depois passaria – à máquina – para o papel, fazendo assim o meu programa de humor.

         Numa dessas tardes seria feito um conserto no estúdio B e eu tive que passar para o Estúdio A, o grande, onde se faziam as novelas e os programas montados. Peguei a caixa de textos e, no silêncio, entrei no estúdio e me sentei à mesa.

         Lá no fundo do estúdio seu Manoel enviava uma ponta do tapete para debaixo do rodapé. Ele não me viu entrar. O primeiro texto a ser lido era um anúncio do Talco Ross. O operador me deu o sinal com a luz vermelha. Eu me preparei e, acendendo a luz branca ele abriu o microfone. Eu quebrei o silêncio com o texto do talco:

         - E então, como vai o calor ?

         E, antes que eu dissesse que para aquele calor somente Talco Ross, seu Manoel gritou de lá:

         - Tá foda.

         Achei inteiramente injusta a suspensão de uma semana por ter rido ao microfone, após o comentário do Seu Manoel. Ninguém conseguiria ficar sério depois daquilo.

Chico Anysio

 

 

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