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O
VALENTÃO DO LEME
Houve um tempo, no Rio de Janeiro, que cada bairro tinha
o seu valentão. Era o Frederico em Copacabana, o Raul na Urca,
o Waldemar no Catete, o Silvão no Cosme Velho…
Tudo no bairro tinha que acontecer dentro do desejado por
eles, de acordo com a vontade do valentão. O interessante é
que todos se respeitavam e ninguém soube, nunca, de um ter que
encarar o outro numa disputa, uma briga, fosse por que motivo
fosse. O fato de mandar na sua circunscrição era mais que
suficiente para todos eles.
No Leme, o valentão era o “Chave Inglesa”. Ninguém
sabia o seu nome de batismo, mas no Rio não havia quem não
soubesse da existência do “Chave Inglesa”, mandando e
comandando do Leme até o Lido.
“Chave Inglesa” morava na Ladeira Ary Barroso – que
naquela época chamava-se Ladeira do Leme, numa casa de madeira,
pobre, mas isto não interessava para ele. Tinha – segundo se
dizia – apenas um amigo, o ex-salva-vidas “China”, também
morador da Ladeira e que mantinha um Centro Espírita em sua
casa.
China foi um dos primeiros banhistas do Rio e professor
da maioria deles. Mas o fato de ser amigo do China não aliviava
ninguém de uma pressão do “Chave”, se este fosse o desejo
dele. Ao China ele respeitava – até mesmo pela idade, mas ser
amigo do China não livrava a cara de ninguém.
Um dia um jovem casal, saído da praia, dirigia-se para
seu carro e passou pelo “Chave” que conversava com um amigo
perto do “Sacha’s”, cheio de palavrões. O rapaz deixou a
moça um pouco afastada e veio até o “Chave” e seu amigo,
muito gentil:
- Oh, amigo… eu estou passando aqui com a minha menina
e o senhor aí com a boca cheia de palavrões…
O amigo do “Chave” foi quem respondeu:
- Esquece isso e vai embora, garotinho, porque esse aqui
é o Chave Inglesa e ele faz o que quiser.
O rapaz, que era faixa-preta de jiu-jitsu, segurou com o
polegar e o indicador nas banhas da cintura do “Chave” e,
enquanto apertava o que podia, foi falando, mansamente:
- E então ? Sendo o Chave Inglesa é até um motivo mais
forte para ter a boquinha limpa, porque vamos que eu me aborreça
e resolva lhe dar uma surra. Vai ficar bonito para o famoso
Chave Inglesa apanhar feito boi ladrão de um garotão que ninguém
sabe quem é… aqui, na casa dele ? Passe a tomar conta do que
fala, para não apanhar e muito quem sabe até sem ter conserto.
OK ?
E como apertava mais a cada frase falada, Chave Inglesa,
no final, já estava todo retorcido. O rapaz soltou as banhas
dele e foi embora com a namorada, enquanto Chave Inglesa
levantou a camisa e, dando massagem naquela poça de sangue da
cintura, comentava com o amigo:
- Rapazinho forte…
Chico
Anysio
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